A História de Lula, o Filho do Brasil

Denise Paraná · Capítulo 80 de 88

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A História de Lula, o Filho do Brasil

O Sonho

Sem reconhecer a legitimidade do regime militar, Lula olhava para o novo, para as possibilidades que surgiam. E não estava sozinho. Como ele, milhares de trabalhadores não sabiam que estavam escrevendo a história. Se 1978 foi o ano em que estouraram incontáveis greves, o ano seguinte traria algo maior: a greve geral. Trabalhando dia e noite até o limite de suas forças, Lula e sua diretoria dedicaram-se a organizar uma greve capaz de sacudir o país. Convocaram uma assembleia no maior espaço que tinham disponível em São Bernardo do Campo, o estádio de futebol da Vila Euclides. Dias antes, num jogo entre Guarani e Corinthians, Lula olhou o público e disse para seus amigos, em tom de brincadeira:

— No dia em que a gente fizer uma assembleia com um tanto assim de gente, nós vamos virar o país de ponta-cabeça!

Na semana seguinte, sem acreditar no que via, Lula observou a entrada do estádio, que parecia um formigueiro. Uma multidão de trabalhadores que não acabava mais. Para a diretoria do sindicato, aquilo tudo era tão novo quanto para os operários. Tudo teve que ser improvisado. Com o estádio completamente lotado e o coração na mão, Lula pediu que colocassem no centro do gramado quatro mesas de bar, para servir de palanque. Sem aparelho de som, Lula falava e os operários mais próximos a ele repetiam para os de trás, e assim sucessivamente, em ondas, até que suas palavras fossem ouvidas em cada canto do estádio.

A greve geral dos metalúrgicos, enfim, se concretizou. Mas depois de 15 dias parados, Lula percebeu que era necessária uma trégua. A negociação estava muito difícil. O governo havia feito uma intervenção no sindicato e a correlação desigual de forças poderia resultar num impasse. Em assembleia, pediu aos metalúrgicos que suspendessem a greve por 45 dias. Passado este período, o sindicato conseguiu um bom acordo com a indústria automobilística e propôs o fim da greve. Os 150 mil metalúrgicos liderados por Lula voltaram ao trabalho.

Mas nem tudo eram flores. Muitos trabalhadores ainda estavam envolvidos no clima de guerra e queriam continuar a greve. Eles viam agora em Lula a imagem de um traidor. Ouvindo gritos de “traíra” em alguns lugares por onde passava, Lula dizia a amigos que se sentia um miserável. Era torturado pela hipótese de os operários não verem mais nele seu representante legítimo. Por isso, decidiu convocar uma assembleia e propor uma nova eleição para a diretoria do sindicato:

— Nós queremos fazer um jogo limpo com vocês. Se vocês acham que nós somos traidores, é melhor então que a gente não volte para a direção do sindicato. Vamos convocar uma nova eleição e aí vocês elegem uma nova diretoria.

O resultado foi Lula e sua diretoria aclamados por unanimidade. Emocionados, chorando muito, saíram ainda mais fortalecidos para o embate do ano seguinte. E em 1980, já estavam experientes. Foram 41 dias de greve, e ninguém mais os chamou de traidores. Mas como Lula tinha previsto na greve anterior, naquele ano os trabalhadores se desgastaram, perderam poder de fogo e não conquistaram o aumento salarial que pretendiam.

Marcos, Lula e Marisa, na casa de São Bernardo