A História de Lula, o Filho do Brasil

Denise Paraná · Capítulo 38 de 88

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A História de Lula, o Filho do Brasil

O Muro

Aos finais de semana, a lagoa conhecida como Buraco da Onça, em São Paulo, ficava cheia de garotos. Lula era um deles. Ele nadava lá ou na lagoa de Três Torres e não ligava para o fato de muitas crianças terem morrido presas no lodo e no lixo do fundo dos dois lugares. Depois de uma guerra de mamona ou de pedra, de um campeonato de estilingue, de pular corda, jogar bafo, bolinha de gude ou peão, de empinar pipa, pegar balão em telhados alheios, Lula era feliz e sentia o mundo a seus pés. Nas partidas de futebol, como jogador do Náutico Futebol Clube, o tímido Lula se soltava. Jogava bem, sendo respeitado pelos outros jogadores.

Lindu ficava contente quando via a alegria dos filhos que cresciam fortes, longe da seca e da dureza do sertão. Mas ela estava certa de que logo a natureza faria o seu chamado. Lula cresceria, casaria, teria filhos, uma família para sustentar. As brincadeiras da adolescência ficariam para trás. Lindu pensava no futuro. Sua intuição dizia que Lula seria capaz de ir muito mais além do que poderia imaginar. Ela também sabia, porém, que retirantes eram bem-vindos na cidade grande, desde que se ocupassem das tarefas pesadas, degradantes e mal remuneradas. O que a cidade grande oferecia de melhor não era para eles. Havia uma espécie de muro invisível em torno dos retirantes, impedindo a tão sonhada ascensão social. O muro, Lindu sabia, era uma realidade. Mas ela tinha certeza de que em todo muro há uma porta.

 

Lula (o segundo da esquerda para a direita)

e outros alunos do curso do Senai