A História de Lula, o Filho do Brasil

Denise Paraná · Capítulo 37 de 88

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A História de Lula, o Filho do Brasil

Telefonista Mudo

Com o passar do tempo, a vida paulistana levou até Lula outras possibilidades profissionais, além do trabalho de engraxate. Como sua mãe Lindu fazia amigos com facilidade, logo os donos da tinturaria vizinha passaram a frequentar sua casa. Ao caçula de Lindu ofereceram um emprego.

Seu Antônio, dono da tinturaria, passou a ter Lula como um filho e desejou ensinar-lhe japonês. Mas o filho de Lindu considerava a língua de seu patrão difícil demais e desistiu antes mesmo de começar. Por outro lado, seu Antônio considerou que seria difícil demais para Lula fazer algo além do que colocar a roupa de seus clientes na máquina e, depois, entregá-las no endereço certo. Lavagem à mão e a seco, como passar e engomar, ele deixava a cargo de sua família. Eram processos delicados demais para um garoto muito comportado, mas que dava suas pisadas na bola. No dia em que o atarracado Lula foi levar um terno de linho lavado e passado para um operário da Ford, não conseguiu erguê-lo o suficiente para evitar que o molhasse numa vala cheia de água suja. Desesperado por ter encharcado a peça de roupa e emudecido de medo, decidiu simplesmente tocar a campainha e entregar a encomenda naquele estado. Quando já dobrava a esquina, foi chamado de volta aos berros pela esposa do operário. Durante anos, ao encontrar com Lula, o empregado da Ford lembrava o episódio.

Mas o primeiro emprego formal de Lula foi nos Armazéns Gerais Columbia, uma fábrica de persianas, onde trabalhou como telefonista. Tímido, chegando a ser quase mudo, a cada vez que a campainha tocava, Lula suava, nervoso, agitado. Seu estado emocional piorava tudo: não entendia os recados que eram passados, não os anotava nem transmitia direito. Dentro de Lula as palavras pareciam resistir, agarravam-se em suas cordas vocais, língua, dentes: tinham medo dos ouvidos alheios. Como um telefonista mudo é tudo de que ninguém precisa, os Armazéns Gerais Columbia logo demitiram Lula. Mas sua demissão já era esperada. Ele sabia, havia anos, que falar com as pessoas não era seu forte. Lembrava do horror que sentia quando Frei Chico o obrigava a gritar “laranja” quando vendiam a fruta no porto de Santos. Mesmo levando alguns petelecos do irmão, Lula permanecia calado, tomado de vergonha, incapaz de gritar. Ele sabia que, no futuro, teria que escolher uma profissão silenciosa. Falar com as pessoas, definitivamente, não era um dom que ele tinha.

Lula (o terceiro agachado, da esquerda para a direita) com os outros jogadores do

Náutico Futebol Clube, em Santos, nos anos 50