A Grande Gripe

John M. Barry · Capítulo 31 de 43

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A Grande Gripe

Capítulo trinta

 

T de chegar na Cruz Vermelha e no

Serviço de Saúde Pública, exigindo, implorando, suplicando por ajuda. De Portsmouth, Virgínia, “Precisamos com urgência de

dois médicos de cor, envie candidatos nessas condições.”1 De Carey, Kentucky: “As minas de carvão federais exigem ajuda imediata contra a gripe. (...) Respondam imediatamente.” De Spokane, Washington: “Necessidade urgente de quatro enfermeiras para trabalhar com outras fornecidas pela Cruz

Vermelha local.”2

As demandas não puderam ser atendidas. As respostas

voltavam. “Não há médicos de cor disponíveis.”3 “É quase impossível o envio de enfermeiras. Todas necessárias

localmente.” 4 “Chamem voluntários locais com inteligência e experiência prática.”

A impossibilidade de atender as demandas não advinha da

falta de esforço. Os trabalhadores da Cruz Vermelha iam de casa

em casa,5 em busca de qualquer um com experiência em enfermagem. E quando encontravam alguém, iam atrás dessa pessoa. Josey Brown, enfermeira, assistia a um filme em um cinema em St. Louis quando as luzes se acenderam, a tela ficou em branco, e um homem apareceu no palco anunciando que a Josey Brown deveria se dirigir à bilheteria. Lá, ela encontrou um telegrama mandando que se apresentasse no Great Lakes Naval

Training Station.6

O JAMA repetidas vezes — às vezes duas vezes na mesma

edição — publicou “uma convocação urgente de médicos para ajudar nas localidades onde a epidemia está com uma severidade incomum. (...) Este serviço é um privilégio patriótico tão claro quanto servir no Corpo Médico do exército ou da marinha. (...) Como a convocação é imediata e urgente, sugere-se que qualquer médico que se sinta capaz de fazer parte desse trabalho envie um telegrama para o administrador-geral da saúde, no Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos,

Washington, D.C.” 7

Por mais que surgissem voluntários, nunca era o suficiente. Enquanto isso, os médicos tentavam de tudo — tudo mesmo

— para salvar vidas. Conseguiam aliviar alguns sintomas. Tinham condições de lidar com a dor usando de aspirina a morfina. Eram capazes de controlar a tosse, pelo menos até um grau, com codeína e, dizem, heroína. Davam atropina, digitálicos, estricnina e epinefrina como estimulantes. Davam oxigênio.

Algumas tentativas de tratamento que iam além do alívio dos

sintomas tinham base em sólidos fundamentos científicos, apesar de ninguém tê-las aplicado naqueles casos de gripe. Houve a abordagem de Redden, em Boston, baseada nos experimentos de Lewis com a poliomielite. Tal abordagem, com variações, foi aplicada por todo o mundo.

E havia tratamentos menos fundamentados pela ciência.

Pareciam lógicos. Eram lógicos. Mas o raciocínio também era desesperado, o raciocínio de um médico disposto a experimentar qualquer coisa, o raciocínio que misturava desvarios ou milhares de anos de prática e poucas décadas de método científico. Periódicos médicos de primeira linha rejeitaram artigos sobre supostas terapias que pareciam mais estranhas e ridículas, mas publicavam qualquer coisa que parecesse fazer o mínimo sentido. Não havia tempo para que os estudos fossem revisados (peer review), não havia tempo para uma análise cuidadosa.

O JAMA publicou o trabalho de um clínico que alegou: “A

infecção foi prevenida em praticamente 100% dos casos quando

[meu] tratamento foi usado de modo adequado.”8 A abordagem tinha lógica. Ao estimular a produção de muco, esse médico esperava ajudar uma das primeiras linhas de defesa do corpo humano, impedindo que qualquer patógeno se ligasse à membrana mucosa. Então, ele misturava produtos químicos em pó que provocavam irritação e os soprava no aparelho respiratório superior para aumentar o fluxo de muco. A teoria parecia boa. Talvez até funcionasse enquanto o muco fluía.

Um médico da Filadélfia teve outra ideia, lógica e mais ampla,

e escreveu no JAMA que “quando o sistema está saturado de

alcalinos, o material não favorece o crescimento bacteriano”. 9 Assim, ele tentava alcalinizar todo o corpo. “Empreguei de maneira uniforme, e sempre com bons resultados, a saturação de citrato de potássio e bicarbonato de sódio pela boca, vísceras e pele. (...) Os pacientes devem deixar de lado [sic] o alívio sedutor do ácido acetilsalicílico [aspirina]. (...) Minha experiência muito bem-sucedida com esta epidemia não pode ser descartada como acidental ou singular. (...) Insisto para que haja testes empíricos imediatos. Pesquisas laboratoriais ou clínicas adicionais podem acontecer mais tarde.”

Os médicos injetavam a vacina contra febre tifóide nos

pacientes, 10 pensando — ou esperando — que ela poderia, de algum modo, reforçar o sistema imunológico de modo geral, embora a especificidade da resposta imune fosse bem compreendida. Alguns afirmavam que funcionava. Outros aplicavam todas as vacinas conhecidas, seguindo a mesma teoria. O quinino funcionava em uma doença: a malária. Muitos trataram seus pacientes de gripe com quinino apenas por desespero.

Outros se convenciam de que encontraram a cura,

independentemente dos resultados. Um clínico de Montana relatou seu tratamento experimental para o New York Medical Journal: “Os resultados têm sido favoráveis.” Ele experimentou o tratamento em seis pessoas. Duas morreram. Mesmo assim, ele insistia: “Nos quatro casos de recuperação, os resultados foram

imediatos e certeiros.”11

Dois pesquisadores da Universidade de Pittsburgh não

apresentavam um raciocínio melhor. Eles acreditavam ter aprimorado a técnica que Resden adotara de Flexner e Lewis.

Trataram de 47 pacientes, vinte morreram.12 Subtraíram sete mortes, defendendo que as vítimas receberam a terapia tarde demais. Ainda sobravam treze mortos entre os 47 tratados. No entanto, consideravam um sucesso.

Um médico aplicou peróxido de hidrogênio por via intravenosa

em 25 pacientes com severa crise pulmonar, acreditando que

levaria oxigênio ao sangue.13 Treze se recuperaram, os outros doze morreram. Ele também considerou ter tido sucesso: “A anoxemia teve benefícios notáveis e a toxemia pareceu ser superada em muitos casos.”

Ao mesmo tempo, muitos de seus colegas tentaram outros

tratamentos estranhos e também alegaram sucesso. Muitos realmente acreditavam nisso.

Os homeopatas acreditavam que a epidemia demonstrava sua

superioridade diante dos “alopatas”. O Journal of The American Institute for Homeopathy afirmava que as vítimas tratadas por médicos comuns tinham uma mortalidade de 28,2% — um absurdo: se fosse assim, só nos Estados Unidos teriam ocorrido milhões de mortes —, e que alegavam 26 mil pacientes tratados por homeopatia, recebendo principalmente a droga à base de uma erva chamada gelsemium, tinham taxa de mortalidade de 1,05%, com muitos homeopatas garantindo não haver nenhuma morte entre seus milhares de pacientes. Mas os resultados eram informados pelos próprios médicos, facilitando demais uma racionalização que eliminava quem havia morrido sob seus cuidados — retirando da amostra, por exemplo, qualquer paciente que, contrariando seus conselhos, tomara aspirinas,

considerada um veneno pelos homeopatas. 14

 

Não era nada diferente em outras partes do mundo. Na Grécia, um médico usou emplastros de mostarda para criar bolhas na pele dos pacientes, para depois drená-las, misturando o fluído com morfina, estricnina e cafeína e injetando de volta. “O efeito era aparente de imediato e de 36 a 48 horas, ou mesmo em 12

horas, a temperatura cedia e o estado geral melhorava.”15 Mas a taxa de mortalidade de seus 234 pacientes era de 6%.

Na Itália, um médico aplicava injeções intravenosas de cloreto

de mercúrio. Outro esfregava creosote, um desinfetante, nas axilas — onde se encontram os linfonodos, postos avançados dos glóbulos brancos do sangue espalhados pelo corpo, sob a pele. Um terceiro insistia que enemas de leite morno com uma gota de creosote, a cada doze horas para cada ano de idade, preveniam a pneumonia.

O Gabinete de Guerra, na Grã-Bretanha, publicou

recomendações para terapia em 16 The Lancet . Eram bem mais específicas do que qualquer orientação nos Estados Unidos e, provavelmente, aliviavam alguns sintomas. Para o sono, vinte grãos de brometo, opiáceos para a tosse e oxigênio para a cianose. As recomendações alertavam que a venessecção raramente trazia benefícios, que o álcool era valioso, mas que um pouco era ganho ao ministrar alimentos. Para dor de cabeça: antipirina e ácido salicílico — aspirina. Para estimular o coração: estricnina e digitálicos.

Na França, o ministério da Guerra só procurou pela ajuda da

Académie des Sciences em meados de outubro. Para evitar a doença, alguns médicos e cientistas aconselhavam o uso de máscaras. Outros insistiam que o arsênico ajudaria na prevenção. Para o tratamento, o Pasteur Institute desenvolveu um soro antipneumocócico a partir de cavalos, bem como um soro derivado de sangue de pacientes que se recuperaram. (As comparações demonstraram que o soro de Cole e Avery era bem superior). Insistia-se em qualquer coisa que pudesse diminuir a febre. Recomendavam-se estimulantes para o coração. Assim como “revulsões” que purgavam o corpo. O azul de metileno, uma tintura usada para marcar as bactérias e torná-las mais visíveis sob o microscópio, foi experimentado apesar da sua conhecida toxicidade, na esperança de liquidar bactérias. Outros médicos injetavam soluções metálicas no músculo, para serem absorvidas gradualmente pelo corpo, ou de modo intravenoso. (Um médico que fazia as injeções intravenosas admitia que o tratamento era “um pouco brutal”.) A terapia com ventosas era recomendada — empregando uma chama para absorver o oxigênio e criar um vácuo num recipiente de vidro e depois colocando-o no corpo, teoricamente para retirar os venenos. Um

médico de destaque encorajava a “sangria imediata”17 de mais de 470 mililitros de sangue, diante dos primeiros sinais de edema pulmonar e cianose, junto com o ácido acetilsalicílico. E não estava sozinho na prescrição das sangrias. Um clínico recomendou a volta à “medicina heroica”, que defendia que, quanto mais o médico fizesse, mais o corpo era estimulado a reagir. Na doença como na guerra, dizia ele, o combatente deve

tomar a iniciativa.18

 

Pelo mundo afora, centenas de milhões — provavelmente dezenas de milhões só nos Estados Unidos — não se consultaram com médicos ou enfermeiras, e experimentavam todo tipo de medicina popular ou remédio fraudulento disponível ou imaginável. Bolas de cânfora com alho foram penduradas no pescoço das pessoas. Outros gargarejavam com desinfetantes, deixavam o ar gelado varrer suas casas ou fechavam bem as janelas e superaqueciam os cômodos.

Anúncios enchiam os jornais, às vezes compostos na mesma

letra das notícias — dificultando a distinção — ou em letras enormes que tomavam a página. A única coisa que compartilhavam: todos declaravam com confiança que havia um modo de deter a gripe, que havia um modo de sobreviver. Algumas afirmações eram simples como um anúncio de

sapataria. “Um modo de evitar a gripe é manter os pés secos.”19 Algumas eram complexas como “Fazer uma máscara de gás kolynos para combater a gripe espanhola ao ser exposto à infecção”.

Todos usavam o medo. “Como prevenir infecção da gripe

espanhola (...). O responsável pela saúde do exército americano insiste para manter sua boca limpa (...) [use] algumas gotas de SOZODONT líquido.” “Ajude o Comitê de Saúde a vencer a gripe espanhola desinfetando sua casa (...) Desinfetante Lysol.” “Para a GRIPE (...) você está seguro quando toma Father’s John Medicine.” “Influ-BALM evita a gripe espanhola.” “Alerta especial ao público, consultas telefônicas de médicos de Minneapolis e de leigos, além de cartas de muitas partes da América estão chegando em nosso escritório sobre o uso de Benetol, (...) um poderoso baluarte para a prevenção e o tratamento da gripe

espanhola (...).” 20 “A gripe espanhola — o que é e como deve ser tratada: (...) sempre chame um médico/Não entre em pânico (...) Não se deve entrar em pânico — a gripe em si tem um percentual baixíssimo de vítimas fatais. (...) Use Vicks

VapoRub.” 21

 

Até meado de outubro, vacinas preparadas pelos melhores cientistas surgiram em toda parte. Em 17 de outubro, o comissário de saúde da cidade de Nova York, Royal Copeland, anunciou que “a vacina contra a gripe descoberta pelo dr. William H. Park, diretor do City Laboratories, foi suficientemente testada para garantir sua recomendação como agente preventivo”. Copeland garantiu ao público que “praticamente todas as

pessoas vacinadas [eram] imunes à doença”. 22

Na Filadélfia, em 19 de outubro, o dr. C.Y. White,

bacteriologista do laboratório municipal, entregou 10 mil doses de uma vacina baseada no trabalho de Paul Lewis, com outras 10

mil doses por vir. 23 Era “multivalente”, feita com vários tipos de bactérias mortas, inclusive o bacilo da gripe, dois tipos de pneumococo e várias cepas de estreptococos.

Naquele mesmo dia, entrou em circulação uma nova edição

do JAMA. Estava recheada de informações sobre a gripe, inclusive com uma avaliação preliminar da experiência com vacinas em Boston. George Whipple, outro apadrinhado de Welch, que receberia mais tarde o prêmio Nobel, concluiu: “O peso das evidências estatísticas que fomos capazes de acumular indicam que o uso da vacina contra a gripe que investigamos não

traz benefícios financeiros.” 24 Ao escrever “benefícios”, Whipple queria dizer que as vacinas testadas não promoviam uma cura. Mas prosseguiu: “A evidência estatística, até onde vai, indica uma probabilidade de que o uso dessa vacina tenha algum valor profilático.”

Não se podia dizer que ele apoiava a declaração de Copeland,

mas pelo menos fornecia alguma esperança.

O Serviço de Saúde Pública não fez qualquer esforço para

produzir ou distribuir qualquer vacina ou tratamento para civis. Apesar dos muitíssimos pedidos recebidos, não tinha nada a oferecer.

A Army Medical School [Escola Médica do Exército], que

agora é o Armed Forces Institute of Pathology [Instituto de Patologia das Forças Armadas], em Washington, fez um esforço colossal para produzir uma vacina. Era necessário. No Walter Reed Hospital, do próprio exército, também em Washington, a mortalidade para aqueles que evoluíam para a pneumonia

alcançava 52%.25 26 Em 25 de outubro, a vacina ficou pronta. A

administração de saúde informou a todos os médicos da base: “O valor da vacinação contra alguns dos organismos mais importantes que dão origem à pneumonia pode ser considerado como estabelecido (...). Agora o exército disponibilizou para todos os oficiais, alistados e empregados civis uma lipovacina contendo pneumococos tipo I, II e III.”

O exército distribuiu dois milhões de doses dessa vacina nas

semanas seguintes. Isso mostrou um enorme triunfo de produção. Anteriormente, um cientista britânico de destaque tinha declarado ser impossível para o governo a produção de até mesmo 40 mil doses em curto prazo. Mas a vacina ainda protegia apenas contra as pneumonias causadas por pneumococos tipo I e II, e chegava tarde demais. Àquela altura, a doença já havia acometido quase todos os acantonamentos. Quando médicos civis, de Nova York até a Califórnia, imploraram ao exército pela vacina, a resposta era que o exército, de fato, produzira “uma vacina para prevenir a pneumonia, que não estava disponível

para distribuição”.27 O exército temia um recrudescimento entre os soldados, e tinha bons motivos para isso.

A Army Medical School também produzira uma vacina contra

B. influenzae, mas sobre ela o gabinete de Gorgas falava com mais cautela: “Diante da possível importância etiológica do bacilo influenzae na atual epidemia, uma vacina salina foi preparada pelo exército e está disponível para todos os oficiais, alistados e civis empregados pelo exército. A eficácia da vacina para o bacilo

influenzae 28 (...) ainda se encontra em estágio experimental.”

Essa declaração não foi feita em público. O mesmo acontecia

com um cauteloso editorial do JAMA: “Infelizmente, ainda não temos um soro específico ou outro meio específico para a cura da gripe, nem vacinas específicas para a prevenção. Essa é a verdade, apesar de todas as alegações e propagandas nos jornais e em todas as partes declarando o contrário (...). Os médicos não devem perder a cabeça e fazer mais promessas do que os fatos garantem. Esse alerta se aplica em especial às autoridades de saúde em seu trato com o público.” Quase todas as edições continham um aviso semelhante: “Nada deve ser feito na profissão médica que possa promover uma esperança vã no público, a ser seguida por decepção e desconfiança na ciência e

na profissão médicas.”29

O JAMA representava a American Medical Association (AMA)

[Associação Médica Americana]. Os líderes da AMA trabalharam por décadas para trazer os padrões científicos e o profissionalismo para a medicina. Os sucessos que tiveram nesse quesito eram recentes. Não queriam destruir a confiança que acabavam de estabelecer. Não queriam que a medicina se

tornasse a zombaria que havia sido pouco tempo antes.30

Nesse intervalo, os clínicos continuavam a experimentar as

medidas mais desesperadas. Vacinas continuavam a ser produzidas em grandes números — dezoito tipos diferentes

somente em Illinois. 31 Ninguém tinha uma ideia concreta sobre sua eficiência. Tinham apenas esperança.

Mas a realidade da doença foi expressa pela recitação dos

eventos durante a epidemia em Camp Sherman, Ohio, o campo com a maior taxa de mortalidade. Seus médicos seguiam o tratamento padrão para a gripe recomendado por Osler nas mais recentes edições de seu livro-texto — aspirina, repouso, gargarejo e “pós de Dover”, que eram uma combinação de ipeca para induzir o vômito e de ópio para aliviar a dor e a tosse. Para complicações com pneumonias padrão, seguiam “as recomendações habituais de dieta, ar fresco, repouso, purgação branda e eliminação (...). Todos os casos foram digilatizados” — digitálicos prescritos em doses máximas para estimular o coração — “e confiamos que sal de cafeína solúvel ajude na estimulação rápida. Estricnina em grandes doses hipodérmicas tinha um valor

particular na astenia existente”. 32

Em seguida, porém, relataram sua impotência diante do muito

frequente “edema pulmonar inflamatório agudo”, que nos dias de hoje seria chamado de SARA (síndrome da angústia respiratória aguda). “Isso apresentava um novo problema no tratamento. Os princípios de tratamentos empregados no edema pulmonar incidente à dilatação do coração, embora aparentemente não indicados para a condição em questão, foram empregados. Digitálicos, um sal duplo de cafeína, morfina e venissecção — sangria, de novo — “não dispunham de valor significativo (...). O oxigênio ajudava de forma temporária. Drenagem postural realizada não influenciava o resultado final. Solução pituitária, de modo hipodérmico, foi sugerida pela similaridade dessa condição aos resultados do envenenamento por gás. Não houve benefícios

com seu uso.”33

Tentaram de tudo, tudo que conseguiam conceber, até que

tiveram piedade e pararam, abandonando alguns dos tratamentos mais brutais — e inúteis — que haviam experimentado “em respeito ao caráter heroico [deles]”. A essa altura, já haviam visto heroísmo suficiente dos soldados moribundos. Finalmente estavam dispostos a permitir que partissem em paz. Para combater aquele estado, só podiam concluir que “nenhuma medida especial estava disponível”.

 

Nenhum remédio ou vacina desenvolvidos na época conseguiam prevenir a gripe. As máscaras usadas por milhões de pessoas eram inúteis e não preveniam a gripe. A única coisa que funcionava era evitar a exposição ao vírus. Nos dias de hoje, nada cura a gripe, embora as vacinas possam fornecer uma proteção significativa — e estejam longe de serem completas —, e diversas drogas antivirais sejam capazes de mitigar sua severidade.

Lugares que se isolaram — como Gunnison, no Colorado, e

algumas instalações militares nas ilhas — escaparam. Mas as ordens de fechamento emitidas pela maioria das cidades não impediam a exposição. Não foram radicais o suficiente. Fechar bares, teatros e igrejas não tinha qualquer efeito quando um número significativo de pessoas continuava a pegar bondes, a ir para o trabalho, a fazer compras na mercearia. Mesmo nos lugares em que o medo fechou as portas dos negócios, onde os donos das lojas e os clientes se recusavam a ficar cara a cara e deixavam os pedidos na calçada, ainda havia interação demais, não interrompia a cadeia da infecção. O vírus era eficiente demais, explosivo demais, bom demais no que fazia. No final das contas, ele fez o que quis por todo o mundo.

Era como se o vírus fosse um caçador. Perseguia a

humanidade. Encontrou com facilidade o homem nas metrópoles, mas não se satisfez. Seguiu-o nas cidades menores, depois nos vilarejos, em cada lar. Procurou o homem nos mais distantes cantos do planeta. Perseguiu-o nas florestas, encontrou seus rastros na selva, foi atrás dele no gelo. E naqueles confins mais recônditos, naqueles lugares tão inóspitos que mal permitiam a presença humana, naqueles lugares em que quase não havia civilização, o homem não estava a salvo do vírus. Ele estava era mais vulnerável.

No Alasca, os brancos de Fairbanks se protegeram.

Sentinelas guardavam todas as trilhas e cada pessoa que entrava na cidade precisava passar por uma quarentena de cinco

dias. 34 Os esquimós não tiveram tanta sorte. Um veterano representante da Cruz Vermelha avisou que sem “imediata

assistência médica a raça” poderia ser “extinta”. 35

A Cruz Vermelha não tinha recursos disponíveis, nem os

fundos territoriais do governo. O governador do Alasca foi para Washington para implorar por 200 mil dólares ao Congresso — em comparação ao 1 milhão de dólares dado ao Serviço de Saúde Pública para cuidar de todo o país. Um senador perguntou por que o território não poderia gastar nada dos 600 mil dólares de seu tesouro. O governador respondeu: “O povo do Alasca considera que o dinheiro arrecadado com impostos, pagos pelas pessoas brancas do Alasca, deve ser gasto com melhorias para o território. Precisam muito que o dinheiro vá para estradas (...). Querem que os índios do Alaska sejam colocados em paridade com os índios de outras partes dos Estados Unidos, que são

cuidados pelo governo dos Estados Unidos.” 36

Ele obteve 100 mil dólares. A marinha forneceu o barco

carvoeiro USS Brutus para uma expedição de assistência. Em Juneau, a comitiva se dividiu e passou para barcos menores, para visitar os vilarejos.

Coisas terríveis foram descobertas. Terríveis mesmo. Em

Nome, 176 dos 300 esquimós morreram.37 Mas ficaria pior. Um médico visitou dez aldeias minúsculas e descobriu que “três foram eliminadas; as demais têm uma média de 85% de mortes (...). Os sobreviventes em geral são crianças (...) provavelmente 25% desse número morreram congeladas antes da chegada de

auxílio”. 38

Uma expedição posterior se seguiu, financiada pela Cruz

Vermelha, dividindo-se pelas ilhas Aleutas em seis grupos, com dois médicos e duas enfermeiras cada um, depois embarcando em outros navios e dispersando.

O primeiro grupo desembarcou numa aldeia pesqueira

chamada Micknick. Ele chegou tarde demais. Somente seis adultos sobreviveram. Haviam morrido 38 adultos e 12 crianças. Uma casinha fora convertida em orfanato para 15 crianças. O grupo atravessou o rio Naknek até um vilarejo com uma fábrica de conservas de frutos do mar. Antes da epidemia, 24 esquimós adultos moravam lá — 22 tinham morrido e a vigésima terceira morte ocorreu um dia após a chegada da expedição. Sobreviveram 16 crianças que ficaram órfãs. Na baía de Nushagak, a Peterson Packing Company estabelecera uma sede administrativa e armazéns. As enfermeiras entravam em casebre após casebre. “A epidemia de gripe foi muito severa nesse local, com a sobrevivência de poucos adultos. Ao fazer uma busca, os drs. Healy e Reiley encontraram alguns nativos ainda de cama (...). Os médicos trabalharam com a maior dedicação possível,

mas a ajuda chegou tarde demais e cinco morreram.” 39

Havia coisa pior. Outra equipe de resgate reportou:

“Numerosas aldeias foram encontradas sem sinal de vida, a não ser pela alcateia de cães quase mortos de fome, semisselvagens.” Os esquimós viviam na região no que se chamava de “barabara”. Barabaras eram estruturas circulares que ficavam com dois terços abaixo do solo. Eram construídas para resistir aos ventos uivantes que costumavam soprar com a força de um furacão, ventos que destroçavam estruturas convencionais. Um integrante da equipe de resgate descreveu um barabara como um estrutura “com paredes ásperas cobertas por pedaços de turfa (...) que se entra por meio de um túnel com altura de 1,2 metro, 1,5 metro. Esse túnel é a única entrada de luz e de ventilação, na maioria dos casos. Nas laterais desses aposentos, cavam-se prateleiras, e nessas prateleiras, sobre colchões de folhas secas e peles, é onde as pessoas dormem.”

Grupos familiares inteiros, doze pessoas ou mais, habitavam

aquele aposento único. “Ao entrar nesses barabaras, a comitiva do dr. McGillicuddy encontrou pilhas de cadáveres nas prateleiras, no chão, homens, mulheres e crianças, a maioria em

decomposição avançada demais para ser manejada.”40

É provável que o vírus não tenha matado todos eles

diretamente. Mas atacou de um modo tão repentino, e contaminou tantos de uma vez, que não havia quem cuidasse dos doentes, ninguém capaz de arranjar alimento ou providenciar água. E aqueles que talvez tivessem sobrevivido, cercado de corpos, corpos das pessoas amadas, talvez tenham preferido ir para onde as famílias estavam, poderiam ter preferido não ficar mais sozinhos.

E havia os cães.

“Era praticamente impossível estimar o número de mortos pois

os cães famintos entraram em muitos casebres e devoraram os mortos, deixando apenas alguns ossos e as roupas para contar a

história.”41

Tudo que o grupo de salvamento pôde fazer foi atar os restos

com cordas, arrastá-los e enterrá-los.

Na outra extremidade do continente, a história era bem parecida. Em Labrador, o homem se agarrava à existência com a tenacidade — mas sem permanência superior — da alga que seca no rochedo, vulnerável ao bater das ondas na maré alta. O reverendo Henry Gordon partiu do vilarejo de Cartwright em outubro e voltou dia 30 do mesmo mês. Não encontrou “uma alma à vista em nenhuma parte, e um silêncio estranho, incomum”. Ao se dirigir para casa, encontrou um homem da Hudson’s Bay Company que contou a ele que “a doença (...) havia varrido o local como um ciclone, dois dias depois da partida do barco com a correspondência”. Gordon foi de casa em casa. “Famílias inteiras jaziam inanimadas no chão da cozinha,

incapazes de se alimentar ou cuidar do fogo.”42

Haviam morrido 26 de 100 almas. Mais para cima na costa,

ficava pior.

Dos 220 habitantes de Hebron, 150 morreram. Já fazia um frio

intenso. Os mortos se encontravam nas camas, com o suor congelando e grudando os lençóis a seus corpos. Gordon e alguns outros de Cartwright nem se esforçaram para cavar sepulturas, lançando os corpos ao mar. Ele escreveu: “Um sentimento de profundo ressentimento à indiferença das autoridades, que nos enviaram a doença pelo barco postal e depois nos deixaram sozinhos, para afundar ou nadar, enchia os

corações, excluindo quase todo o resto.”43

Houve o caso de Okak. Viviam 266 pessoas em Okak e muitos

cães — cães quase selvagens. Quando o vírus veio, ele atacou com tanta força e tão depressa que as pessoas não conseguiam cuidar de si mesmas nem alimentar os cães. Os cães ficaram com fome, enlouquecidos, e começaram a devorar uns aos outros, depois atacaram portas e janelas, desvairados, e se alimentaram. O reverendo Andrew Asboe sobreviveu com o rifle

a seu lado. Ele matou, sozinho, mais de cem cães. 44

Quando o reverendo Walter Perret chegou, havia apenas 59

sobreviventes entre os 266 habitantes. Ele e os sobreviventes fizeram o único trabalho que havia. “O chão estava congelado, duro como o ferro, e o trabalho de cavar foi duríssimo. Foram duas semanas e, quando terminou, tinha dez metros de comprimento, três metros de largura e 2,5 metros de profundidade.” Então, começou a tarefa de arrastar os cadáveres para a cova. Colocaram 114 corpos ali dentro, cada um deles envolvido em panos de algodão, salpicaram desinfetantes sobre eles e cobriram a cova coletiva, colocando pedras na parte de

cima para evitar que os cães a destruíssem.45

Em toda a região de Labrador, pelo menos um terço da

população morreu. 46

 

O vírus perfurou o gelo do Ártico e escalou as montanhas inacessíveis do Kentucky. Penetrou também na floresta.

Entre os ocidentais, os golpes mais fortes recaíram sobre

jovens adultos em densa convivência, civis ou militares. A companhia de seguros Metropolitan Life Insurance descobriu que 6,21% de todos os mineradores de carvão — não apenas aqueles com a gripe — segurados, entre 25 e 45 anos,

morreram. 47 Naquele mesmo grupo etário, 3,26% de todos os operários segurados morreram — percentual comparável aos piores números em bases militares.

Em Frankfurt, a taxa de mortalidade de todos os que foram

hospitalizados com gripe — nem todos com pneumonia — foi de

27,3%.48 O prefeito de Colônia, Konrad Adenauer, que se tornaria um dos maiores estadistas da Europa, disse que a doença deixou milhares de pessoas “exaustas demais para

odiar”. 49

Em Paris, o governo fechou apenas as escolas, temendo que

medidas adicionais prejudicassem o moral. A taxa de mortalidade foi de 10% para as vítimas de gripe e de 50% para aqueles que apresentaram qualquer complicação. “Nesses casos”, notou um médico francês, “era notável a severidade dos sintomas e a

rapidez com que certas formas progrediam até a morte.” 50 Embora os sintomas da doença na França fossem idênticos aos que havia em outras partes, os médicos, em plena epidemia, pareciam diagnosticá-la de forma errada de propósito, como cólera ou disenteria, e raramente reportavam isso.

E as populações cujos sistemas imunológicos eram mais

intocados, que tinham visto pouquíssimos ou nenhum tipo de vírus da gripe, não foram apenas dizimadas, mas às vezes aniquiladas. É o caso não apenas dos esquimós, mas de todos os nativos americanos, dos ilhéus do Pacífico, dos africanos.

Em Gâmbia, 8% dos europeus morreram, mas no interior,

como relatou um visitante britânico: “Encontrei aldeias inteiras com 300 a 400 famílias que foram liquidadas, cujas casas haviam despencado sobre os mortos insepultos e a floresta se esgueirou em dois meses, apagando a memória de assentamentos

inteiros.”51

Mesmo com as mutações que tornaram o vírus mais brando,

ele ainda matava com eficiência aqueles cujos sistemas imunológicos raramente ou nunca tinham sido expostos à gripe. O USS Logan chegou a Guam em 26 de outubro. Quase 95% dos marinheiros americanos pegaram a doença, mas apenas um

deles morreu. 52 O mesmo vírus matou quase 5% da população inteira nativa em poucas semanas.

Na Cidade do Cabo e em diversas outras cidades da África do

Sul, a gripe mataria 4% de toda a população nas quatro semanas após o registro dos primeiros casos. Entre os sul-africanos, 32%

dos brancos e 46% dos negros ficariam doentes, 53 sendo que 0,82% dos europeus brancos morreria, e 2,72% — provavelmente era um percentual bem mais alto — de africanos negros.

No México, o vírus passou pelos densos centros populacionais

e pelas florestas, sobrepujando igualmente os garimpeiros, moradores de favelas e seus locatários, e também os camponeses. No estado de Chiapas, 10% da população morreria — não estamos nos referindo a 10% daqueles que contraíram a

gripe.54

O vírus fustigou Senegal, Serra Leoa, Espanha e Suíça,

deixando cada país em lamentos, devastado pela mortalidade que em algumas áreas ultrapassava 10% da população total.

No Brasil — onde o vírus foi relativamente brando em

comparação com o México ou mesmo com o Chile —, o Rio de

Janeiro sofreu uma taxa de contaminação de 33%. 55

Em Buenos Aires, na Argentina, o vírus acometeu quase 55%

da população.56

No Japão, atingiu mais de um terço da população. 57 O vírus mataria 7% de toda a população em boa parte da

Rússia e do Irã.

Em Guam, 10% da população morreria.

Em outros lugares, a mortalidade chegou a superar esses

números. Nas ilhas Fiji, 14% da população morreria em

dezesseis dias entre 25 de novembro e 10 de dezembro.58 Era impossível enterrar os mortos. Um observador escreveu: “Dia e noite, os caminhões roncam pelas ruas, cheios de corpos para

piras que não param de arder.” 59

Alguns poucos — pouquíssimos — lugares isolados pelo

mundo afora, onde tinha sido possível impor uma quarentena rigorosa e as autoridades foram implacáveis, conseguiram escapar da doença. A Samoa Americana era um desses lugares. Nenhuma pessoa morreu de gripe espanhola.

A poucos quilômetros do oceano encontrava-se a Samoa

Ocidental, tomada dos alemães pela Nova Zelândia no início da guerra. Em 30 de setembro de 1918, sua população era de 38.302 habitantes, antes que o vapor Talune levasse a doença

para lá.60 Poucos meses depois, sobravam 29.802. Morreu 22% da população.

Números imensos, mas desconhecidos, tombaram na China.

Em Chungking, metade da população da cidade adoeceu.61

No entanto, os números mais aterradores viriam da Índia.

Como em outras partes do mundo, a Índia sofrera na primavera. Como em outras partes do mundo, a doença na primavera era relativamente benigna. Em setembro, a gripe voltou para Bombaim. Como em outras partes do mundo, já não era benigna.

Porém, a Índia não foi como os outros lugares. Lá a gripe

espanhola assumiria dimensões verdadeiramente assassinas. Uma grave epidemia de peste bubônica ocorrera em 1900 e atingira Bombaim com força. Em 1918, o auge da mortalidade diária da gripe espanhola quase dobrou em relação à peste

bubônica de 1900,62 63 e a taxa de mortalidade chegou a 10,3%.

Por todo o subcontinente indiano, havia apenas a morte. Os

trens partiam de uma estação com os vivos. Chegavam com os

mortos e os moribundos,64 os cadáveres sendo removidos na estação. A taxa de mortalidade de soldados britânicos, caucasianos, na Índia era de 9,61%. Entre os soldados indianos,

21,69% daqueles que pegavam a gripe morriam. 65 Um hospital em Déli tratou de 13.190 pacientes de gripe, sendo que 7.044

desses pacientes morreram. 66

A região mais devastada foi Punjab. Um médico relatou que os

hospitais estavam “tão abarrotados que era impossível retirar os mortos para dar espaço para os moribundos. As ruas e os becos da cidade estavam entulhadas de mortos e moribundos (...). Quase todos os lares lamentavam uma morte e em toda parte

reinava o terror”.67

Normalmente, os cadáveres eram cremados em ghats

ardentes, áreas planas no alto da íngreme margem do rio, e as cinzas eram jogadas ao rio. O suprimento de linha exauriu-se

depressa, 68 tornando impossível a cremação, e os rios ficaram lotados de corpos.

Apenas no subcontinente indiano, é provável que tenham

morrido cerca de 20 milhões,69 e é bem possível que a taxa de mortalidade tenha sido superior a esse número.

Victor Vaughn, velho aliado de Welch, sentado no gabinete do

responsável pela saúde do exército e chefe da Divisão de Doenças Notificáveis do exército, observou o avanço da doença pelo planeta. “Se a epidemia prosseguir nessa taxa matemática de aceleração, a civilização”, escreveu ele à mão, “poderia facilmente desaparecer (...) da face da Terra numa questão de

poucas semanas.” 70