A História de Lula, o Filho do Brasil

Denise Paraná · Capítulo 19 de 88

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A História de Lula, o Filho do Brasil

Morrer Lutando

Do alto do pé de mulungu, Lula olhava para sua casa. Ele tinha 7 anos. De longe, via sua mãe dentro da sala. Ela recolhia os objetos da família. Tirava os retratos pendurados na parede, as imagens de santo de seus altares. Lindu embrulhou suas coisas numa trouxa e levou ao amigo Tozinho da venda. Ofereceu a ele tudo o que tinha em troca de passagens para o próximo pau de arara. Pediu também aos seus filhos mais velhos que vendessem a cabra. Sua casa teve o mesmo destino. Foi entregue para um compadre que, sem dinheiro, pagou apenas a entrada. A pobreza era de todos. Ao saber da notícia, Dorico, irmão de Lindu, decidiu tomar o mesmo rumo. Com sua mulher Laura e dois filhos, iriam juntos para São Paulo.

No dia da partida, Lula não entendia o que agitava tanto sua mãe e seus irmãos. Vavá subiu num pé de mulungu e disse que não iria descer. Não queria correr os riscos da viagem. Lindu o chamou:

— Desce Vavá. Desce filho. As coisas vão melhorar. É melhor morrer tentando que morrer aqui de fome.

Lindu era uma mulher de entregas. Entregou-se a seu marido, aos filhos, entregava-se à vida. Mas não se entregaria à morte. Preferia morrer lutando. Assim, sem olhar para trás, Lula viu sua mãe pegar os filhos, as trouxas e caminhar até a bodega do Tozinho, de onde sairia o pau de arara. Mas o caminhão atrasou dois dias e eles tiveram que esperar. Tozinho os colocou num quarto. Lobo, o cachorro de estimação, latia e uivava do lado de fora. Chamava por Lula e seus irmãos. Intuía a separação definitiva. Lobo morreu de saudade dias depois que a família partiu. Lula nunca mais o esqueceu.

Quando o caminhão finalmente chegou, trazia alguns retirantes de outros sertões. A bodega do Tozinho estava agitada. Parentes dos que iam se abraçavam, choravam um último adeus. No meio da agitação, Lula viu uma coisa mágica: um homem deslizava sobre duas rodas. Ficou paralisado, sorrindo. Lula tinha descoberto a bicicleta. E nem sabia quantas máquinas, invenções, ainda veria.

O caminhão partiu. Instalada no desconforto do pau de arara, a família Silva viu seu pedaço de terra sumir no horizonte queimado pela seca. A poeira que o caminhão levantava fazia desaparecer o mundo que Lula conhecia. De agora em diante, tudo era novo. Nenhuma referência parecia segura diante daquilo que começavam a ver.