A História de Lula, o Filho do Brasil
Delícias de Engraxate
Trabalhando pelas ruas de São Paulo, Lula percebeu que a vida de engraxate tinha suas delícias particulares. Quando sobrava algum dinheirinho no bolso, ia ao bar, inflava o peito e pedia orgulhoso o que considerava ser o manjar dos deuses: meia bengala de pão recheada com 100 gramas de mortadela. Para acompanhar, Tubaína gelada e borbulhante, o refrigerante da moda. Quando conseguia um paletó emprestado com amigos, garantia seu lugar numa sala de cinema. Na década de 50, o ingresso tinha preços populares, mas o paletó era indispensável para alguém do sexo masculino que quisesse assistir a um filme.
No Cine Anchieta ou no Cine Samarone, ambos localizados na rua Silva Bueno, o engraxate era assíduo. Na primeira vez que entrou num cinema, Lula percebeu que ali tudo era encantamento. Deparou-se com personagens gigantescos, donos de vozeirões e capazes de ações impossíveis. Passeavam por paisagens como nunca havia visto. Descobria novamente, como em sua viagem de pau de arara, que o mundo era grande e vasto. No cinema, as aventuras eram tão reais quanto num sonho bem sonhado. Lula nunca mais esqueceu o dia em que assistiu ao seu primeiro filme, quando surgiu na tela o galã Burt Lancaster. Potente e iluminado, ele empunhava sua infalível espada: era O Pirata Sangrento. E como todos os garotos que o rodeavam naquela sala escura, Lula sonhou um dia ser também um personagem de cinema.