A História de Lula, o Filho do Brasil
Virada
Sofrendo em silêncio, Lindu esperou um tempo que para ela parecia infinito, até que descobrissem que seu filho não estava morto, mas preso. Assim que soube da notícia, agradeceu a Deus, a todos os santos para os quais havia pedido ajuda. E, disfarçando sua dor num olhar de alegria, visitou o filho na cadeia quando as visitas foram permitidas. Ela, que imaginava conhecer todos os sentidos da palavra sofrer, agora descobria que existiam outros. Com medo de remexer feridas, nunca conversou com Frei Chico sobre a tortura. E, para além das marcas deixadas no corpo e no espírito de seu filho, Lindu guardou suas próprias cicatrizes.
Quando Lula descobriu que Frei Chico tinha sido torturado, ficou revoltado. Sentiu que aquilo significava uma grande virada em sua vida. Começou a perguntar a si próprio:
— Qual é a lógica de prenderem um cara como meu irmão? Qual é a lógica de prenderem um cara pelo simples fato de ele ser contra as injustiças sociais do país? De prenderem um pai de família, um cara que trabalhou desde os 10 anos de idade, que se ferrou a vida inteira? De prenderem um cara que só tinha uma família e as ideias dele? E de repente chega um troglodita de um milico qualquer e manda prender este cara? E tortura este cara? Em nome do quê? Em nome de que ordem?
E disse mais tarde para seus amigos de sindicato:
— Se as porradas que o Frei Chico tomou foram ruins para o corpo dele, para minha cabeça foram uma coisa extraordinária! Porque, agora, eu não vou ter mais medo de nada! Se eu tiver que ser preso pelo que eu penso, que eu seja preso! Não ligo! Nunca mais vou medir as minhas palavras nas assembleias!