A História de Lula, o Filho do Brasil

Denise Paraná · Capítulo 20 de 88

Páginas do PDF

A História de Lula, o Filho do Brasil

A Travessia Entre Dois Mundos

A TRAVESSIA ENTRE DOIS

MUNDOS

Na sua terra, Lindu e seus filhos viviam integrados à natureza. Acordavam quando o sol acordava, dormiam quando ele dormia. O costume só era quebrado em noites de lua cheia, quando Lula e seus irmãos gostavam de brincar no rastro prateado que o chão refletia. O contato mais direto com o mundo industrial acontecia na bodega do Tozinho. Em algumas noites de quinta-feira, ouviam Luiz Gonzaga pelo rádio de válvulas do amigo. O músico estava longe, mas também perto. Apesar dos chiados, Gonzagão era quase tão concreto quanto os sanfoneiros das festas no sertão.

Sobre o país onde moravam, Lindu e seus filhos sabiam muito pouco, quase nada. O nome do presidente talvez alguém tivesse dito. Não conheciam o mapa brasileiro. Outros países pareciam menos concretos que história de lobisomem. O mundo dos Silva se resumia a sua família, parentes e vizinhos. O lugar mais longe que haviam visitado era Garanhuns, a uma distância de três horas de caminhada. Nunca haviam visto mar, rios, lagos. Conheciam apenas os alimentos do agreste. Não conheciam outras raças humanas.

Para alguns retirantes, São Paulo era a terra prometida do Antigo Testamento, onde todos seriam felizes. Para outros, uma mistura de encantamento e terror. A São Paulo que era para ser luz, a luz no fim do túnel, às vezes se revelava escuridão. Sabiam que a cidade grande tinha engolido homens que nunca mais cuspiu.

Sem notar, Lindu estava repetindo a história de seus parentes europeus. De mãos vazias, deixava para trás sua vida, os amores que nunca mais veria, como sua Mãe Tili, que morreu quatro anos depois.

O pequeno Lula começava a aprender que a vida era imprevisível. Mas não tinha dimensão da grandeza daquele momento, quando cruzava dois mundos. Seguia junto a outros retirantes, a meio caminho entre a miséria e a glória. Eram como lagartas esperando por seu dia de borboleta. O caminhão seguia. Novas paisagens apareciam. Outra vegetação. Outra arquitetura. Lula nunca havia visto sobrados, prédios. Quantos caminhões, meu Deus. Carros... Nunca tinha visto carros. Para aquele mundo novo, Lula e seus companheiros de jornada tinham olhos e a alma virgens.