A História de Lula, o Filho do Brasil

Denise Paraná · Capítulo 26 de 88

Páginas do PDF

A História de Lula, o Filho do Brasil

Legado

O comportamento do novo Aristides era reprovável aos olhos de Lindu. Mãe que nunca relou a mão nas crianças, que não dizia palavras cortantes, mulher avessa à violência, tinha agora que testemunhar o sofrimento de seus filhos. Aristides tornava-se a cada dia mais cruel e ela sentia-se incapaz de contê-lo. Luiz Inácio era um engraxate de 8 anos, quando registrou cenas que ficaram para sempre na memória.

Lula via seu pai comer pão doce no café da manhã sem nunca oferecer uma migalha sequer aos filhos. Um dia, quando Tiana, então com 3 anos, insistiu em pedir ao pai um pedacinho de pão, ele fingiu não ouvir. Aristides era surdo para os desejos de seus filhos, mas não para os de seus cães. Quanto mais a criança pedia, mais generosas eram as lascas de pão que seus cachorros recebiam.

Numa tarde quente do verão santista, Lula e Frei Chico encontraram Aristides e os filhos que teve com Mocinha juntos, chupando picolé. Os dois meninos não conheciam o doce e, maravilhados com a novidade, pediram ao pai que também os deixasse experimentar. Era apenas um sorvete caseiro, vendido por poucos centavos. Nada que pesasse demais em seu bolso. Mas Aristides falou, de maneira definitiva:

— Não! Vocês não sabem chupar! Vocês não!

A negativa levou Lula e Frei Chico a pensarem sobre o conceito de justiça. Por que seus meios-irmãos podiam ter o que desejavam e eles não? Seu pai negava tudo o que pudesse ampliar seus horizontes, ou significar qualquer forma de prazer. Dentro desta lógica, proibiu terminantemente que fossem para a escola. Mas negando a possibilidade de estudar, incutia neles a sede pelo conhecimento; negando comida, alimentava os filhos com algo vital. Ele os nutria de outra forma. Foi assim que, naqueles tempos de convivência, Aristides deixou aos filhos o melhor legado que, em sua vida de misérias, poderia deixar; sua mais valiosa herança: os meninos não ganhavam sorvetes, mas lentes poderosas para enxergar bem mais além.