A Grande Gripe
Parte VII: A CORRIDA
Parte VII
A CORRIDA
CAPÍTULO VINTE E DOIS
A - em 1918, e para tanto
escolheu a forma do vírus influenza. Isso significou sua infiltração inicial no mundo de modo familiar, quase cômico. Apareceu fantasiada. Depois, retirou a máscara e mostrou sua verdadeira face.
Então, à medida que o patógeno foi se disseminando dos
acantonamentos para as cidades, à medida que se espalhou dentro das cidades, à medida que passou da cidade para a aldeia, para o vilarejo e para as fazendas, a ciência da medicina também começou a se mover. Iniciou a própria corrida contra o patógeno, movendo-se com rapidez e propósito jamais vistos.
Cientistas não tinham a pretensão de pensar que
conseguiriam ou poderiam controlar essa fúria da natureza. Mas não abandonaram suas pesquisas visando controlar o dano dessa fúria. Ainda continuavam tentando salvar vidas.
A luta e a corrida começaram mundo afora. Nos Estados
Unidos, ela seria travada por Welch, Gorgas, Cole e seus colegas, bem como pelas instituições que haviam erigido e pelos homens e mulheres que tinham treinado. Nem essas instituições nem esses homens e mulheres jamais tinham sido submetidos a um teste assim. Nunca imaginaram que isso aconteceria um dia. Mas qualquer possibilidade de afetar o curso da doença repousava em suas mãos.
Para salvar vidas, precisavam da resposta de no mínimo uma das três seguintes perguntas. Era possível que até mesmo uma resposta aproximada, mesmo simples e tosca, permitisse-lhes conhecimento suficiente para intervir, para interromper a doença em um estágio crítico. Mas também era possível descobrirem respostas com detalhes para todas as três perguntas e ainda assim continuarem impotentes, absolutamente impotentes.
Primeiro, precisavam compreender a epidemiologia da gripe,
como se comportava e se espalhava. Cientistas já tinham aprendido a controlar o cólera, a febre tifoide, a febre amarela, a malária, a peste bubônica e outras doenças, ao entender sua epidemiologia antes mesmo de desenvolverem uma vacina ou a cura.
Em segundo lugar, precisavam aprender sobre sua patologia,
os danos causados ao corpo, o exato curso da doença. Isso também lhes possibilitaria intervir de alguma forma que fosse capaz de salvar vidas.
Em terceiro lugar, precisavam saber o que o patógeno era,
qual micro-organismo causava a gripe. Isso poderia lhes permitir encontrar um modo de estimular o sistema imunológico para evitar ou curar a doença. Também era possível que, ainda que não conhecessem a causa exata, pudessem desenvolver um soro ou uma vacina.
A pergunta mais fácil de responder dizia respeito à sua
epidemiologia. Embora alguns respeitados pesquisadores ainda acreditassem na teoria miasmática — acreditavam que a gripe se espalhava com rapidez demais para que transmissão pessoa-a-pessoa a explicasse —, a maioria acreditava, acertadamente, que se tratava de um patógeno transmissível pelo ar. Respirar o vírus podia causar a doença. Eles não sabiam detalhes exatos e precisos como, por exemplo, que quando o vírus paira no ar uma pessoa pode ser infectada uma hora ou um dia após sua exalação (quanto mais baixa a umidade, maior o tempo de sobrevivência do vírus). Mas sabiam que se tratava de uma “doença de multidão”, espalhada mais facilmente em aglomerações.
Também estimavam corretamente que alguém com gripe
“difunde” o vírus — pode infectar os outros — em geral do terceiro ao sexto dia depois de ter sido infectado.
Também acreditavam, acertadamente, que era possível pegar
o vírus influenza não apenas por inalação, mas também pelo contato da mão com a boca ou com o nariz. Achavam com razão que, por exemplo, um doente podia cobrir a boca com a mão ao tossir, e horas depois apertar a mão de alguém, e essa segunda pessoa podia, pensativa, coçar o queixo ou tocar no nariz ou colocar um pedaço de doce na boca e se infectar. Como também um doente podia tossir na mão, tocar em uma superfície dura como, por exemplo, a maçaneta, e contaminar alguém que mexesse na maçaneta e depois levasse a mão ao rosto. (Na verdade, o vírus pode continuar infeccioso em uma superfície sólida por dias.)
Conhecer a epidemiologia da gripe, portanto, pouco adiantava.
Apenas o isolamento impiedoso e rigoroso e a quarentena poderiam desacelerar seu progresso. Nenhum cientista ou autoridade sanitária tinha poder para tomar essa atitude. Algumas autoridades locais podiam tomar alguma medida, mas nenhuma personalidade nacional poderia. Mesmo no exército, os pedidos urgentes e desesperados de Gorgas para pôr fim à transferência de tropas foram ignorados.
Cientistas também aprendiam bastante a respeito da patologia
da doença e seu curso natural. Aprendiam, sobretudo, que não podiam fazer quase nada para intervir em casos graves, naqueles que progrediam para pneumonia viral e SARA; mesmo administrar oxigênio parecia não surtir qualquer efeito.
Acreditavam, contudo, que talvez fosse possível salvar vidas
se pudessem evitar ou tratar as pneumonias mais lentas causadas pelo que corretamente suspeitaram ser invasores secundários. Algumas medidas preventivas incluíam apenas dar instruções seguras, como ficar de repouso depois de infectado, ou prestar cuidados, o que se tornava cada vez mais impossível tendo em vista o aumento do número de doentes enquanto os próprios médicos e enfermeiras sucumbiam.
Mas se pudessem encontrar o patógeno... Eles tinham
instrumentos, podiam manipular o sistema imunológico, podiam evitar e curar algumas pneumonias — inclusive as mais comuns. A vitória sobre as pneumonias bacterianas parecia tentadoramente ao alcance da ciência, ao alcance muito próximo dos cientistas — ou pouco além daí. Se ao menos pudessem encontrar o patógeno...
Todas as forças da ciência se ergueram para enfrentar o
desafio.
William Welch não se ergueria. De Camp Devens, retornara direto para Baltimore, sem parar em Nova York ou ir ao escritório do chefe de saúde pública do exército em Washington para se reportar. Outros poderiam cumprir esse dever, e ele já tinha dito tudo o que tinha para ser dito por telefone.
Além do mais, Welch não se sentia muito bem. Sem dúvida,
tentou dispensar a importância do desconforto. Afinal, tivera uma viagem difícil ao extremo. Pouco antes de ir para Devens, ele, Cole e Vaughan tinham concluído o último turno de inspeções na base e foram relaxar alguns dias em Asheville, Carolina do Norte. Welch chegara a contemplar a ideia de demitir-se do cargo. Então, foram abruptamente convocados para comparecer ao escritório do general médico em um domingo e ido direto para Devens, onde foram informados da terrível doença.
Ou seja, Welch tinha todos os motivos para estar cansado e
indisposto. Na certa, deve ter dito algo assim a si mesmo. O sacolejo do trem deve tê-lo incomodado, exacerbando os primeiros sinais de dor de cabeça. De qualquer modo, sendo um homem grande, sempre encontrava dificuldades em sentir-se confortável em trens.
Mas à medida que o trem seguia para o Sul, foi se sentindo
cada vez pior, talvez acometido por uma repentina e violenta dor de cabeça e pela tosse seca, sem secreção e na certa uma febre. Teria observado seus sinais, clínica e objetivamente, e feito o diagnóstico certo. Estava com gripe.
Não existe nenhum registro de seu exato progresso clínico.
Baltimore e a Costa Leste estavam em chamas por completo. O vírus atacou a própria Hopkins com tanta violência que a universidade fechou o hospital para todos, salvo para a própria equipe e os alunos. Três alunos de medicina da Hopkins, três
enfermeiras da Hopkins e três médicos da Hopkins morreriam. 1
Welch não foi para o hospital. Com quase setenta anos,
quarenta anos mais velho do que os que morriam em maior número, tendo deixado pouco tempo antes o horror em Devens e sabendo da enorme tensão e, portanto, dos poucos cuidados oferecidos mesmo nas instalações da Hopkins, ele disse mais tarde: “Nem me passava pela cabeça ir a um hospital naquele
instante.” 2
Em vez disso, foi direto para a cama em seus aposentos, e lá
ficou. 3 Sabia que não deveria fazer qualquer esforço: esforçar-se depois de infectado com aquela doença poderia, facilmente, abrir caminho para que um invasor secundário levasse à morte. Depois de dez dias de cama em casa, quando se sentiu bem o suficiente para viajar e continuar a recuperação, retirou-se para o querido Hotel Dennis em Atlantic City, o lugar cafona e esquisito que era seu refúgio.
Em meio ao caos reinante por todo lado, Welch retornou
àquele lugar familiar que tanto conforto lhe trazia. O que sempre tinha gostado naquela cidade? Talvez a vida barulhenta que emanava dela. Hotéis tranquilos o entediavam: descreveu Mohonk, um resort nas montanhas a quase cinquenta quilômetros acima da cidade de Nova York, como “uma espécie de resort em Twin Lakes com a sra. Dares sentada em uma cadeira de balanço na grande praça, (...) onde parece que nunca vai dar nove horas da noite para que se possa ir dignamente para a cama (...) [G]ravatas coloridas não são permitidas”. Mas Atlantic City! e “o mais aterrorizante, milagroso, arrepiante
negócio conhecido como montanha-russa em loop4 (...) recém-construída em um comprido píer acima do oceano (...) [V]ocê desce de uma altura de uns sete metros (...) com a cabeça para baixo e os pés para cima, e cairia do carro se não fosse a fantástica velocidade. Quando passa pelo loop, a sensação é indescritível (...) Um monte de gente fica em volta e dizem que não tentariam aquilo nem por mil dólares”.
É, a vida barulhenta de Atlantic City — os rapazes e moças e
suas diversões, a sensualidade do suor, do surfe e do sal, a vibração e o movimento dos corpos no mar e no calçadão —, tudo isso fazia você sentir que não era alguém que não apenas observava, mas também participava. Mas agora Atlantic City estava calma. Em outubro, fora de estação, os hotéis ficavam vazios. E aqui, como em todos os lugares, havia a gripe. Aqui, como em todos os lugares, havia escassez de médicos, escassez de enfermeiras, escassez de hospitais, escassez de caixões, as escolas fecharam, os locais públicos de diversão fecharam, a montanha-russa em loop deixara de funcionar.
Welch ainda passou várias semanas de cama, em
recuperação. A doença, contou ao sobrinho, “parece ter se instalado no meu intestino, e não no trato respiratório, o que provavelmente é uma sorte”. Insistiu para que o sobrinho, mais tarde eleito senador nos Estados Unidos, se assegurasse de que caso alguém da família apresentasse qualquer sintoma de gripe deveria ficar em repouso “até a temperatura permanecer normal
por três dias”. 5
Planejara comparecer a uma reunião a respeito da doença no
Rockefeller Institute, mas quase duas semanas depois de ter chegado em Atlantic City, um mês depois de ter ficado doente pela primeira vez, resolveu cancelar o encontro; ainda não estava totalmente recuperado para comparecer. Não desempenharia qualquer outro papel na ciência da medicina durante a epidemia. Não participaria da busca por uma solução. Claro, havia anos não fazia nenhum trabalho em laboratório, mas provara-se um contato extremamente útil, pois conhecia todos e tudo, era um “agente polinizador”, capaz de identificar como o trabalho de um pesquisador poderia complementar o trabalho de outro e, direta ou indiretamente, colocar os dois em contato. Agora não desempenharia sequer esse papel.
Por coincidência, tanto Flexner quanto Gorgas chegaram à
Europa para tratar de assuntos distintos, quando a gripe eclodiu nos Estados Unidos. A geração transformadora da medicina americana havia se retirado da corrida. Se havia algo a ser feito em termos de avanços científicos, seus descendentes espirituais cuidariam disso.
Welch deixara Massachusetts quando Burt Wolbach realizava
mais autópsias, Milton Rosenau já dera início a testes com voluntários humanos, e Oswald Avery começava suas pesquisas bacteriológicas. Outros renomados cientistas também se dedicavam ao assunto: William Park e Anna Williams em Nova York, Paul Lewis na Filadélfia, Preston Kyes em Chicago e outros. Se o país tivesse sorte, muita sorte mesmo, um deles poderia encontrar uma solução a tempo de ajudar.
Apesar da grande urgência, os pesquisadores não poderiam se permitir entrar em pânico e chegar a uma abordagem desordenada. A desordem não levaria a lugar nenhum. Começaram a partir do que sabiam e com o que podiam fazer.
Eles podiam matar patógenos fora do corpo. Uma variedade
de produtos químicos poderia desinfetar cômodos ou roupas, e eles sabiam a quantidade exata de produtos químicos necessários e a duração da exposição necessária para fumegar um cômodo. Sabiam como desinfetar instrumentos e materiais. Sabiam como desenvolver bactérias e como usar o método de coloração bacteriana para enxergá-las no microscópio. Sabiam que o que Ehrlich chamara de “balas mágicas” existiam e podiam matar patógenos infecciosos e tinham, inclusive, começado a trilhar os caminhos certos para encontrá-los.
Contudo, em meio à crise, com a morte por todo lado, nenhum
desses conhecimentos era útil. A fumigação e a desinfecção exigiam trabalho demasiado para usar em larga escala, e encontrar a bala mágica implicava na descoberta de mais coisas desconhecidas do que era possível na ocasião. Os pesquisadores não demoraram a reconhecer que não podiam contar com a ajuda de material médico.
Entretanto, a medicina sabia como usar uma ferramenta,
embora ainda não a dominasse por completo: o sistema imunológico em si.
Pesquisadores compreendiam os princípios básicos do
sistema imunológico. Sabiam como manipular esses princípios para evitar e curar certas doenças. Sabiam como desenvolver, bem como enfraquecer e fortalecer bactérias em laboratório, e como estimular uma reação imunológica em animais. Sabiam como produzir vacinas e também antissoros.
Também compreendiam a especificidade do sistema
imunológico. Vacinas e antissoros funcionam apenas contra agentes etiológicos específicos, o patógeno ou a toxina específica causadora da doença. Poucos pesquisadores se importavam com a elegância de seus testes quando amigos, membros da família e colegas ficavam doentes. Mas, para ter esperanças de uma proteção com uma vacina ou a cura com um soro, os pesquisadores precisavam isolar o patógeno. Precisavam de resposta para a primeira pergunta, a mais importante — na verdade, àquela altura, a única pergunta. O que causava a doença?
Richard Pfeiffer acreditou ter encontrado a resposta um quarto de século antes. Um dos mais brilhantes discípulos de Koch, diretor científico do Instituto de Doenças Infecciosas de Berlim e general do exército alemão, tinha sessenta anos em 1918 e, na época, já se tornara um tanto ou quanto imperioso. Durante a carreira, havia tratado algumas das maiores questões da medicina e fora responsável por enormes contribuições. Independentemente dos padrões, ele era um gigante.
Durante e depois da pandemia de gripe de 1889–1890 — a
mais grave pandemia de gripe dos últimos três séculos com exceção da ocorrida em 1918-1919 —, ele buscara a causa. Com toda atenção, meticulosamente, isolara de pessoas com gripe bactérias minúsculas, delgadas e em forma de bastão com extremidades arredondadas, embora algumas vezes elas aparecessem em formatos diferentes. Frequentemente, o único organismo presente encontrado era a bactéria, e ele a descobriu
em “números surpreendentes”. 6
Sem dúvida, essa bactéria tinha a capacidade de matar, ainda
que em animais a doença não apresentasse semelhanças com a gripe humana. Portanto, a evidência não atendeu aos “postulados de Koch”. Mas muitas vezes os patógenos humanos ou não adoecem animais ou lhes causam sintomas diferentes, e muitos patógenos são aceitos como a causa de uma doença sem satisfazerem por completo os postulados de Koch.
Pfeiffer estava confiante de ter descoberto a causa da gripe.7
Inclusive, dera o nome de Bacillus influenzae à bactéria. (Hoje, essa bactéria é conhecida como Hemophilus influenzae.)
Entre os cientistas, a bactéria logo ficou conhecida como
“bacilo de Pfeiffer”, e dada sua merecida reputação, poucos duvidaram da validade de sua descoberta.
A certeza gera força. A certeza serve de sustento. A incerteza gera fraqueza. A incerteza faz com que se receiem as tentativas, e passos hesitantes — mesmo quando na direção certa — podem não superar obstáculos significativos.
Ser um cientista exige não apenas inteligência e curiosidade,
mas paixão, paciência, criatividade, autossuficiência e coragem. Não a coragem de se aventurar no desconhecido, mas a coragem de aceitar — na verdade, abraçar — a incerteza. Como disse Claude Bernard, o grande fisiologista francês do século XIX: “A ciência nos ensina a duvidar.”
Um cientista deve aceitar o fato de que todo o seu trabalho e
mesmo suas crenças podem desmoronar sob a ponta afiada de uma única descoberta laboratorial. E assim como Einstein recusou-se a aceitar a própria teoria até suas previsões serem testadas, todos devem buscar essas descobertas. Em última análise, o cientista só pode acreditar no processo de investigação. Agir com determinação e agressividade mesmo quando inseguro exige uma autoconfiança e uma força superiores à coragem física.
Todos os verdadeiros cientistas vivem nessa fronteira. Mesmo
o menos ambicioso lida com o desconhecido, ainda que um passo além do conhecido. Os melhores se embrenham profundamente na região selvagem onde quase tudo é desconhecido, onde as próprias ferramentas e técnicas para desobstruir a floresta, ordená-la, não existem. Ali, investigam de modo disciplinado. Ali, um único passo pode levá-los através do espelho para um mundo que parece totalmente diferente e, se estiverem corretos apenas em parte, sua investigação age como um cristal para encontrar ordem no caos, para criar forma, estrutura e direção. Um único passo também pode tirar alguém do precipício.
Na floresta, o cientista precisa criar... tudo. É um trabalho
árduo, um trabalho tedioso que começa ao se imaginar quais ferramentas são necessárias e em seguida produzi-las. Uma pá pode desenterrar a sujeira, mas não consegue penetrar na rocha. Seria melhor então usar uma picareta ou usar dinamite — ou seria a dinamite indiscriminadamente destrutiva? Se a rocha é impenetrável, se a dinamite destruir o que se busca, existe outra maneira de obter informação acerca do que a rocha contém? Um córrego passa por cima da pedra. Analisar a água depois de ter passado pela rocha revelará algo útil? E como analisá-la?
Em última análise, se o pesquisador for bem-sucedido, vários
colegas pavimentarão as estradas pelo caminho aberto, e elas serão ordenadas e retas, levando em minutos um pesquisador ao lugar que o pioneiro levou meses ou anos buscando. E a ferramenta perfeita estará disponível para venda, assim como ratos de laboratório não podem ser comprados em lojas de abastecimento.
Nem todos os pesquisadores científicos lidam bem com a
incerteza, e os que lidam podem não ter bastante criatividade para compreender e projetar os experimentos que trarão luz ao assunto — saber onde e como procurar. Outros podem não ter a confiança para persistir. Nem sempre os experimentos dão certo. Independentemente do projeto e da preparação, experimentos — em especial no começo, quando se procede por meio do trabalho de conjecturas inteligentes — raras vezes atingem os resultados desejados. O pesquisador deve fazer com que funcionem. Quanto menos conhecido, mais necessário é manipular e mesmo insistir nos testes para obter respostas.
O que leva a outra pergunta: Como alguém sabe quando
sabe? Por sua vez, isso leva a perguntas mais práticas: Como alguém sabe quando continuar a insistir em um experimento? E como alguém sabe quando abandonar um indício por ser uma pista falsa?
Ninguém interessado em qualquer verdade torturará os dados
em si, em hipótese alguma. Mas um cientista pode — e deve — torturar um experimento para obter informação, para obter um resultado, sobretudo quando investiga uma área nova. Um cientista pode — e deve — se valer de qualquer método para obter resposta: se o uso de ratos, porquinhos da índia e coelhos não fornecer respostas satisfatórias, então tente cães, porcos, gatos, macacos. E se algum experimento mostrar uma sombra de resultado, uma mínima saliência em uma linha reta de informação, então o cientista deve projetar o novo experimento para se concentrar nessa saliência, para criar condições mais prováveis de obter um maior número de saliências até que se tornem consistentes e pertinentes ou demonstrem que a saliência inicial não passou de mera variação aleatória sem significado.
Há limites para essa manipulação. Mesmo sob tortura, a
natureza não mentirá, não produzirá resultados consistentes e reproduzíveis, a não ser que sejam verdadeiros. Mas se demasiado torturada, a natureza induzirá ao erro: confessará alguma coisa verdadeira sob condições especiais — as condições criadas pelo pesquisador no laboratório. Sua verdade, então, será superficial, um artefato experimental.
O fundamental para a ciência é que o trabalho seja
reproduzível. Alguém em outro laboratório que faça o mesmo experimento obterá o mesmo resultado. Só então o resultado é confiável e outra pessoa pode desenvolvê-lo. A pior condenação é desconsiderar uma descoberta como “não reproduzível”. Isso pode pôr em questão não apenas a habilidade, mas por vezes a ética.
Se uma descoberta reproduzível é obtida torturando-se a
natureza, contudo, não é útil. Para ser útil, o resultado deve não apenas ser reproduzível, mas... talvez deva ser chamado de expansível. Pode ser passível de ser ampliado, explorado, proporcionar mais aprendizado, ser usado como base para criar estruturas.
Tudo isso é fácil discernir quando se olha em retrospectiva.
Mas como saber quando persistir, quando continuar a tentar fazer com que um experimento funcione, quando realizar ajustes — e quando finalmente abandonar uma linha de pensamento e considerá-la errada ou incapaz de solução com as técnicas existentes?
Como saber quando agir de uma forma ou de outra? Trata-se de discernimento, pois o elemento diferencial em
ciência não é a inteligência, mas o discernimento. Ou talvez seja apenas sorte. George Sternberg não deu sequência à sua descoberta do pneumococo, nem foi atrás de sua descoberta de que os glóbulos brancos devoravam bactéria. E agiu assim para não se desviar da malsucedida pesquisa a respeito da febre amarela. Dadas suas habilidades, caso tivesse se concentrado em uma das outras descobertas, seu nome seria lembrado e não esquecido na história da ciência.
O discernimento se mostra algo muito difícil, pois um resultado
negativo não significa que uma hipótese esteja errada. Tampouco dez resultados negativos ou cem resultados negativos. Ehrlich acreditou na existência das balas mágicas; compostos químicos poderiam curar uma doença. Seu raciocínio levou-o a tentar certos componentes para combater determinada infecção. Tentou mais de novecentos compostos químicos. Cada experimento foi iniciado com esperança. Todos realizados meticulosamente. Todos falharam. Por fim, encontrou o componente que funcionou. O resultado não foi apenas o primeiro medicamento capaz de curar uma infecção; aquilo confirmou sua linha de raciocínio, que levou milhares de pesquisadores a seguirem o mesmo caminho.
Como alguém sabe que sabe? Quando alguém está no limite,
não pode saber. Só pode testar.
Thomas Huxley avisou: “Certamente há um tempo para
submeter-se a orientações e outro para seguir o próprio caminho
e enfrentar todos os riscos.” 8
Thomas Rivers era um dos jovens da Hopkins que integrava a
Comissão de Pneumonia do Exército. Mais tarde — apenas poucos anos depois — ele definiria as diferenças entre vírus e bactéria, se tornaria um dos mais conceituados virologistas do mundo e substituiria Cole na chefia do Rockefeller Institute Hospital. Deu o exemplo da dificuldade de saber quando se sabe quando falou sobre dois colegas do Rockefeller, Albert Sabin e Peter Olitsky. Como Rivers recorda, eles “provaram que o vírus da poliomielite se desenvolve apenas no tecido nervoso. Trabalho requintado, absolutamente convincente. Todos
acreditaram nas provas”. 9
Todos acreditaram, exceto John Enders. O vírus no qual Sabin
e Olitsky trabalhavam tinha sido usado por tanto tempo no laboratório que sofrera uma mutação. Aquele vírus em particular só se desenvolveria em um tecido nervoso. Enders ganhou o prêmio Nobel por cultivar o vírus da pólio em outro tecido, trabalho que resultou diretamente na vacina contra a poliomielite. A carreira de Sabin não chegou a ser arruinada em consequência desse erro; ele deu prosseguimento e desenvolveu a melhor vacina contra a poliomielite. Olitsky também se saiu bem. Mas, se Enders tivesse seguido sua intuição e errasse, grande parte de sua carreira teria sido usada em vão.
Richard Pfeiffer insistiu em ter descoberto a causa, o agente
etiológico, da gripe. Sua autoconfiança era tão grande que chegou a chamá-la de Bacillus influenzae. Era um homem de imensa estatura profissional, meio patamar abaixo de Pasteur, Koch e Ehrlich. Sem dúvida, sua reputação suplantava a de qualquer outro pesquisador americano antes da guerra. Quem o contestaria?
Sua reputação trouxe à sua descoberta um peso
extraordinário. Em todo o mundo, muitos cientistas acreditaram nela. Alguns, na verdade, a aceitaram como um axioma: sem a bactéria não poderia haver influenza. “Nenhum bacilo de influenza foi encontrado em casos aqui”, escreveu um
pesquisador europeu.10 Portanto, a doença não era, concluiu, “gripe”.