A História de Lula, o Filho do Brasil
A Dor do Álcool
O Aristides que Lindu encontrou em Santos não era o mesmo homem que partiu de sua casa em Caetés naquela inesquecível manhã de 1945. Lindu, que tantas vezes tinha levantado do chão sua mãe dramaticamente alcoolizada, agora enfrentava a dura realidade de ver seu marido se tornar também um dependente do álcool.
A vida no Sul do país era um fardo pesado demais para os braços fortes do estivador Aristides, um fardo que só o álcool o ajudava a sustentar. Em sua terra natal, era um homem respeitado. Todos conheciam sua família, sua história. Em São Paulo, tornou-se um ninguém. Ainda que tivesse a sorte de um emprego, o analfabeto Aristides sabia-se descartável. Seu passado tinha ficado para trás, assim como sua identidade. Lá, o mundo girava sem Aristides. Sua honra e seu orgulho dissolviam-se em sua pobreza. O álcool ajudava a anestesiar suas dores.
Mas a mesma bebida que anestesiava Aristides provocava sofrimentos em toda a sua família. Em Vicente de Carvalho o pai de Lula se tornou violento, autoritário, cruel. Proibiu os filhos de brincar; todos tinham apenas que trabalhar. Jogar uma pelada, conversar com os amigos na rua, nada era permitido. Aristides “castrava” seus filhos. Não era por acaso que Jaime reclamava para a mãe: “O pai nos trata como meninas-moças.”
Trancados em casa depois do horário de trabalho, os filhos só podiam sair no final de semana se fosse para ajudar o pai a cortar lenha no mangue. Era uma tarefa muito penosa. Descalças, as crianças furavam os pés em incontáveis gravetos. Também eram obrigadas a caçar caranguejo, enquanto se tornavam almoço de muriçocas famintas. Como as caçadas de Aristides continuavam em Santos, com sua pontaria ainda afiada acertando veados, porcos-do-mato, pacas e capivaras, Lula e seus irmãos também tinham que acompanhá-lo. Dormiam em casebres abandonados no meio do mato, que dividiam com aranhas, cobras e outros animais.