A História de Lula, o Filho do Brasil
São Paulo, Capital
Instalada temporariamente na casa de um compadre nordestino, nos fundos de um bar, Lindu e seus filhos logo encontraram emprego e uma nova casa para morar. Em frente ao Instituto Brasileiro de Café, o IBC, na Vila Carioca, um bairro periférico, alugaram uma casinha de alvenaria, sem água encanada. Alegres por prosperarem tão rapidamente, mal perceberam que São Paulo era cheia de armadilhas. A cidade acolhia, mas acolhia em suas margens, onde a vida se revelava muito mais difícil e perigosa do que em Santos.
Logo, quando Lula e seus irmãos estavam trazendo para casa o dinheiro de seu trabalho transformado em alimentos, roupas, móveis, veio a primeira enchente. Muitas outras se seguiram. Havia vezes em que, mesmo sob um céu de brigadeiro, a água chegava de outros bairros mais altos em ondas silenciosas. Não tinha como prever. Seus poucos objetos estavam sempre, dia e noite, por um triz.
Uma noite Frei Chico, ao esticar seu braço para fora da cama, sentiu sua mão tocar em algo gelado. Acordou num pulo, vendo a casa inteira cheia de água que vinha sabe lá Deus de onde. Nessas ocasiões, o lar limpo e cheiroso de Lindu se transformava em um lugar infernal. A água da chuva, invadindo bueiros, trazia ratos mortos, todos os tipos de lixo, fezes humanas. A Vila Carioca se tornava um enorme lamaçal.
Lindu, acostumada a reconstruir a vida, ensinava seus filhos a arregaçarem as mangas e salvar o que restava. Era preciso tirar a lama dos colchões, esfregar paredes, ajudar vizinhos e, por fim, sentir satisfação pela tarefa bem realizada. Mesmo nas situações mais difíceis, Lula via a mãe sorrir, dizendo:
— As coisas vão melhorar, filho. As coisas vão melhorar.
Luiz Inácio aprendia com ela que era estupidez chorar o leite derramado; o que valia era conhecer e dominar a arte de tirar leite de pedra.