A História de Lula, o Filho do Brasil

Denise Paraná · Capítulo 2 de 88

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A História de Lula, o Filho do Brasil

Parte I

 

Dona Lindu, em 1969

 

O GRANDE SERTÃO

Lindu nasceu na fazenda de Cajarana, em Caetés, município de Garanhuns, em 1915. Filha de José Ferreira de Melo e Otília Perciliana da Silva, tinha a pele clara, cabelos loiros e olhos azuis, como seus avós italianos. Era um bebê bonito, apesar de um problema no pé direito, que o manteve levemente torto para o resto de sua vida. Ela cresceu entre seus irmãos Carmelita, Luzinete, Maria José, José Rádio, Dorico, Ananias, Estaquinho e Sérgio. Mas não conviveu por muito tempo com seu pai, morto aos 40, provavelmente de câncer.

Sua mãe Otília, ou Mãe Tili, era costureira respeitada na região. Recebendo um corte de tecido, o devolvia quatro horas depois como um terno de caimento perfeito. A viúva sustentava assim sua família. Mãe Tili ficou conhecida por sua simpatia, mas também por seu vício: era alcoólatra. Costumava trocar seus serviços de costureira, uma camisa, por exemplo, por meio litro de cachaça. O preço era baixo; o corte, benfeito; mas o resultado, quase sempre, era Otília caída no chão, inconsciente.

Lindu passou toda sua infância e adolescência na fazenda de Cajarana, onde se misturam terras do sertão e do agreste de Pernambuco. Com sua mãe e suas tias, aprendeu desde criança as tarefas consideradas femininas: os cuidados com a casa, a comida, a roupa, os animais, a roça. Pequena, embalava bonecas de sabugo de milho com cabelos vermelhos feitos de palha. Com irmãs e primas, brincava de equilibrar pedrinhas na palma das mãos ou entre os dedos. Caçava borboletas, joaninhas e outros insetos coloridos. Sua família não tinha dinheiro, mas também não era pobre para os padrões locais. Viviam como Deus mandava.

Lindu crescia sem sobressaltos. Esperava-se que ela se tornasse mulher, casasse, parisse muitos filhos e morresse como boa dona de casa. Por isso, Lindu não aprendeu mais do que aquilo de que precisaria na roça. O desenho das letras, dos números fazia parte de um mundo distante. Ela acreditava que seu destino mudaria apenas se Deus a levasse embora, como fez com sua irmã Maria, que morreu na adolescência, atacada por uma doença que chamavam de “mijo de rato”.

Sem nunca usar sapato, conhecer luz elétrica ou ter se afastado mais do que algumas léguas de onde nasceu, Lindu aprendeu a ter prazer em tudo o que a vida oferecia. Era uma alma leve. Tinha olhos para a beleza. Como suas irmãs, adorava frequentar as festas da região. E poucas pessoas eram mais festeiras do que seu vizinho João Grande, homem forte, plantador de melancia, que — ela nem imaginava — anos mais tarde se tornaria seu sogro.

As festas na casa de seu João Grande eram famosas, celebradas com bacamartes e tudo a que se tinha direito. Quando os homens puxavam os gatilhos de seus mosquetões, as mulheres corriam para dentro de casa, rindo. Na mesa, carnes de todos os tipos: galinha, peru, porco, vaca e, o que nunca podia faltar, buchada de bode. Para quem quisesse havia ainda milho assado, canjica, biju, pamonha, farinha de mandioca e feijão-de-corda. De sobremesa, rapadura, marmelada, goiabada e os doces em calda, como o de jaca e até o da fruta do mandacaru. As festas reuniam dezenas de vizinhos. Lindu adorava fazer e manter amigos. Ela também amava música e, por toda a vida, nunca deixou de cantar cantigas que aprendeu no agreste, no ritmo das colheres que batia com a mão.

João Inácio da Silva, o João Grande, e Guilhermina da Silva, avós paternos de Lula