A História de Lula, o Filho do Brasil

Denise Paraná · Capítulo 35 de 88

Páginas do PDF

A História de Lula, o Filho do Brasil

O Outro

Se havia uma espécie de código de ética entre retirantes, ele determinava que os que chegavam antes acolhiam os que vinham depois. Não importava em que condições seriam recebidos. De modo geral, as acomodações eram precárias. Dormiam diretamente no chão, sem colchões para amaciar um pouco a dureza da viagem e a aspereza dos dias que viriam. Os anfitriões eram quase tão pobres quanto suas visitas. Mas um teto já bastava.

Em sua acanhada casinha na periferia de São Paulo, a mãe de Lula percebeu feliz que já havia mudado de lado. Não pedia mais acolhimento; era ela quem acolhia. Muitos contraparentes experimentados em pau de arara chegaram e partiram de sua casa. Já adaptada à cidade grande, era Lindu quem fazia o papel de intérprete do mundo novo. Um dia, ouviu de sua irmã Carmelita, que tinha chegado pouco tempo depois de Lindu a São Paulo, a história de outra retirante. A moça estava sozinha num quarto, mas Carmelita a ouvia falar insistentemente com alguém que não respondia:

— A senhora donde vem? Donde a senhora vem? Eu vim de Pernambuco, sabe? Cheguei ontem. Tô aqui com mais 12. E a senhora? De lá também? É parenta da Lindu?

Carmelita foi até o quarto, tentando entender o que se passava. Encontrou a retirante observando o espelho na parede, como se olhasse através de uma janela. A mulher nunca tinha visto um espelho. Olhando o próprio rosto, via apenas uma imagem humana, não sendo capaz de se reconhecer. Seu rosto era para ela tão desconhecido quanto aquele novo mundo.