A História de Lula, o Filho do Brasil
A Tortura
No início de outubro de 1975, quando Frei Chico era vice-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Caetano, recebeu informações confusas de que a repressão militar estava sumindo com militantes de seu partido, o PCB. Como a imprensa sofria censura, ele não conseguia confirmar as notícias, mas começou a intuir que algo muito ruim estava por acontecer. Numa manhã de sábado, quando sua mulher Ivenes havia saído com seus filhos, deixando a casa vazia, Frei Chico decidiu que aquele seria o melhor momento para se livrar de documentos do partido que escondia embaixo do tanque de lavar roupa. Imaginou que o melhor lugar para jogar aqueles papéis seria num terreno baldio próximo e saiu de casa com os documentos na mão. Teve início então o mais tortuoso e sangrento pesadelo de sua vida. Só anos depois, quando já conseguia conversar sobre o que aconteceu sem reviver tantas dores, contou para uma amiga:
— Naquele dia, eu já tinha ouvido falar de companheiros que haviam sumido. Tinha almoçado com o pessoal do meu sindicato que estava com muito medo. As notícias eram desencontradas, nada saía publicado, a imprensa estava censurada. Mas a gente sentia alguma coisa pairando no ar. Quando eu saí de casa à tarde, logo que comecei a caminhar fui abordado por homens armados que estavam dentro de uma Veraneio. Eu fiquei horrorizado. É uma situação terrível. A gente não sabe o que pode acontecer. Foi toda uma vida de luta. Anos de clandestinidade. Tudo passando pela minha cabeça, naquela hora. A gente nem sabe o que pensar direito. Lembra dos filhos. Lembra da mulher, da mãe, de toda a família. Eu estava muito perto da minha casa e com o documento do partido comunista na mão. Aquilo não podia ser pior. Fui jogado para dentro do carro e ouvi dezenas de perguntas “quem você é?” “o que está fazendo aqui?” “Que papéis são estes?”. Era um turbilhão. Diante daquilo, o que eu podia fazer? Estava com o documento e a minha identidade na mão, não tinha como negar. O impressionante é que ninguém na rua viu meu sequestro. Enfiaram uma máscara na minha cara e me levaram para um lugar que depois eu descobri que era o DOI-CODI. Mas todas as coisas eram feitas ali para deixar a gente apavorado. Para quebrar nossa autoestima. Para deixar a gente se sentir um animal, uma coisa qualquer. Tinham outras pessoas ali dentro. Mesmo assim, quem chegava tinha que ficar pelado na frente dos outros. Ficar pelado na frente de qualquer um, homem ou mulher. Era muito, muito constrangedor. Sempre tinha alguém olhando com cara feia. Depois da tortura moral, veio a física.
“Fui levado para uma sala pequena toda vedada para os gemidos de dor não serem ouvidos. Era uma sala de tortura que tinha uma tal cadeira do dragão. Ficar preso naquilo é um sofrimento horrível. A gente apanha até quase perder consciência, leva choque. E tem que confirmar o que eles já sabem. Se não fizer assim não se sobrevive. Mas tem horas que a gente confunde tudo o que está dizendo. Quando a gente sai da sala de tortura eles colocam dentro dela outro infeliz. E tudo começa de novo. Nem todo mundo sobrevive. Eu passei uma semana sendo torturado. Aquilo era um inferno. Mal dá para explicar. É uma coisa de louco. O objetivo dos torturadores é destruir o que existe de humano em nós. Quando a gente está sendo torturado, tem muita vontade de se matar. Os torturadores sabem disso, por isso ficamos sem cintos, sem cadarços de sapatos, nada que a gente possa usar para se enforcar... Até a forca é melhor que aquilo. A tortura não deixa só cicatriz física. Fica a cicatriz da alma.”