A História de Lula, o Filho do Brasil
O Pai
Aristides mandava de vez em quando algum dinheiro para o sertão. Também enviava e recebia notícias através de cartas que seus amigos alfabetizados ajudavam a escrever e entender. Cinco anos depois da ida para Santos, ele decidiu visitar sua terra. Havia tirado a sorte grande no jogo do bicho e podia dar-se o luxo.
Numa tarde de 1950, quando tinha 5 anos, Lula viu um homem desconhecido entrar em sua casa. Lindu contou que aquele era seu pai. Os irmãos mais velhos o reconheceram. Para Lula, aquele estava longe de ser um momento de emoção. Lindu era pai e mãe. Até então, o pai não fazia falta.
Sem nenhum constrangimento, Aristides chegou com duas crianças, os filhos que teve com Mocinha. Os irmãos de Lula olharam espantados para seus meios-irmãos. Não porque o pai tivesse outra família. Mas porque as crianças usavam roupas que eles consideraram maravilhosas. Invejaram suas camisas, meias, sapatos. Foi por isso que Vavá e Frei Chico decidiram levar os dois para conhecer os segredos do sertão. Lição número um: os efeitos da urtiga sobre a pele. Se os meninos se vestiam como príncipes, era bom que conhecessem as dores de seus serviçais.
Lindu olhou apenas o lado bom da visita de Aristides e acolheu os meninos que ele trouxe. E não se sabe se foi por amor ou por acreditar que devia obediência ao marido que ela entregou seu corpo a ele. Com ou sem mágoa, com ou sem prazer, voltava aos braços de seu homem. E não demorou a sentir que estava grávida. Mas as horas estavam contadas e novamente Aristides partiu.
Sua segunda partida foi ainda mais dura para Lindu. Chorando atrás da porta, ela viu Aristides levar Jaime, o filho que tanto amava e que, aos 12 anos, mais a ajudava. Tempos depois, Zé Cuia seguiu o mesmo caminho. Lindu estava sozinha mais uma vez. E mais uma vez com um filho por vir.