A História de Lula, o Filho do Brasil
O Inevitável
Já fazia algum tempo que Lindu sentia dores e passava por desarranjos intestinais. A sertaneja, acostumada a lidar com a aspereza da vida, quase nunca reclamava. Não queria assustar seus filhos ou dar trabalho. Todos já eram casados, tinham seus próprios filhos, família para cuidar. E Lula, então, coitado, ninguém possuía vida mais agitada do que ele. Mas quando o mal-estar se intensificou de um jeito que ficou visível aos olhos da família, Lindu foi levada a um médico.
No hospital, munida de exames, laudos médicos, suas filhas descobriram. Depois de ter pregado tantas peças na família de Lindu, o destino reservou para ela a peça final: seu útero, que tantas vidas gerou, agora guardava a morte. Quando foi descoberto, o câncer que começou no útero já havia se espalhado por todo o corpo. Nada mais podia ser feito, apenas diminuir os sintomas.
Lindu foi internada. Ela detestava hospitais, mas não se abalou. Nada a abalava. Depois que conseguiu exorcizar o horror da fome, o que desejava na vida era criar seus filhos e vê-los se tornar pessoas dignas. Queria simplesmente que as filhas mulheres nunca tivessem que se prostituir e que os filhos homens nunca se tornassem marginais. Este sonho ela sabia que havia conquistado e era feliz por isso.
Tiana, Maria e Marinete, assim como as noras, revezavam-se no quarto de Lindu. Elas lhe levavam revistas para que visse as fotos de seu Luiz Inácio, o metalúrgico brasileiro que enfrentou a ditadura. Lindu não sabia ler, mas entendia muito bem os perigos daquela travessia que seu filho havia se proposto a fazer. Parecia mais perigoso do que quando cruzaram seu mundo num pau de arara. Mas como ela podia pedir para o filho não se arriscar por aquilo que acreditava, se ela mesma, a vida inteira, havia dado exemplo contrário? Lindu rezava em silêncio. Pedia pelo filho, conversava com seus santos, velhos amigos que não costumavam deixá-la na mão.