A História de Lula, o Filho do Brasil
A Professora
Frei Chico, Maria Baixinha e Lula adoravam estudar. Uniformizados, não perdiam um dia de aula no Grupo Escolar Marcílio Dias, em Vicente de Carvalho. Apesar das proibições do pai, e de terem entrado na escola sem conhecer o alfabeto, sem saber escrever seus próprios nomes, os filhos de Lindu se destacavam nas notas. Os três conquistaram os primeiros lugares de suas classes, com direito a louvor, distinção e um prêmio. O de Frei Chico foi o livro No reino de Liliput , e o de Maria, um estojo de lápis de cor. Lula também tirou o primeiro lugar, mas os prêmios não foram suficientes para todos e ele recebeu apenas a promessa de um presente que nunca chegou.
Quando soube que o engraxate Luiz Inácio iria tentar a vida com sua mãe em São Paulo, sua professora, dona Terezinha, tomou uma decisão. Ela acreditava que podia mudar o destino do menino. Acostumada a dar aulas para centenas de crianças, dona Terezinha via em Lula alguma coisa especial: sua inteligência e memória não eram comuns. Mas ela não tinha dúvidas do triste destino que aguardava seu aluno. Filho de pais analfabetos, miserável, ele era mais um daqueles garotos que viviam soltos, sem rumo, como barquinhos de papel na correnteza. E agora, ao tentar a vida na cidade grande, Lula se perderia na marginalidade. Apesar de ter seus próprios filhos para cuidar, dona Terezinha não queria deixar que isso acontecesse com aquele garoto tão cheio de potencial. Com o peito tomado de amor materno, a professora caminhou até a casa de Lula e bateu palmas. Lindu apareceu:
— A senhora é a mãe do Luiz Inácio?
— Sou, sim senhora. Ele aprontou alguma?
— Não, pelo contrário. Sou professora dele e soube que vocês vão tentar a vida...
— ... em São Paulo. Ele disse, foi?
— Por isso eu vim aqui. Eu vim aqui porque gostaria de ficar com seu filho.
— A senhora me perdoa, mas não estou entendendo não...
— Eu gostaria de adotar seu filho de papel passado, dar um futuro melhor para ele, cuidar de...
— ... A senhora, dona professora, me perdoa. A senhora deve de saber um mundão de coisas que eu nem consigo imaginar. Mas tem uma coisa que eu sei: filho não é cria que a gente dê.
— Eu queria apenas que seu filho fosse alguém na vida.
— Mas ele já é alguém, é o Luiz.
— A senhora vai impedir que seu filho tenha futuro?