A História de Lula, o Filho do Brasil
A Porta
No bairro da Vila Carioca, onde Lula morava, viviam também operários especializados da indústria automobilística, de fábricas como Ford, Vemag, Willys, Volkswagen, Mercedes-Benz e Simca. Eles causavam admiração quando passavam uniformizados com seus macacões. Eram a elite do operariado brasileiro. Não comiam em marmitas, tinham seu próprio refeitório e direitos trabalhistas que poucos operários conheciam. Ganhavam cestas de Natal. As sacolas de compras que suas mulheres levavam da feira para casa eram sempre as melhores. Por tudo isso, Lula passou a sonhar com seu próprio macacão
azul. E quando soube que o Senai[1] abriria vagas para o curso profissionalizante de torneiro mecânico, contou correndo para sua mãe.
Lula durante a formatura no Senai,
usando gravata pela primeira vez
Lindu pegou o filho pela mão. Caminharam quilômetros pela Via Anchieta até a sede do Senai, em busca de informações. O longo trajeto foi feito a pé porque o dinheiro não dava para a condução. No dia em que souberam que haveria o teste para seleção de novos candidatos, Lindu caminhou até lá novamente com seu Luiz Inácio. Seu sonho era ver o filho se tornar um operário qualificado, desfrutando uma vida digna.
Em 1960, aos 15 anos, Lula se tornou aluno do curso de profissionalização em torneiro mecânico do Senai. Pouco tempo depois, como estagiário da Fábrica de Parafusos Marte, recebeu sua primeira remuneração: meio salário mínimo. Ele entregou cada centavo à mãe. Em seu primeiro dia na fábrica, Lula enfiou a mão num tonel de óleo e com ele sujou todo o seu macacão. Parecia ter tido um dia e tanto de trabalho. Ao ver seu filho voltar para casa daquele jeito, Lindu sorriu seu mais profundo sorriso de satisfação.
Três anos mais tarde, quando Lula se diplomou, sua mãe viveu um momento de glória, um prazer do tamanho do rio São Francisco. Luuuiiiiiizzz, como o chamava brincando, só lhe dava alegria e orgulho. Seu Luiz Inácio, o único filho formado, agora era o cientista, o intelectual da família. O futuro o esperava. Ele havia encontrado e aberto uma porta no muro.