A História de Lula, o Filho do Brasil
Vizinhança Mudando Destinos
VIZINHANÇA MUDANDO
DESTINOS
Em 1962, seu João, dona Ermínia e seus quatro filhos adolescentes, Toninho, Zezinho, Jacinto — apelidado de Lambari — e Lourdes, se mudaram para um sobradinho geminado. Eles se sentiam solitários. Pobres, pulavam de bairro para bairro em busca de trabalho. E de tanto mudar, nunca tinham tempo para fazer amizades que durassem. Naquelas novas redondezas, não conheciam ninguém. A casa quase não possuía mobílias. Só tinha algumas cadeiras velhas, um fogão antigo e um rádio de pilha que insistiam em ouvir dia e noite para espantar a tristeza e a solidão.
A filha Lourdes, adolescente que cuidava da casa e do pai e da mãe doentes desde que tinha 10 anos, adorava encerar o chão. Por isso, o programa da família era olhar os taquinhos de madeira brilharem enquanto ouvia pelo rádio programas populares.
Semanas depois de se instalarem no bairro, os filhos de dona Ermínia viram pela janela sem cortinas seus novos vizinhos:
— Mãe, tem uma paraibada danada chegando aí, ó! Olha, tão ocupando a casa do lado! — disse Lambari.
Pelo modo de falar e agir, Lambari imaginou que seus novos vizinhos fossem paraibanos. Soube mais tarde que vieram de Pernambuco, o que pouco importava: eram nordestinos. Paraibanos, baianos, alagoanos, eram todos expulsos da terra. Gente que conhecia o lado mais duro da miséria. Apesar de a família de dona Ermínia também ser retirante, não vinha do Nordeste. E sim da cidade de Ipatinga, Minas Gerais. Seu jeito de falar, suas comidas, seus costumes eram mais aceitos na cidade grande do que os dos nordestinos. Mas no fundo os não nordestinos sabiam que todos eram iguais na pobreza.
Numa manhã de domingo, quando saía para a padaria, Lambari encontrou com um de seus novos vizinhos. Era Lula, montado em uma velha bicicleta, encostado no muro. Aquele foi o início da mais longa e profunda amizade que os dois tiveram. Uma amizade que mudou suas vidas. O solitário Lambari deixou de ser solitário.
Frei Chico (de pé, à direita), Lula e Lambari (agachados) com amigos: o caçula
de dona Lindu ficou com vergonha por ser o único sem sapatos