A Grande Gripe

John M. Barry · Capítulo 26 de 43

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A Grande Gripe

Capítulo vinte e cinco

 

Q W as autópsias das vítimas em Devens pela primeira vez, ele saiu do necrotério e fez três ligações: para um patologista de Harvard, pedindo-lhe para realizar novas autópsias; para o escritório de Gorgas, alertando para a chegada de uma epidemia; e para Oswald Avery, no Rockefeller Institute, pedindo que ele pegasse o próximo trem de Nova York. Ele esperava que Avery pudesse identificar o patógeno que matara os homens em Devens.

Avery deixou seu laboratório na mesma hora, caminhou alguns

quarteirões até sua casa para trocar de roupa e então foi até a Estação Grand Central, aquele edifício magnífico e inspirador. Durante toda a viagem de trem pelo interior de Connecticut, pelas estações de trens lotadas de New Haven, Providence e Boston, até Devens, ele começou a se preparar, revisando as melhores abordagens para aquele problema.

Welch lhe dissera que, apesar dos sintomas clínicos

parecerem com os da gripe, aquela poderia ser uma nova doença. O primeiro passo de Avery ainda seria procurar a presença de B. influenzae, aquele que todos consideravam o principal suspeito como causa da gripe. Avery sabia um bocado sobre o bacilo de Pfeiffer, incluindo que era excepcionalmente difícil de cultivar e que sua química dificultava a coloração e, portanto, sua visualização sob o microscópio. A química e o metabolismo das bactérias o interessavam. Ele se perguntava como fazê-las crescer melhor, como facilitar sua localização, como facilitar sua identificação. Ele sempre fazia tudo, até lavar os objetos de vidro, com precisão e disciplina.

No fim daquela tarde, Avery chegou ao acampamento e

imediatamente começou a fazer exames laboratoriais. Ele era praticamente imune ao caos a seu redor, imune aos cadáveres nus de homens jovens ou embrulhados em lençóis ensanguentados pelos quais — assim como Welch, Cole, Vaughan, Russell e os outros membros do grupo — ele teve de passar por cima para chegar à sala de autópsia.

Desde o primeiro momento, Avery encontrou dificuldades,

obtendo resultados intrigantes com o teste de Gram. Nesse teste, as bactérias são tingidas com violeta de genciana, tratadas com iodo, lavadas com álcool e depois novamente tingidas com um corante contrastante. As bactérias que retêm a cor violeta são chamadas de “gram-positivas”. As que não retêm são “gram-negativas”. O resultado do teste de Gram é comparável a uma testemunha que identifica um agressor como branco ou negro; a resposta simplesmente elimina alguns possíveis suspeitos.

Ao contrário de outros pesquisadores, Avery não encontrou

bactérias gram-negativas. A B. influenzae é gram-negativa. O teste eliminou a B. influenzae como uma possibilidade. Eliminou todas as bactérias gram-negativas como possibilidades. Ele repetiu o experimento; mais uma vez, não encontrou nenhuma bactéria gram-negativa.

Avery logo solucionou esse quebra-cabeça em particular. Ele

descobriu que todo o líquido nos frascos do laboratório rotulados como “álcool” na verdade estavam cheios d’água. Aparentemente, os soldados haviam bebido o álcool e o substituído por água. Quando ele usou álcool, os resultados do teste foram o esperado. Ele encontrou bactérias gram-negativas.

Então, começou sua caçada a sério. Ele começou com os

cadáveres dos mortos mais recentes, alguns dos quais tão recentes que os corpos ainda estavam quentes ao toque. Com as mãos enluvadas, sentiu a esponja encharcada dos pulmões e do trato respiratório ainda quentes, buscando áreas de infecção mais óbvias para cortar amostras de tecido, mergulhando em bolsas de pus, procurando o organismo responsável pela morte. Talvez aquele homenzinho cercado por jovens soldados mortos estivesse um pouco amedrontado, mas ele tinha coragem e não estava lidando com conjecturas. Não tinha o menor interesse nelas.

As amostras revelaram diversos patógenos possíveis, todos

assassinos potenciais. Ele precisava saber qual deles era responsável pela matança.

Ele ficou em Devens tempo suficiente para fazer culturas de

bactérias. Assim como Park e Lewis, Avery teve dificuldades iniciais, mas começou a encontrar o bacilo de Pfeiffer. Ele o descobriu em 22 dos trinta soldados mortos e entregou os resultados para Welch. Enquanto isso, Burt Wolbach, o patologista de Harvard, a quem Welch também havia pedido ajuda em Devens, fez uma declaração mais forte: “Todos os casos mostram o bacilo da gripe, em muitos exemplos, culturas puras de um ou mais lobos (...) Culturas mistas, em geral pneumococos, em que a dilatação brônquica era acentuada (...) Culturas puras do bacilo da gripe nos estágios mais recentes e,

portanto, em geral nos lobos superiores.”1 Em um artigo na Science, outro pesquisador respeitado também escreveu:

“Acredita-se que o agente causador seja o bacilo de Pfeiffer.” 2

Em 27 de setembro, Welch, Cole e Victor Vaughan

telegrafaram para o general médico de Devens: “Está estabelecido que a gripe em Camp Devens é causada pelo bacilo

de Pfeiffer.” 3

Mas não estava assim tão estabelecido, não para Avery, pelo

menos. Embora respeitasse Wolbach, sem mencionar Park, Williams e Lewis, todos chegando à mesma conclusão quase ao mesmo tempo, ele baseou suas conclusões apenas nas próprias descobertas. E suas descobertas ainda não o tinham convencido. Em sete das autópsias, ele não encontrou nenhum sinal de invasão bacteriana, apesar da devastação dos pulmões. Além disso, embora tenha encontrado bactérias potencialmente letais sem nenhum sinal do bacilo de Pfeiffer em um único exemplo, em quase metade dos casos ele estava encontrando tanto Pfeiffer quanto outros organismos, incluindo pneumococos, estreptococos hemolíticos e estafilococos aureus, que, embora fosse um organismo letal, raramente causava pneumonia.

Ele poderia interpretar essas descobertas de várias maneiras.

Podiam significar que a B. influenzae de Pfeiffer não causava a doença. Mas essa era apenas uma conclusão possível. O bacilo de Pfeiffer podia muito bem ser a causa da doença e, depois de infectar a vítima, outras bactérias se aproveitariam de um sistema imunológico enfraquecido. Não seria incomum. O fato de ter encontrado diversos patógenos poderia até mesmo fortalecer o argumento do bacilo de Pfeiffer. Este crescia pouco em culturas de laboratório sempre que outras bactérias, em especial o pneumococo ou estreptococo hemolítico, também estavam presentes. Portanto, sua existência em culturas com esses outros organismos podia indicar que a B. influenzae estava presente em grande número na vítima.

Metodicamente, ele revisou tudo isso em sua mente. No início

de outubro, estava de volta ao Rockefeller ouvindo relatos de dezenas de outros pesquisadores de todo o país e do mundo informando que eles também estavam achando o bacilo da gripe. Mas também houve relatos de falhas em encontrar o B. influenzae. Seria fácil descartar as falhas e considerá-las como falhas técnicas; afinal, o bacilo de Pfeiffer era um dos organismos mais difíceis de cultivar. Ainda assim, as próprias descobertas de Avery deixaram muitas perguntas sem resposta para ele chegar a uma conclusão, estando em crise ou não. Ao contrário de Park, Williams e Lewis, Avery não estava pronto para chegar nem a uma conclusão provisória. Sim, o bacilo de Pfeiffer podia causar a gripe. Ah sim, podia. Mas ele não estava convencido. Avery não enviou nenhum relatório de descoberta da causa da gripe, nem telefonemas ou telegramas dizendo que estava enviando culturas para infectar cavalos e produzir soro ou vacina.

Ele estava se esforçando mais do que nunca em Devens — e

ele sempre se esforçava. Ele comia no laboratório, realizava dezenas de experiências simultaneamente, mal dormia, transmitia ideias por telefone para Rosenau e outros. Ele escrutinava suas experiências, separando-as e examinando seus dados em cada detalhe em busca de uma pista. Contudo, embora se esforçasse, não chegava a qualquer conclusão.

Ele não estava convencido.

 

Oswald Avery era diferente. Sentia-se menos incomodado quando pressionado do que quando precisava forçar a direção de seu trabalho e não podia seguir a trilha aonde quer que esta o levasse, não podia se mover no próprio ritmo, não podia usar seu tempo pensando. Soluções de emergência eram estranhas à sua natureza. Ele trabalhava na vertical. Mergulhava fundo em algo, até as profundezas, seguindo os caminhos mais estreitos e as menores aberturas, sem deixar pontas soltas. De todos os modos, sua vida era vertical, focada, estreita, controlada.

Ele preparava... tudo, desejando controlar todos os efeitos. Até

os rascunhos de suas raras palestras mostram marcas que indicam quais palavras enfatizar, onde mudar o tom de voz, onde usar nuances. Mesmo em conversas informais, às vezes parecia que cada palavra, na verdade, cada hesitação, era cuidadosamente preparada, pesada e talvez encenada. Seu escritório pessoal, adjacente ao laboratório, também refletia sua concentração. René Dubos, um importante cientista, chamou o lugar de “pequeno e vazio, o mais vazio possível, sem fotos, lembranças, gravuras, livros não lidos e outros itens amigáveis que geralmente adornam e atulham um local de trabalho. A austeridade simbolizava o quanto ele desistira de todos os aspectos de sua vida por uma questão de total concentração em

alguns objetivos escolhidos”. 4

Ao cavar fundo, Avery não queria ser perturbado. Ele não era

grosseiro, indelicado ou mesquinho. Longe disso. Todos os jovens pesquisadores que trabalhavam para ele se tornaram seus mais leais admiradores. Mas ele se aprofundou cada vez mais no mundo da própria criação, um mundo — embora estreito — que ele pudesse definir e sobre o qual exercesse algum controle.

Entretanto, estreito não significa pequeno. Não havia nada de

pequeno em seu pensamento. Ele usava informações como um trampolim, um ponto de partida que permitia que sua mente vagasse livremente, na verdade, corresse livremente — mesmo de forma descuidada — para especular. Assim como Dubos, Colin MacLeod, um brilhante pupilo de Avery, disse que sempre que um experimento gerava informações inesperadas “a imaginação de Avery era acionada (...) Ele explorava

exaustivamente as implicações teóricas”.5

Dubos colocava de outra maneira. Ele acreditava que Avery

sentia-se desconfortável e possivelmente incapaz de lidar com o caos da interação social. Mas ele acreditava que Avery se sentia à vontade e capaz de enfrentar o caos da natureza. Avery poderia fazê-lo por causa de seu “estranho senso daquilo que era verdadeiramente importante” e sua “visão imaginativa da realidade (...) Ele tinha o impulso criativo de compor esses fatos em estruturas significativas e elegantes (...) Suas composições científicas tinham, de fato, muito em comum com criações artísticas que não imitam, mas transcendem e iluminam a

realidade”.6

Anos após a pandemia, o colega e amigo de Avery, Alphonse

Dochez, recebeu a Medalha Kober, um prêmio que o próprio Avery já tinha recebido antes. Em uma homenagem, Avery descreveu a ética de trabalho de Dochez. Ele poderia estar descrevendo a própria: “Resultados (...) não são produtos casuais de observações aleatórias. São frutos de anos de sábia reflexão, pensamento objetivo e experimentação ponderada. Nunca vi sua mesa de laboratório com pilhas de placas de Petri, repleta de tubos de ensaio como uma floresta em que a trilha termina e o pesquisador se perde em densos emaranhados de pensamentos confusos (...) Nunca o vi se envolver em rivalidades sem propósito ou pesquisa competitiva. Mas muitas vezes o vi sentado calmamente, perdido em pensamentos, enquanto a seu redor outros com uma grande demonstração de atividade esvoaçavam como partículas no movimento browniano; então, eu o via levantar, caminhar alegremente até sua mesa, juntar algumas pipetas, pegar emprestados alguns tubos de meio de cultura, talvez um pote de gelo, e depois fazer um experimento

simples que respondia à pergunta.” 7

Agora, porém, em meio a uma epidemia mortal, tudo e todos à

sua volta — incluindo até a pressão de Welch — colocaram o pensamento de lado, afastaram a perspectiva e a preparação e os substituíram pelo que Avery tanto desprezava: o movimento browniano — o movimento aleatório de partículas em um fluido. Outros odiavam a gripe pela morte que ela provocava. Avery a odiava por isso, mas também por um ataque mais pessoal, um ataque à sua integridade. Ele não cederia àquilo.

 

Segundo um colega, quando Avery conduzia experimentos: “Sua atitude era muito semelhante à do caçador em busca de sua presa. Para o caçador, todos os componentes — as pedras, a vegetação, o céu — estão repletos de informações e significados que permitem que ele se torne parte do mundo íntimo de sua

presa.”8 Avery tinha a paciência de um caçador. Ele podia esperar por uma hora, um dia, uma semana, um mês, uma temporada. Se a presa fosse importante o suficiente, ele poderia esperar uma temporada inteira, depois outra e então mais outra. Mas ele não esperou simplesmente; ele não perdeu uma hora sequer: ele planejou, observou, aprendeu. Ele aprendeu as rotas de fuga de sua presa e as bloqueou; ele encontrou pontos de vista cada vez melhores; ele colocou barreiras no campo pelo qual a presa passava e continuou estreitando-o até que, finalmente, a presa tinha de passar por um cerco. E ele lançava armadilhas: estudando pneumococos arranhando-os na pele, por exemplo, onde o sistema imunológico podia controlar facilmente a infecção, mas ainda lhe dava a oportunidade de experimentar as bactérias fora de um tubo de ensaio. Ele aconselhou: “Sempre que cair, pegue alguma coisa do chão.” E ele costumava dizer:

“Decepção é o meu pão de cada dia. Eu prospero com ele.” 9

Ele não se apressaria. Havia pressão sobre ele, pressão sobre

todos. Mas ele não se apressaria. No Rockefeller, ele não era o único a dedicar todas as suas energias à gripe. Martha Wollstein, que anos antes colaborara com Flexner em um esforço malsucedido para desenvolver um soro para o bacilo de Pfeiffer, procurava anticorpos no sangue de pacientes recuperados. Dochez realizava um estudo intensivo de gargantas. Muitos outros trabalhavam em cima da doença. Mas faziam pouco progresso. Rufus Cole informou ao escritório de Gorgas em meados de outubro: “Fomos obrigados a cuidar dos casos de gripe que estão surgindo no Hospital e no instituto e esses

pacientes ocuparam todo o nosso espaço.”10 Devido ao tempo que demorava o tratamento dos doentes, ele acrescentou: “Não creio que, até o momento, possamos acrescentar muito ao conhecimento sobre a doença.”

Em toda parte, a pressão era intensa. Eugene Opie, outro

produto da Hopkins que agora era tenente-coronel da comissão de pneumonia do exército, estivera em Camp Pike, no Arkansas, quando a epidemia eclodiu. Ele foi para lá porque, durante a epidemia de sarampo, Pike teve a maior taxa de pneumonia de

qualquer base militar do país.11 Agora, é claro, suas ordens eram voltar o trabalho apenas para a gripe. Frederick Russell, falando em nome de Gorgas, exigiu “diariamente (...) um relatório de

suas descobertas, conforme você as interpreta”.12 Ele deveria passar um relatório todos os dias. Se ele encontrasse algo que indicasse o menor indício de progresso, Gorgas queria saber — instantaneamente — para que aquilo pudesse ser compartilhado. Opie não encontraria escassez de material experimental. Camp Pike abrigava sessenta mil soldados. No auge da epidemia, treze

mil deles seriam hospitalizados ao mesmo tempo. 13

Os pesquisadores lutavam para encontrar algo — qualquer

coisa — que pudesse ajudar, que pudesse conter a explosão. Embora ninguém tivesse encontrado nada certo, na Filadélfia seguindo os métodos de Lewis, em Nova York seguindo os de Park, em Chicago seguindo os desenvolvidos na Mayo Clinic, os laboratórios estavam produzindo vacinas e soro suficientes para centenas de milhares e talvez milhões de pessoas enquanto uma enorme e muito divulgada remessa de vacinas foi transportada às pressas através do país, de Boston até San Francisco. Em 3 de outubro, o escritório de Gorgas em Washington ofereceu a todos os funcionários da sede a vacina antipneumocócica, na qual Cole e Avery depositavam tantas esperanças, a única vacina que fora testada — e com tanto sucesso — naquela

primavera, em Camp Upton. 14

Mesmo em meio a tanta morte, tanta pressão, Avery não se

apressaria. Mais e mais relatórios surgiram indicando que pesquisadores de todo o mundo não conseguiram encontrar o bacilo da gripe. Isso por si só não provava nada. Era quase um teste de habilidade para um bacteriologista cultivar o bacilo de Pfeiffer em laboratório. Em Camp Dodge, Iowa, por exemplo, os bacteriologistas encontraram o B. influenzae de Pfeiffer em apenas 9,6% dos casos que tinham passado pela autópsia. Um relatório oficial do exército os culpava: “A baixa incidência foi indubitavelmente devido à má técnica no manejo das culturas (...) os métodos bacteriológicos (...) naquele campo (...) não eram

confiáveis.” 15 O chefe de laboratório de Camp Grant, a quem o próprio Welch declarou como “excelente” apenas três meses antes da epidemia, encontrou o bacilo de Pfeiffer em apenas seis

das 198 necrópsias. 16 Mesmo assim, seu próprio relatório informava: “Estamos inclinados a defender que este estudo não prova a falta de associação entre o bacilo de Pfeiffer e a

epidemia devido à técnica irregular adotada.”17

Talvez tenha sido esse o caso, talvez erros técnicos tenham

impedido que aqueles em Camp Dodge, Camp Grant e em outros lugares identificassem o bacilo. Ou talvez o bacilo de Pfeiffer não estivesse presente para ser identificado.

Em sua maneira metódica de sempre, Avery deu o passo mais

provável para resolver a questão. Não houve drama nessa etapa. Ele investiu suas energias no aperfeiçoamento da ferramenta, para encontrar maneiras de facilitar o crescimento do B. influenzae. Se ele conseguisse, todos poderiam enfim saber se a incapacidade de encontrar o bacilo se devia à incompetência de alguns ou à ausência da bactéria.

Ele encheu seu laboratório com placas de Petri, preparou os

meios de cultura de dezenas de maneiras diversas, isolou os fatores diferentes e observou em quais placas a bactéria parecia crescer melhor. Então estimulou cada elemento que parecia incentivar o crescimento. Havia uma hipótese por trás de cada experimento individual. Ele aprendera, por exemplo, que o pneumococo inibia o crescimento do bacilo de Pfeiffer. Então, ele queria impedir o crescimento de qualquer pneumococo. Ele já sabia tanto sobre a química e o metabolismo dele quanto qualquer um. Avery adicionou um produto químico, oleato de sódio, ao meio de cultura para bloquear o crescimento pneumocócico. Funcionou. Nas culturas com oleato de sódio, o pneumococo não cresceu e o bacilo de Pfeiffer se desenvolveu melhor.

Durante um período de semanas, ele fez progressos

significativos. O bacilo de Pfeiffer também exigia sangue no meio de cultura para crescer, o que não era tão incomum. Mas o soro sanguíneo anulava o oleato de sódio. Então, ele centrifugou apenas os glóbulos vermelhos e os usou. E seus experimentos sugeriram que o sangue adicionado à cultura à temperatura corporal aproximadamente inibia seu crescimento. Avery descobriu que sangue aquecido acrescentado ao meio de cultura a 90ºC permitia que o B. influenzae se desenvolvesse.

Ele prontamente publicou a fórmula de seu preparo, que ficou

conhecida como “ágar chocolate”, no Journal of American Medical Association, dizendo: “É possível que dificuldades técnicas no isolamento e no crescimento desse micro-organismo sejam em parte responsáveis pelos resultados discordantes obtidos em diferentes laboratórios (...). O uso deste meio levou a um aumento nos achados positivos de B. influenzae em casos

reais da doença e em convalescentes.”18

Com essa informação, qualquer cientista razoavelmente

competente poderia cultivar e identificar a bactéria. Ao menos agora eles saberiam que, se o bacilo de Pfeiffer não fosse encontrado, era porque não estava lá.

O próprio Avery não se apressaria ainda, não discutiria uma

conclusão que ele ainda não estava pronto para respaldar. Entretanto, com base no trabalho de Avery, Cole disse para Russell: “Sinto-me cada vez menos inclinado a atribuir a infecção primária aos bacilos da gripe — embora essa possibilidade não possa ser excluída até que a real causa da infecção seja demonstrada (...) Estou muito esperançoso de que a vacinação antipneumocócica possa ser implementada rapidamente. Embora a vacinação antigripal” — com isso ele quis dizer a vacina contra o B. influenzae — “me pareça duvidosa, temos evidências muito boas de que a vacinação antipneumocócica será de grande

ajuda.” 19 E acrescentou: “Parece-me que a epidemia de gripe oferece uma oportunidade para desenvolver isso de um modo que não poderia ter sido feito de outra forma.”

Fazer o soro antipneumocócico, que nos testes curara 28 dos

29 pacientes com infecção por pneumococo tipo I, ou a vacina,

não era tarefa fácil. 20 Levou-se dois meses para preparar a vacina adequadamente, dois meses de um processo difícil: fabricar lotes de trezentos litros de um caldo nutritivo — muito frequentemente os pneumococos se dissolviam em qualquer tipo de caldo, o que significava adicionar produtos químicos que mais tarde precisavam ser removidos — concentrando-o, precipitando

parte dele com álcool, separando os aditivos, padronizando-o.21 Avery e outros pesquisadores do Rockefeller fizeram um avanço importante na produção: ao ajustar a quantidade de glicose no meio de cultura, aumentaram seu rendimento em dez vezes. Mas eles ainda só podiam produzir 25 litros por dia através de

centrífugas, o que estava longe do necessário. 22

Enquanto isso, a matança continuava.