A Grande Gripe
Capítulo onze
W que “o espírito de brutalidade
implacável… penetre no tecido da vida nacional”. Para isso, Creel queria criar “uma massa incandescente”, uma massa impulsionada pela “determinação imortal”. E assim estava fazendo. Aquela era uma guerra total e essa abrangência incluía de fato a profissão médica.
O ânimo de Creel chegou a ser injetado no Military Surgeon,
periódico publicado pelo exército para o corpo médico: “Todas as atividades deste país estão direcionadas a um único objeto: vencer a guerra. Agora nada mais conta e nada contará se não sairmos vitoriosos. Nenhum tipo de organização deve ser levado em consideração se não tiver esse objetivo à vista imediata e puder ajudar da forma mais eficiente possível… Assim, as ciências médicas são aplicadas à guerra, as artes são aplicadas ao aperfeiçoamento da camuflagem, para aumentar a motivação
de nossos soldados através do entretenimento etc.” 1
Essa mesma publicação destinada a médicos, cujo objetivo
era salvar vidas, também declarou: “A consideração pela vida humana frequentemente se torna bastante secundária... O oficial médico ficou mais absorvido no geral do que no particular, e a vida e os membros de um indivíduo, embora de grande
importância, são secundários a medidas 2 pro bono publico .” E
ainda declarou sua opinião sobre o que constituía pro bono publico ao citar, com aprovação, conselhos do major Donald McRae, um veterano de combate que disse: “Se algum inimigo ferido for encontrado (na trincheira), devem ser expostos à baioneta, caso já tenham sido feitos prisioneiros suficientes [para
interrogatório].” 3
Gorgas não compartilhava das opiniões dos editores da revista. Quando o pesquisador financiado por Rockefeller descobriu a eficiência de sua antitoxina da gangrena, quis publicar seus resultados — o que poderia ajudar os alemães. Tanto Gorgas quanto o Secretário de Guerra, Newton Baker, concordaram que ele deveria fazê-lo, e assim se deu. Welch disse a Flexner: “Fiquei muito feliz que o secretário e o chefe de saúde pública do
exército, sem hesitação, tenham assumido essa posição.” 4
Mas Gorgas tinha coisas mais importantes a fazer do que
policiar os editores do Military Surgeon. Ele estava concentrado em sua missão e a perseguia com a obsessão de um missionário. Gorgas tinha um pesadelo: o exército dos EUA havia explodido de algumas dezenas de milhares de soldados antes da guerra para milhões em poucos meses. Imensas bases militares, cada uma com cerca de 50 mil homens, foram montadas em questão de semanas. Centenas de milhares de homens ocupavam esses espaços antes da conclusão das bases militares. Ficavam espremidos nas barracas que haviam sido finalizadas, originalmente projetadas para muito menos ocupantes, enquanto dezenas de milhares de jovens soldados enfrentavam seu primeiro inverno abrigados em tendas. Os hospitais foram os últimos edifícios a serem construídos.
Essas circunstâncias não apenas trouxeram um grande
número de homens para uma proximidade mais íntima, como também expuseram garotos do campo e da cidade, antes separados por centenas de quilômetros de distância, cada grupo com imunidades e vulnerabilidades a doenças completamente diferentes. Nunca antes na história americana — e possivelmente nunca antes na história de qualquer país — tantos homens haviam sido reunidos dessa maneira. Mesmo no front, na Europa, mesmo com a importação de mão de obra da China, da Índia e da África, a concentração de homens com diferentes vulnerabilidades talvez não tenha sido uma mistura tão explosiva quanto foi a que se deu nos campos de treinamento americanos.
O cenário no subconsciente de Gorgas era uma epidemia
varrendo as bases militares. Dada a maneira como as tropas se deslocavam de uma a outra, se surgisse um surto de doença infecciosa em qualquer um, seria extraordinariamente difícil isolar o local e impedir que aquilo se alastrasse pelos demais. Milhares, possivelmente dezenas de milhares, poderiam morrer. Uma epidemia assim também poderia se espalhar para a população civil. Gorgas pretendia fazer tudo o que estivesse a seu alcance para impedir que esse pesadelo se tornasse real.
Em 1917, a ciência médica estava longe de estar desamparada em face às doenças. Na verdade, ela estava no leito do rio Styx. Se ela pudesse entrar naquelas águas e evitar que apenas algumas pessoas fizessem a travessia, nos laboratórios estava a promessa de muito mais.
É verdade que, até então, a ciência havia desenvolvido
apenas uma das “balas mágicas” previstas por Paul Ehrlich. Ele e um colega experimentaram 900 compostos químicos diferentes para curar a sífilis antes de testar novamente o 606º, um feito de arsênico. Dessa vez, conseguiram fazê-lo funcionar, curando a doença sem envenenar o paciente. Foi batizado de Salvarsan, mas frequentemente era chamado apenas de “606”.
A ciência havia alcançado um sucesso considerável na
manipulação do sistema imunológico e na saúde pública. As vacinas preveniram uma dúzia de doenças que devastaram o gado, incluindo antraz e cólera suína. Os pesquisadores também haviam ido muito além após o primeiro sucesso contra a varíola e agora desenvolviam vacinas para prevenir uma série de doenças, além de antitoxinas e soros para tratá-las. A ciência havia vencido a difteria. Medidas sanitárias e de saúde pública estavam contendo a febre amarela, a febre tifoide, a cólera e a peste bubônica; para essas três últimas apareceram também vacinas. Uma antitoxina para picadas de cobra entrou em produção. Foi encontrado um antissoro para disenteria. A antitoxina do tétano trouxe resultados mágicos. Antes de seu uso abrangente, em 1903, morriam 102 de cada mil pacientes tratados por tétano nos Estados Unidos. Dez anos depois, o uso universal da antitoxina
reduziu a taxa de mortalidade para zero por mil tratados.5 A meningite foi controlada, se não vencida, em grande parte pelo antissoro de Flexner. Em 1917, foi desenvolvida uma antitoxina para gangrena. Embora não tenha sido tão eficaz quanto outras, os cientistas conseguiram aprimorá-la, como haviam feito com as demais ao longo do tempo. As possibilidades de manipular o sistema imunológico para derrotar doenças infecciosas pareciam
conter uma enorme promessa.*
No nível gerencial, Gorgas também estava agindo. Ele
garantiu que muitos dos novos médicos do exército designados para alojamentos fossem treinados no Rockefeller Institute por alguns dos melhores cientistas do mundo. Também começou a estocar grandes quantidades de vacinas, antitoxinas e soros, pensando em não contar com os fabricantes de medicamentos, que considerava pouco confiáveis e frequentemente inúteis. Em 1917, o comissário de saúde do estado de Nova York, Hermann Biggs, testou produtos comerciais para várias doenças e os achou tão ruins que proibiu as vendas de todos os fabricantes de
medicamentos no estado de Nova York.6 Assim, Gorgas atribuiu a produção a pessoas em quem confiava. A Escola de Medicina do exército produziria vacina contra febre tifoide suficiente para 5
milhões de homens. 7 O Rockefeller produziria soros para pneumonia, disenteria e meningite. O Laboratório de Higiene de Washington, que acabou se transformando nos Institutos Nacionais de Saúde [sigla em inglês NIH], prepararia vacina contra varíola e antitoxinas para difteria e tétano.
Ele também transformou vários vagões de trem em
instalações laboratoriais de última geração e os estacionou em pontos estratégicos ao redor do país, prontos — como Flexner disse ao assistente para assuntos científicos de Gorgas, coronel Frederick Russell — a fim de “serem enviados a qualquer uma das bases militares em que prevalecessem a pneumonia ou outra
doença epidêmica”.8
Além disso, mesmo antes do início das obras nos
acantonamentos, Gorgas criou uma unidade especial para “a
prevenção de doenças infecciosas” 9 e designou os melhores homens para isso. Welch, que já havia percorrido bases militares britânicas e francesas e estava alerta para possíveis pontos fracos, chefiava essa unidade, cujos outros cinco membros eram Flexner, Vaughan, Russell, Biggs e Charles Chapin, de Rhode Island, todos homens de renome internacional. O grupo estabeleceu procedimentos precisos para serem seguidos pelo exército, minimizando as chances de uma epidemia.
Enquanto isso, quando as tropas chegavam às bases em
1917, os colegas do Rockefeller Institute Rufus Cole, Oswald Avery e outros, que voltaram o foco para a pneumonia, emitiram um aviso específico: “Embora a pneumonia ocorra principalmente na forma endêmica, epidemias pequenas e mesmo grandes não são impossíveis. Foi a doença mais séria que ameaçou a
construção do Canal do Panamá” 10 — mais inclusive do que a febre amarela, como Gorgas bem sabia — “e sua prevalência em regiões onde se reúne um grande número de trabalhadores vulneráveis faz com que seja de suma importância, já que a pneumonia [parece] ter a propensão de atacar jovens recrutas. A experiência entre o pequeno número de soldados na fronteira mexicana, onde a doença se deu epidemicamente [em 1916], deve ser um aviso do que provavelmente acontecerá em nosso exército nacional quando um grande número de homens for reunido durante os meses de inverno.”
Os superiores de Gorgas ignoraram o conselho e, é claro, em
pouco tempo o exército enfrentaria uma amostra de doença epidêmica. Seria um teste, tanto para o vírus quanto para os remédios.
O inverno do final de 1917 e começo de 1918 foi o mais frio já registrado a leste das Montanhas Rochosas. Os quartéis estavam lotados e centenas de milhares de homens ainda viviam em tendas. Os hospitais e outras instalações médicas das bases militares ainda não haviam sido finalizados. Um relatório do exército admitiu o fracasso em fornecer roupas quentes ou mesmo aquecimento, porém o ponto mais perigoso era a superlotação. Flexner alertou sobre a situação: “era como se os homens tivessem reunido suas doenças, cada um contraído as que ainda não havia contraído (…) todas muito agravadas pela instalação problemática das bases militares, a administração
deficiente e a falta de laboratórios adequados.”11 Vaughan protestou com impotência e mais tarde chamou os procedimentos do exército de “insanos (…) Não consigo estimar quantas vidas foram sacrificadas (…) Os perigos da mobilização de pessoas foram apontados para as autoridades competentes antes de haver qualquer reunião, mas a resposta foi: ‘O objetivo da mobilização é converter civis em soldados treinados o mais rápido possível e não servir como demonstração da medicina
preventiva’”. 12
Naquele inverno rigorosamente frio, o sarampo chegou às
barracas do exército, e veio em forma de epidemia. Geralmente, o sarampo infecta crianças e causa apenas febre, erupção cutânea, tosse, coriza e desconforto. Como muitas outras doenças infantis — especialmente doenças virais —, no entanto, quando o sarampo atinge adultos, costuma fazê-lo com força. (No início do século XXI, o sarampo ainda causa 1 milhão de mortes por ano em todo o mundo.)
Esse surto atormentou as vítimas com febre alta, extrema
sensibilidade à luz e tosse violenta. As complicações incluíram diarreia severa, meningite, encefalite (inflamação do cérebro), otites violentas e convulsões.
À medida que os soldados infectados se deslocavam de uma
base militar para outra, o vírus avançava com eles, passando pelas bases como uma bola de boliche derrubando pinos. Vaughan relatou: “Nenhum trem transportando soldados chegou à base de Wheeler [perto de Macon, na Geórgia] no outono de 1917 sem trazer de um a seis casos de sarampo já em fase de erupção. Aqueles homens... distribuíram suas sementes pelo acampamento e no trem. Nenhuma força na terra seria capaz de
impedir a propagação do sarampo naquelas condições.” 13
A base de Travis, nos arredores de San Antonio, abrigava
30.067 homens. No Natal, 4.571 homens haviam tido a doença. Funston tinha uma força média de mais de 56 mil homens. Desses, 3 mil ficaram doentes o suficiente para precisarem ser
hospitalizados. 14 Em Greenleaf, na Carolina do Sul, e em Devens, em Massachusetts, os números foram comparáveis. Os 25.260 soldados da base de Cody, no Novo México, estavam livres do sarampo até logo após a chegada de homens vindos de Funston e, a partir daí, o sarampo começou a percorrer Cody também.
Alguns jovens começaram a morrer.
Os pesquisadores não conseguiram desenvolver nenhuma vacina preventiva contra o sarampo, nem um soro para curá-lo, mas a maioria das mortes vinha principalmente de infecções secundárias, de bactérias que invadiam os pulmões depois que o vírus enfraquecia as defesas dos pacientes. Os pesquisadores do Rockefeller e de outros lugares fizeram esforços para encontrar uma maneira de controlar essas infecções bacterianas e até obtiveram algum progresso.
Enquanto isso, o exército emitiu ordens proibindo os homens
de se reunir em torno de fogões, e os oficiais vistoriavam barracas e nas tendas para garantir que estivessem sendo cumpridas. Mas, especialmente para as dezenas de milhares vivendo dentro de tendas em um período de frio recorde, era impossível impedir que os homens se amontoassem ao redor de fogões.
De todas as complicações do sarampo, a mais fatal de longe
foi a pneumonia.15 Nos seis meses entre setembro de 1917 e março de 1918, antes da epidemia da gripe, a pneumonia atingiu 30.784 soldados em solo americano. A doença matou 5.741 deles. Quase todos esses casos se desenvolveram como complicações do sarampo. Na base militar de Shelby, 46,5% de todas as mortes — todas as mortes por doenças, todos os acidentes de carro, todos os acidentes de trabalho, todos os percalços de treinamento combinados — foram resultado de uma pneumonia após o sarampo. No acampamento Bowie, 227 soldados morreram de doenças em novembro e dezembro de 1917, 212 deles morreram de pneumonia após o sarampo. A taxa média de mortalidade por pneumonia em 29 bases militares foi
12 vezes a de homens civis da mesma idade.16
Em 1918, o Senado, controlado pelos republicanos, realizou
audiências sobre os erros do governo Wilson na mobilização dos militares. Os republicanos desprezavam Wilson desde 1912, quando ele chegou à Casa Branca, apesar de ter recebido apenas 41% dos votos. (O ex-presidente republicano e candidato de terceira Teddy Roosevelt e o presidente republicano William Howard Taft dividiram o voto do Partido Republicano, e o socialista Eugene Debs também ganhou 6%.) As falhas de mobilização pareceram uma oportunidade perfeita para constrangê-lo. E havia amargura pessoal nos ataques: O congressista Augustus Peabody Gardner, genro do líder da maioria no Senado, Henry Cabot Lodge, havia renunciado ao Congresso e se alistado apenas para morrer de pneumonia na base militar.
Gorgas foi convocado para explicar o fiasco do sarampo. Seu
relatório sobre a epidemia e o depoimento ao chefe de gabinete ganharam a primeira página dos jornais. Como seu mentor Sternberg durante o desastre da febre tifoide, 20 anos antes, ele criticou duramente seus colegas e superiores do Departamento de Guerra por levarem tropas a acantonamentos cujas condições de vida não cumpriam os padrões mínimos de saúde pública por superlotação, por expor recrutas a sarampo sem imunidade, por usarem jovens “do campo” não treinados para cuidar de homens absurdamente doentes em hospitais mal equipados e às vezes sequer sem hospitais. E declarou que o Departamento de Guerra parecia não dar importância ao Departamento Médico do
exército. “Eles nunca confiaram em mim”,17 disse ele em resposta à pergunta de um senador.
Gorgas tinha a esperança de que seu testemunho forçasse o
exército a lhe dar mais poder para proteger as tropas. Talvez funcionasse, porque o exército deu início a processos nos tribunais marciais em três bases militares. O problema é que o depoimento também isolou Gorgas. À irmã, ele confidenciou que, no Departamento de Guerra, “todos os meus amigos parecem ter
me abandonado e todos falam de mim pelas costas.”18
Enquanto isso, Welch foi visitar uma das bases mais atingidas,
onde não havia mais casos de sarampo, mas ainda havia pacientes lidando com as complicações. Ele disse a Gorgas que a taxa de mortalidade dos soldados que desenvolviam pneumonia após o sarampo “é calculada em 30%, mas mais homens morrerão no hospital. É preciso ter um bom estatístico na equipe porque um escrivão não tem competência para isso”. Para que os homens hospitalizados tivessem mais chances de sobreviver, ele continuou: “peça que o coronel Russell solicite o
medicamento de Avery para o pneumococo.” 19
Welch estava se referindo a Oswald Avery, do Rockefeller
Institute, um dos canadenses que haviam entrado no exército com patente de soldado. Soldado ou não, ele logo seria, se já não era, o principal pesquisador mundial de pneumonia. E as conclusões a que Avery chegaria viriam a ter uma importância muito, muito além desse assunto. Elas dariam origem a uma revolução científica que mudaria a direção de toda pesquisa genética e criaria a moderna biologia molecular. Mas isso viria depois.
Osler chamava a pneumonia de “o capitão dos homens da
morte”. Era a principal doença responsável por mortes em todo o mundo, mais do que a tuberculose, do que o câncer, mais do que as doenças cardíacas, mais do que a peste.
E, assim como o sarampo, quando a gripe mata, ela
geralmente o faz por pneumonia.
* Quando os antibióticos surgiram no final das décadas de 1930 e 1940, funcionaram como mágica, e grande parte dessa pesquisa foi abandonada. No início dos anos 1960, autoridades de saúde pública declaravam vitória sobre doenças infecciosas. Mas hoje, com inúmeras cepas de bactérias desenvolvendo resistência a drogas, com vírus ganhando resistência ainda mais rapidamente, com doenças como a tuberculose, que chegou a ser considerada vencida, causando reviravoltas, os pesquisadores voltaram a procurar maneiras de estimular o sistema imunológico contra tudo, desde infecções a câncer.