A História de Lula, o Filho do Brasil
Rebanho de Crianças
Criados como num rebanho, Luiz Inácio e seus irmãos cresciam junto aos filhos de tio Sérgio e outros primos. Sem vestir nenhuma roupa, ou vestindo pouca coisa, já que o clima quente não exigia mais do que um calçãozinho, as crianças, descalças, corriam por toda parte. Quando a fome apertava, suas mãozinhas quebravam coquinhos, chamados de uricuri. Também gostavam de fazer biju, uma massa de farinha de mandioca que cozinhavam a céu aberto, sobre pedras. Às vezes tinham a sorte de encontrar um cajueiro, um pé de umbu carregado. Mas quando tentavam roubar melancias da plantação de seu avô, João Grande respondia com tiros de espingarda.
Quase sempre tinham como café da manhã feijão-de-corda misturado à farinha de mandioca. Ou uma espécie de mingau feito com um pouco de café e farinha. Era uma pasta indigesta, preparada para enganar o estômago das crianças por muitas horas. Nos dias de fartura comiam curau de milho ralado, cozido com um pouquinho de leite e uma pitada de sal. E se deliciavam.
Para as crianças, conseguir um pedacinho de carne era diversão. Com seus estilingues, acertavam beija-flores para assá-los enfileirados num espetinho. Luiz Inácio costumava ouvir de Vavá que os beija-flores eram tantos que pareciam um “empesto”. Revoadas daqueles minúsculos seres caíam mortas enquanto as crianças gritavam, comemorando e já enchendo a boca de água. O mais divertido mesmo era caçar preá, um roedor parecido com rato. Divertido e perigoso. Precisavam fazer uma boa arataca para que aquela bolinha de pelos pudesse virar guisado. Mas o prato que agradava aos meninos também atraía as cobras. Preso na armadilha, o preá podia ser almoço de uma delas. Se os meninos pusessem a mão dentro da arataca sem olhar bem, em vez de ganhar um jantar, ganhariam um problema.
Como tantos Luízes nordestinos, Luiz Inácio recebeu o apelido de Lula. Por nunca ter sido apresentado à riqueza, Lula não sabia distinguir o rosto da pobreza. Quando estava brincando fora de casa, dividia com o gado a água do chão. E aproveitava para dar petelecos nos caramujos do fundo do barreiro. Talvez aqueles bichinhos que achava engraçados trouxessem esquistossomose. Mas naquele tempo, apenas brincar importava. O sertão era seu parque de diversões, e seu brinquedo favorito, o pé de mulungu dos arredores de sua casa. Do alto de seus galhos, Lula se sentia rei.