A História de Lula, o Filho do Brasil

Denise Paraná · Capítulo 10 de 88

Páginas do PDF

A História de Lula, o Filho do Brasil

Sobrevivência

Agradecendo a Deus pela graça, Lindu pediu aos céus que seu bebê sobrevivesse. Talvez os céus tenham ouvido suas preces, talvez um anjo tenha passado naquele momento e dito “amém”. Ou, simplesmente, talvez tenha sido obra do acaso. O fato é que o pequeno Luiz Inácio cresceu e vingou no momento de pobreza mais profundo que sua mãe conheceu. Se viver era duro ao lado de Aristides, sem ele ficou quase impossível. A vida daquele novo filho estava por um fio.

A sorte de Lindu foi o pequeno amparo de seu irmão Sérgio. Pobre como ela, Sérgio tinha uma dezena de filhos para criar, mas conseguia ajudar a irmã no roçado, na busca de água e, de vez em quando, na compra da feira. Outros parentes também contribuíram com mantimentos, água e, especialmente, o leite para as crianças, que o pequeno Luiz tomou com vontade.

A casa em que Luiz Inácio nasceu, em Caetés, no sítio de Vargem Comprida, era uma meia-água feita de estuque, caiada de branco. Tinha um quarto e uma sala, que também servia de cozinha. O chão era de terra. Não existia banheiro, nem dentro nem fora. O banho era semanal, em açudes que ficavam a 6 ou 8 quilômetros de distância.

As crianças dormiam juntas em redes, e a cama dos pais era um estrado de madeira com um colchão de palha de coco. Não existiam bancos nem cadeiras. Sua mãe muitas vezes usava como banquinho o único pilão de madeira da casa. A comida era servida no chão, em potes de barro, sobre uma esteira de palhinha. Só as crianças mais velhas usavam colheres. As menores eram alimentadas com angu e comiam com as mãos.

A água que a família bebia era transportada em latões, trazida de açudes ou de barreiros, buracos feitos na terra que serviam como reservatório de chuva. A sujeira era tanta que a água precisava ser coada. Depois, Lindu a colocava numa jarra de barro e esperava assentar. Só quando a camada de terra pousava no fundo, é que a água ainda salobra, amarelada e morna podia ser tomada. Às vezes, um sapinho, um grilo ou outro pequeno animal pulava para fora da jarra. As crianças riam.