A Grande Gripe

John M. Barry · Capítulo 25 de 43

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A Grande Gripe

Capítulo vinte e quatro

 

 

E P produzir um antissoro ou vacina contra a doença em Nova York, a Filadélfia já se aproximava do colapso. Sua experiência logo ecoaria em muitas cidades do país.

Lá, Paul Lewis também procurava a resposta. Poucos,

incluindo Park, eram mais propensos a encontrá-la. Filho de um médico, Lewis cresceu em Milwaukee, foi para a Universidade de Wisconsin e terminou sua preparação médica em Penn em 1904. Mesmo antes de sair da faculdade de medicina, ele sabia que pretendia passar a vida no laboratório e rapidamente adquiriu distinção e merecida reputação. Ele começou como pesquisador júnior, trabalhando com pneumonia sob Welch, Osler, Biggs e vários outros que compunham o Conselho de Consultores Científicos do Rockefeller Institute. Lewis deixou todos impressionados. Quem mais ficou assim foi Theobald Smith, um dos principais bacteriologistas do mundo, para quem Lewis trabalhara em Boston. Mais tarde, Smith recomendou Lewis a Simon Flexner, dizendo que Harvard carecia dos recursos para permitir que Lewis se desenvolvesse por completo e que “seu

coração está na pesquisa”.1

Vindo de Smith, não poderia haver maior elogio. Lewis o

merecia. Parecia ter nascido para o laboratório. Ao menos esse era o único lugar em que era feliz; ele amava não apenas o trabalho em si, mas o ambiente do laboratório, adorava desaparecer ali dentro e mergulhar em pensamentos. “Amor” não era uma palavra forte o bastante; suas paixões estavam no laboratório. No Rockefeller, Lewis começou a perseguir as próprias ideias, mas, quando eclodiu uma epidemia de poliomielite, Flexner pediu que Lewis trabalhasse com ele. Lewis concordou. Era uma união perfeita. Seu trabalho com a pólio era um exemplo de combinação entre velocidade e boa ciência. Eles não apenas provaram que a poliomielite era uma doença viral, o que ainda hoje é considerada uma descoberta marcante na virologia, mas também desenvolveram uma vacina que protegia macacos da poliomielite em 100% dos casos. Levaria quase meio século para desenvolverem uma vacina contra a poliomielite para humanos. No curso dessa pesquisa, Lewis se tornou um dos principais especialistas em vírus do mundo.

Flexner declarou Lewis “um dos melhores homens do país,

(...) um sujeito muito talentoso”.2 Isso pode ter sido um eufemismo. Richard Shope trabalhou em estreita colaboração com ele na década de 1920, conhecia muitos dos melhores cientistas do mundo (incluindo Flexner, Welch, Park, Williams e diversos ganhadores do Nobel) e ele próprio se tornara membro da Academia Nacional de Ciências. Ele afirmou que Lewis era o

homem mais inteligente que já conhecera.3 Joseph Aronson, um cientista premiado da Universidade da Pensilvânia e que também fizera pesquisa no Pasteur Institute, batizou o filho em homenagem a Lewis e, assim como Shope, disse que aquele era o homem mais brilhante que já conhecera.

Quando a guerra começou, Pearce, oficial do Conselho

Nacional de Pesquisa, disse a Lewis o que ele falou para apenas quatro ou cinco outros cientistas do país: esperar ser solicitado

“por serviços especiais relacionados a doenças epidêmicas”. 4

Lewis estava preparado. Ele recebeu uma comissão da

marinha e disse a Flexner que “não tinha tarefas rotineiras

onerosas”.5 Suas habilidades no laboratório eram muito mais importantes. Ele ainda estava cooperando com Cole e Avery no desenvolvimento de um soro para a pneumonia, além de estar, como disse para Flexner, fazendo experimentos com corantes “no que diz respeito à capacidade de inibir o crescimento” da

bactéria causadora da tuberculose. 6 A ideia de que corantes poderiam matar bactérias não era original, mas ele fazia um trabalho de classe mundial na área e seus instintos estavam certos quanto à sua importância. Vinte anos depois, Gerhard Domagk ganharia um Nobel por transformar um corante no primeiro antibiótico, o primeiro dos medicamentos da família das sulfas.

Agora, porém, a cidade não precisava de descobertas

laboratoriais que aprofundassem a compreensão. Precisava de sucessos instantâneos. Lewis chegara às suas conclusões sobre poliomielite com uma velocidade tremenda — aproximadamente um ano, e as duas foram sólidas e pioneiras. Agora, porém, ele tinha apenas semanas, talvez dias. Agora, ele observava corpos literalmente empilhados no necrotério do hospital do estaleiro da marinha, nos necrotérios de hospitais civis, em agências funerárias, nas casas.

Ele se lembrou do trabalho de Flexner sobre meningite

durante uma epidemia dessa doença. Flexner resolvera aquele problema e seu sucesso dera a reputação do Rockefeller Institute. Saber que Flexner fora bem-sucedido fazia parecer possível uma solução para aquilo. Talvez Lewis pudesse fazer o mesmo.

Ele considerou se a gripe era causada por algum organismo

que atravessasse um filtro. Contudo, para procurar um vírus, Lewis teria de procurar no escuro. Aquilo era ciência, o que a ciência tinha de melhor — ao menos procurar na penumbra era —, mas ele não estava envolvido apenas com ciência. Agora não. Agora, ele estava tentando salvar vidas.

Ele tinha de olhar para onde havia luz.

Primeiro, a luz brilhou sobre uma espécie de uso do sistema

imunológico como força bruta. Mesmo que eles não encontrassem o patógeno, mesmo que não pudessem seguir os procedimentos normais e infectar os cavalos com o patógeno para depois preparar seu sangue, havia um animal que estava sofrendo com aquela doença que devastava o planeta. Aquele animal era o homem.

A maioria das pessoas que contraíram a doença sobreviveu.

Até mesmo a maioria das que contraíram pneumonia sobreviveu. Era bem possível que o sangue e o soro delas contivessem anticorpos que curariam ou preveniriam a doença em outros. Lewis e Flexner obtiveram algum sucesso ao usar essa abordagem com a poliomielite em 1910. Em Boston, o dr. W. R. Redden, no Hospital da Marinha, também lembrou “das evidências experimentais apresentadas por Flexner e Lewis com soro convalescente da poliomielite”, conforme relatou. Naquele momento, Redden e um colega coletaram sangue dos que sobreviveram a um ataque da gripe, extraíram o soro e injetaram em 36 pacientes com pneumonia começando em 1º de outubro. Aquele não era um experimento científico com controle e, cientificamente falando, os resultados não provaram nada. Contudo, quando relataram os resultados no JAMA de 19 de outubro, trinta pacientes haviam se recuperado, cinco ainda

estavam em tratamento e apenas um morrera. 7

Os experimentos começaram na Filadélfia usando tanto o

sangue total quanto o soro de sobreviventes da gripe. Essas também não eram experiências científicas; eram tentativas desesperadas de salvar vidas. Se houvesse algum sinal de que o procedimento funcionava, a ciência poderia vir mais tarde.

Lewis deixou que outros conduzissem esse trabalho braçal.

Não exigia habilidades muito especiais e outros poderiam realizá-lo tão bem quanto ele. Ele dedicou seu tempo a quatro coisas. E não seguiu uma sequência. Ele as fez simultaneamente, percorrendo caminhos diferentes — montando experimentos para testar cada hipótese — ao mesmo tempo.

Primeiro, tentou desenvolver uma vacina contra a gripe

usando os mesmos métodos utilizados contra a poliomielite. Esta era uma versão mais sofisticada da abordagem de força bruta da transfusão de sangue ou soro de sobreviventes de gripe, pois ele

ao menos suspeitava que um vírus pudesse causar a gripe.8

Segundo, ele ficou no laboratório seguindo um vislumbre de

luz. Como Park raciocinara, Lewis também raciocinou. A pesquisa poderia encontrar bactérias. Pfeiffer já apontara um dedo acusador para um bacilo. Lewis e todos em seus laboratórios trabalhavam horas e dias sem descanso, tirando apenas algumas horas para dormir, executando um procedimento após o outro — aglutinação, filtragem, transferência de crescimentos de culturas, injeção em animais de laboratório. Sua equipe também procurou por bactérias. Eles tiraram mais amostras da garganta e do nariz das primeiras vítimas, expuseram-nas ao meio de cultura e esperaram. Eles trabalharam intensamente, 24 horas por dia em turnos, e depois esperaram, frustrados pelo tempo que as bactérias levavam para crescer nas culturas, frustrados pelo número de culturas que foram contaminadas, frustrados por tudo que interferisse em seu progresso.

Nos primeiros quinze casos, Lewis não encontrou B.

influenzae. Ironicamente, a doença explodira com tanta rapidez, espalhando-se pela equipe do hospital, que Lewis tinha pouco para trabalhar afora amostras de escarro: “Os hospitais estavam tão esgotados [de equipe] (...) que eu não tinha material de autópsia”, exceto por quatro cadáveres “gravemente decompostos”, quase certamente mortos havia muito para serem

úteis. 9

Então, como Park e Williams, Lewis ajustou suas técnicas e

começou a encontrar o bacilo regularmente. Ele passou essa informação a Krusen, o representante de saúde. O Inquirer e outros jornais, desesperados para noticiar algo positivo, declararam que ele encontrara a causa da gripe e “armara a profissão médica com conhecimento absoluto sobre o qual

basear sua campanha contra a doença”. 10

Lewis não tinha esse conhecimento absoluto nem acreditava

ter. É verdade que ele isolara o B. influenzae. Mas ele também isolara um pneumococo e um estreptococo hemolítico. Alguma intuição apontava em outra direção. Ele iniciou a terceira e depois a quarta linha de investigação. A terceira envolvia mudar seus experimentos com corantes: em vez de tentar matar as bactérias da tuberculose, tentar matar os pneumococos.

Mas a morte o cercou, o envolveu. Ele voltou a atenção para

ajudar a produzir a única coisa que poderia funcionar agora. Após a emergência, se alguma coisa parecesse funcionar, ele sempre podia voltar ao laboratório e fazer experimentos cuidadosos e deliberados para entendê-la e provar sua eficácia.

Então, ele escolheu como alvo as bactérias que ele e outros

haviam encontrado. Desde o primeiro instante em que viu os marinheiros moribundos, soube que teria que começar a trabalhar naquilo imediatamente. Mesmo que seu palpite estivesse certo, mesmo que o que ele estivesse fazendo pudesse ter sucesso, levaria tempo para isso. Assim, em seu laboratório e em outros da cidade, os pesquisadores não pesquisavam mais. Eles simplesmente tentavam produzir. Não havia certeza de que qualquer coisa que produzissem funcionaria. Havia apenas esperança.

Ele começou preparando meios de cultura usando peptona de

caldo de carne com adição de sangue e então cultivando culturas dos patógenos que eles isolaram dos casos — B. influenzae, tipos I e II do pneumococo e estreptococo hemolítico. Ele mesmo preparou pequenos lotes de vacina, incluindo esses organismos, e os ministrou em sessenta pessoas. Dessas sessenta, apenas

três desenvolveram pneumonia e nenhuma morreu. 11 Um grupo de controle apresentou dez pneumonias e três mortes.

Aquilo parecia mais do que apenas promissor. Não era prova.

Muitos fatores podiam explicar os resultados, incluindo o acaso. Mas ele não podia esperar por explicações.

Seu laboratório não tinha capacidade de produzir as imensas

quantidades de vacina necessárias. Aquilo exigia uma operação industrial. Eles precisavam de tonéis para cultivar aquelas coisas, não placas de Petri ou frascos de laboratório. Eles precisavam de tonéis como os de uma cervejaria.

Ele entregou essa tarefa a outras pessoas da cidade, inclusive

àquelas que administravam o laboratório municipal. Levaria tempo para cultivar o suficiente para dezenas de milhares de pessoas.

Todo o processo, mesmo em seu estado mais acelerado,

levaria ao menos três semanas. E, uma vez produzida a vacina, levaria tempo para administrá-la a milhares e milhares de pessoas em uma série de injeções de doses crescentes, espaçadas por vários dias. Durante todo esse tempo, a doença estaria matando.

Enquanto isso, Lewis começou a trabalhar em uma quinta

linha de pesquisa, criando um soro que pudesse curar a doença. Este trabalho era mais complicado. Eles poderiam fazer uma vacina com uma abordagem indiscriminada e aleatória, combinando diversos organismos e protegendo contra todos eles. (Atualmente, as vacinas contra difteria, coqueluche — tosse convulsiva — e tétano são combinadas em uma única aplicação; é rotineiramente administrada às crianças uma única aplicação para proteger contra o sarampo, a caxumba e a rubéola; e as vacinas atuais contra gripe contêm vacinas contra os diversos subtipos de vírus influenza enquanto a vacina pneumocócica é descendente direta do trabalho realizado no Rockefeller Institute em 1917.)

Um soro precisava visar apenas um alvo específico; se desse

certo, funcionaria apenas contra um único organismo. Para fazer um soro que funcionasse, Lewis teria de escolher um único alvo. Se ele tivesse que mirar em um único alvo, teria de escolher o bacilo que Pfeiffer descobrira, o B. influenzae. Ainda era de longe a causa mais provável da doença.

Desenvolver um soro contra aquele organismo provavelmente

seria difícil. Enquanto Lewis ainda estava no Rockefeller Institute, o próprio Flexner tentou fazer isso em colaboração com Martha Wollstein. Wollstein — uma excelente cientista, embora Flexner nunca a tenha tratado com o respeito que dedicava aos outros — vinha fazendo experimentos com o B. influenzae quase continuamente desde 1906. Mas Flexner e ela não fizeram nenhum progresso. Eles não apenas falharam no desenvolvimento de um soro que pudesse ajudar o homem; eles

não conseguiram curar nenhum animal de laboratório.12

Lewis nunca entendeu exatamente onde Flexner errara nessa

tentativa, embora certamente tivesse sido objeto de muitas conversas no famoso refeitório, onde foram sugeridas soluções para tantos problemas científicos. Agora, ele não tinha oportunidade de se aprofundar no problema, analisá-lo por completo, apresentar uma hipótese com poder explicativo e testá-la.

Lewis só podia esperar que Flexner tivesse fracassado por

sua técnica ser precária. Era bem possível. Às vezes, Flexner era um pouco desleixado no laboratório. Uma vez, admitira: “Tecnicamente, não sou bem treinado no sentido de precisão

meticulosa e completa.” 13

Então, agora, Lewis esperava que algum erro técnico — talvez

na preparação do meio de cultura, talvez em um uso muito grosseiro das bactérias mortas, talvez alguma outra coisa — fosse responsável pelos problemas de Flexner. Devia ser isso. Por exemplo, muitos anos depois, um jovem estudante de pós-graduação entrou em um laboratório e viu um renomado professor de Harvard lavando utensílios de vidro na pia enquanto seu técnico realizava uma tarefa complexa na bancada de trabalho. O aluno perguntou por que o técnico não estava lavando os vidros. “Porque”, respondeu o professor, “eu sempre realizo a parte mais importante do experimento e, nesse experimento, o mais importante é a limpeza dos utensílios de

vidro.” 14

Lewis voltou toda a sua atenção para a limpeza dos utensílios

de vidro, para as tarefas mais mundanas, garantindo que não houvesse erros no trabalho em si e ao mesmo tempo aplicando qualquer conhecimento sobre o bacilo de Pfeiffer que fora aprendido desde o fracasso de Flexner.

Lewis sabia muito bem que pouco do que ele estava fazendo

era boa ciência. Era tudo, ou quase tudo, baseado em suposições informadas. Ele apenas trabalhou com mais afinco.

Enquanto trabalhava, a sociedade a seu redor oscilava à beira

do colapso.