A Raposa Já Era o Caçador

Herta Müller · Capítulo 8 de 33

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A Raposa Já Era o Caçador

A gata e o anão

 

Cabeças andam entre os rolos enferrujados de arame no pátio da fábrica. Andam uma atrás da outra. O zelador olha para o céu. Ele vê o alto-falante ao lado do portão.

De manhã, das seis às seis e meia, sai música desse alto-falante. Canções de trabalhadores. O zelador as chama de música matinal. Para ele, trata-se de um relógio. Os que passam pelo portão quando a música silenciou estão chegando atrasados ao trabalho. Os que não acertam o passo com o ritmo, os que não atravessam o pátio em silêncio até seu tear têm seus nomes anotados e são denunciados.

E ainda não clareou quando as músicas de marchar estão altas. O vento bate na chapa ondulada em cima do telhado. A chuva bate embaixo, no asfalto. As mulheres sujam as meias, os chapéus formam calhas. Na rua, do lado de fora, já está mais claro. Os rolos de arame estão molhados pela noite, são pretos. Por causa disso, o dia demora mais para chegar à fábrica, mesmo no verão.

 

O zelador cospe cascas de sementes de girassol na tarde. Elas caem no chão, sobre a soleira da porta. A zeladora fica na portaria, ela faz tricô, falta-lhe um dente no meio da boca, usa um avental verde. Ela conta as pessoas em voz alta pela banguela. A gata tigrada fica sentada ao lado de seus sapatos.

O telefone toca na portaria. O zelador escuta o toque com a têmpora. Ele não vira a cabeça, ele observa as cabeças caminhando entre os rolos de arame. A zeladora enfia a agulha de tricô na boca e mete a cabeça da agulha na banguela, passa a agulha dentro do avental, por baixo da laringe. Ela se coça entre os seios. A gata repuxa as orelhas e observa. Os olhos dela são uvas amarelas. Durante a contagem, o número de pessoas fica registrado na banguela e nos olhos da gata. O toque do telefone é estridente. Ele fica preso no fio de lã, o fio sobe pela mão da zeladora. A gata passa por cima do sapato da zeladora e vai para o pátio da fábrica. A zeladora não levanta o fone.

No pátio da fábrica, a gata é de ferrugem e arame humano. Sobre o telhado da fábrica, a gata é de chapa ondulada, diante dos escritórios ela é de asfalto. Nos galpões, a gata é de barras, rolos e óleo.

O zelador enxerga pescoços entre as cabeças caminhantes pelos rolos de arame. Pardais trinam de cima do arame. O zelador olha para cima. Quando os pardais voam um a um até o sol, eles são leves, apenas o bando é mais pesado. A tarde é recortada torta pela chapa ondulada. Os gritos dos pássaros são roucos.

As cabeças no pátio se aproximam, elas deixam o arame, a fábrica. O zelador já enxerga os pescoços. Ele anda para lá e para cá. Boceja, sua língua é grossa, fecha-lhe os olhos no tempo ocioso, no qual o sol pousa molhado sobre seu queixo. Quando o zelador fica ao sol, uma careca dorme debaixo de seus fios de cabelo. O zelador não enxerga as mãos e as bolsas dos passantes.

Para o zelador, bocejar é esperar. Quando os trabalhadores deixam o arame, as bolsas deles são as bolsas dele. Elas são revistadas. Balançam sob as mãos, são leves. Ficam penduradas, rígidas, apenas quando há metal dentro. O zelador enxerga. Bolsas de mulher sobre os ombros também ficam penduradas rígidas quando há metal dentro. Tudo o que se pode roubar da fábrica é de ferro.

As mãos do zelador não revistam todas as bolsas. Elas sabem quando é o caso de revistar qual bolsa. E o caso se coloca quando os rostos e as bolsas passam por ele. Nessa hora, o ar no rosto do zelador fica diferente entre nariz e boca. O zelador entra nesse ar pela respiração. Ele permite ao pressentimento decidir entre uma bolsa e outra.

A decisão também depende da sombra da portaria, do gosto das sementes de girassol em sua boca. Quando algumas delas estão rançosas, sua língua se torna amarga. Os ossos malares endurecem, os olhos obstinam. As pontas de seus dedos tremem. Ao revirar a primeira bolsa, os dedos se tornam seguros. O espaço entre mão e polegar se aperta em objetos estranhos, o tocar é ávido. Para o zelador, revirar a mão na bolsa é como tocar um rosto. Ele consegue alterar os rostos da palidez ao rubor. Eles não retornam mais ao que eram antes. Murchos ou inchados, eles passam pelo portão depois do aceno dele. Mesmo já estando há muito na rua, permanecem alterados. Ouvir e escutar desfocados, de modo que o sol lhes parece uma grande mão. E o nariz não é mais suficiente, pois no bonde tomam ar com a boca e os olhos no rosto dos outros passageiros.

Durante a revista, o zelador ouve a deglutição silenciosa nos pescoços. As gargantas secas como um torno, o medo torce o estômago. O zelador cheira o medo, ele se solta dos homens e das mulheres como ar estragado e fica preso na altura dos calcanhares. Quando o zelador revira uma bolsa durante longo tempo, no medo muitos soltam, depois do primeiro, também um segundo flato, silencioso.

O zelador é muito crente, disse a zeladora para Clara. Por isso ele não gosta das pessoas. Ele castiga aqueles que não creem. E admira aqueles que creem. Ele não gosta daqueles que acreditam, mas tem respeito por eles. Ele respeita o secretário do partido, pois o secretário acredita no partido. Ele respeita o diretor, pois o diretor acredita no poder.

A zeladora tirou o grampo de cabelo do cabelo, meteu-o na banguela e enrolou melhor o cabelo. A maioria dos que creem em alguma coisa, disse Clara, são camaradas graúdos que não precisam do zelador.

A zeladora afundou bastante o grampo no cabelo, também há outros, ela disse, Clara estava junto à porta, a zeladora estava na portaria. Você acredita em Deus?, perguntou a zeladora. Clara olhou por sobre a cabeça inteira dela até o coque, na curvatura do grampo de metal. Pois as ondulações do grampo tinham sumido, a curvatura estava no alto e tão fina quanto o cabelo, como um único fio. Só que mais clara. Às vezes eu acredito, às vezes, não, disse Clara, quando estou despreocupada eu esqueço. A zeladora limpou o pó do telefone com a ponta da cortina, o zelador diz, crer é uma capacidade, ela disse. Os trabalhadores não acreditam em Deus e não acreditam em seu trabalho. O zelador diz, para os trabalhadores, Deus não passa de um dia livre, nos quais os trabalhadores, se Deus quiser, terão um franguinho frito à mesa. O zelador não come carne de aves, disse ela. Ao falar, ele observou os próprios olhos e o avental, que ficava mais escuro no vidro, o zelador diz, os trabalhadores comem em vez de acreditar em Deus, um franguinho de domingo, recheado com o próprio fígado.

O bando de pardais se desfaz. As vidraças nos galpões estão quebradas, os pardais encontram os buracos nos vidros. Eles voam para dentro mais depressa do que o zelador consegue ver. A zeladora ri e diz, não olhe, senão os pardais vão atravessar sua testa. O zelador olha para as mãos, os pelos pretos sobre os dedos, o pulso. A sombra da tarde corta sua calça na altura dos joelhos. A poeira gira em torno de si mesma diante dos rolos de arame.

 

Uma faca, um vidro de conservas melado, um jornal, um pedaço de casca de pão. Debaixo do jornal, uma mancheia de parafusos. Ora, ora, diz o porteiro. O homem fecha sua bolsa.

Uma carta, um frasquinho de esmalte. Um saco plástico e um livro. A jaqueta na sacola de compras. Um batom cai do bolso da jaqueta no chão. O porteiro se agacha. Ele abre o batom, faz um risco vermelho sobre o pulso. Ele lambe o risco com a língua, argh, ele diz, framboesas podres e mosquitos.

O homem está com o polegar ferido. As fivelas de sua bolsa estão enferrujadas. O zelador pega um canivete de dentro da bolsa, debaixo do canivete um gorro, debaixo do gorro um ferro de passar. Veja só, diz o zelador. Só consertei a tomada, diz o homem. Horário de trabalho, diz o zelador. Ele leva o ferro de passar à portaria, amaldiçoa a mãe de todas as tomadas. A zeladora de avental verde deposita o ferro sobre a mão, estica os dedos, passa a palma da mão com o ferro frio.

Uma bolsa de mão. Um chumaço de algodão cai no chão. O homem com a ferida no polegar se agacha. A mulher prende uma mecha de cabelo atrás da orelha, puxa da mão o algodão ao lado da ferida no polegar. No algodão há uma casca de semente de girassol e uma formiga penduradas.

Clara ri, o sol pisca branco no seu dente, o zelador libera sua passagem com um aceno. A banguela da zeladora ri.

O homem com a ferida no polegar tira o gorro da bolsa. Ele deposita o gorro sobre o punho. Estica o indicador e gira o gorro escuro feito uma roda. A zeladora ri, sua banguela é um funil, seu riso se esganiça. O homem com a ferida no polegar olha para os círculos feitos pelo gorro, ele canta:

O aluguel já está atrasado

na pendura faz um mês

Seu punho é uma roda, uma veia da dobra de seu braço engrossa e afina. Seus olhos estão presos nas agulhas de tricô da zeladora.

E o patrão, patrão da casa

põe a gente no olho da rua

Sua boca canta, seus olhos são miúdos, seu punho voa. E a outra mão, a mão vazia, a mão com a ferida no polegar, não fecha as fivelas enferrujadas da bolsa. A canção do homem espera pelo ferro de passar.

Uma folha de acácia bate na fresta da porta, se solta, voa e voa. A zeladora a observa. A folha é amarela como os olhos da gata. O homem com a ferida no polegar consulta o relógio.

 

A gata tem filhotes todos os anos. São tigrados feito ela. Ela logo os come, enquanto ainda estão molhados, escorregadios e cegos. A gata fica enlutada durante uma semana depois de comer os filhotes. Ela fica andando pelo pátio. Sua barriga é lisa, as listras, estreitas, de modo que ela consegue passar através e por tudo.

Enquanto está enlutada, a gata não come carne. Apenas pontinhas de folhas de grama jovem e a beirada de sal nas escadas do pátio de trás.

As mulheres nos teares dizem, a gata veio da periferia. E o administrador do almoxarifado diz, a gata saiu do pátio da fábrica, das caixas com a limalha de ferro, onde a chuva encharca devagar. Ele diz que ela estava molhada e enferrujada, e não era maior do que uma maçã quando a encontrou no caminho do almoxarifado até os escritórios, entre as caixas com a limalha. O administrador colocou a gata sobre uma luva de couro e levou-a ao portão, aos cuidados do zelador.

E a zeladora deitou a gata num gorro de pele.

E durante trinta dias dei leite para a gata com um canudinho, diz a zeladora. Como ninguém queria a gata, diz a zeladora, eu a criei. Depois de uma semana, diz o zelador, ela conseguiu abrir os olhos. Ainda estou assustado, pois o administrador estava nos olhos, em ambos os olhos da gata. E ainda hoje, quando a gata ronrona, ele diz, o administrador está em ambos os seus olhos.

Para a gata, a fábrica é do tamanho de seu nariz. A gata cheira tudo. Ela cheira dentro dos galpões, nos cantos mais escondidos, onde se sua e se passa frio, se grita, se chora e se rouba. Ela cheira as frestas no pátio entre os rolos de arame, nas quais a grama é sufocada e, em pé, se amassa, se ofega, se faz amor. Lá, a trepada é tão ávida e oculta quanto o roubo.

No portão de trás, onde só passam caminhões, onde o telhado é de manta asfáltica, a calha de pneus de carros cortados e a cerca de portas de carro amassadas e ramos de salgueiro, há uma rua torta, ela se chama rua da vitória. A calha do telhado faz com que a chuva caia na rua da Vitória. A janelinha ao lado do portão de trás é a janela do almoxarifado. Lá fica o administrador. Ele se chama Grigore.

No almoxarifado, as roupas de segurança são uma montanha de jaquetas acolchoadas cinza, de aventais de couro e luvas de couro e botas cinza de borracha. Diante dessa montanha cinza há uma caixa grande emborcada, serve de mesa, e uma caixa pequena emborcada, serve de cadeira. E sobre a mesa há uma lista com os nomes de todos os trabalhadores. Sobre a cadeira senta-se Grigore.

 

Grigore vende ouro, diz a zeladora, colares de ouro. E alianças. Ele compra isso de um velho cigano que perdeu uma perna na guerra. Esse cigano mora no fim da cidade, ao lado do cemitério dos heróis. Esse cigano compra o ouro de um jovem sérvio que mora numa cidade na fronteira, na divisa com a Hungria e a Sérvia. Esse jovem tem parentes na Sérvia e viaja até lá se aproveitando de acordos bilaterais dessas fronteiras. E um cunhado trabalha na alfândega da fronteira.

Às vezes, Grigore também tem mercadorias da Rússia. As correntes de ouro grossas são da Rússia e as finas são da Sérvia. As grossas são de corações prensados e as finas, de dadinhos prensados. As alianças são da Hungria.

Quando Grigore fecha a mão e abre devagar os dedos dessa mão fechada, as correntes escorrem feito arame dourado por seus dedos. Ele balança suas pontas e segura-as na janela diante da luz.

O arame enferrujado passa de mão em mão durante meio ano. Daí o saquinho de pagamento é levado até Grigore, uma corrente de ouro é colocada ao redor do pescoço. Alguns dias mais tarde, tarde da noite, quando a corrente já brilha na camisola e o pé está descalço sobre o tapete, batem à porta. Alguém à paisana está diante dela e atrás, alguém de uniforme. A luz no corredor é fraca. O cassetete de borracha balança junto à perna da calça. As frases são curtas, o rosto estranho brilha, uma mancha lisa de luz sobe e desce. A voz permanece baixa, quase monocórdia, mas fria. Os sapatos estranhos estão sobre a beirada do tapete. A corrente é confiscada do pescoço.

 

Na manhã seguinte, Grigore vai buscá-la com o primeiro bonde, quando o vagão está quase vazio e a luz acende e apaga pelas sacudidas. Quando alguém à paisana sobe no ponto ao lado da fábrica de cerveja e lhe passa em silêncio uma caixa de fósforos.

Nesses dias, quando a água sob a ponte ainda é sonolenta e o céu ainda está corcunda pela escuridão, Grigore é o primeiro a chegar à fábrica. Ele treme de frio, ele fuma. O alto-falante ainda está mudo quando ele passa pelos rolos de arame com suas correntes de ouro atrás de sua fumaça de cigarro. Algumas horas mais tarde, ele torna a fazer as pontas balançar e escorrer pela mão diante da janela da rua da Vitória. E volta outro dinheiro, o mesmo, assim como outras imagens, as mesmas, voltam ao olho do gato.

O zelador diz que frequentemente, durante a noite, o administrador informa à polícia para quem vendeu correntes de ouro pela manhã. Grigore não informa sobre as alianças.

O zelador respeita o administrador, pois Grigore acredita em seu ouro.

Mercado negro é negro, diz a zeladora, afinal ninguém é obrigado a comprar. Tudo que é negro é inseguro. O zelador diz, alguém tem uma coisa, outro alguém precisa dessa coisa, o mundo gira conosco. Cada um faz o que pode.

A gata também cheira quando o administrador deita mulheres no canto esquerdo. Lá o monte tem uma depressão e um corredor. Sobre o corredor fica a janela. Quando Grigore abre a calça, as mulheres erguem as pernas sobre a cabeça. A gata entra pelo telhado. Ela se senta acima da depressão, no pico do monte. Para as mulheres, a gata está sentada, pois as botas de borracha nas pernas delas estão mais altas do que os olhos sobre a cabeça. Enxote-a dali, dizem as mulheres, enxote-a. E Grigore diz, não tem problema, ela não vê nada, deixe estar, não tem problema. A gata repuxa as orelhas e observa.

Depois, as mulheres ficam em pé diante da mesa, suadas, com uma jaqueta acolchoada cinza nos braços. Elas procuram seu nome na lista do administrador para assinar. A gata não espera até os dedos terem assinado. Ela sai pelo telhado, ela anda entre os rolos de arame no pátio até os galpões.

Há uma imagem nos olhos da gata. Todos veem o que aconteceu. E todos falam a respeito do último amor na fábrica, em pé, deitado, estocado com pressa. Também o falatório sobre esse amor é apressado. Todos deixam as mãos sobre o arame, no lugar onde os dedos se encontram no momento em que a gata chega. Pois nenhuma imagem envelhece. Logo haverá uma nova imagem nos olhos da gata. E na próxima, a inveja sabe disso, toda mancha de óleo no rosto de cada mulher sabe, na próxima imagem ela própria estará nos olhos da gata. No início do ano ou no outono, quando a jaqueta acolchoada puir e rasgar nos cotovelos e o vento arranhar, quente ou frio, sobre a manta asfáltica e soprar pela cerca sobre a rua da Vitória, as outras estarão assistindo. Pois a gata carregará pela fábrica as coxas, que agora estão diante do tear sob o próprio avental, nuas e abertas e mais altas que o rosto.

A gata só não carrega nenhuma imagem por uma semana durante o ano, quando está enlutada pelos seus filhotes comidos. Quem tem sorte, dizem as mulheres, e a quem o amor arrebata na pressa dessas semanas voadoras, cegas, não é visto por ninguém na fábrica.

Quem suborna a zeladora sabe quando é essa semana. Muitos a subornam. Todos, dizem a zeladora, e preencho o calendário, ela diz, digo a todos o que eu quero.

E as mulheres disputam a frente, apressam-se de antemão nos seus gemidos curtos, para dentro da falsa semana de luto.

 

Mas, como o amor entre galpões e pátio e lavanderia e escritórios revira seus fios na verdadeira semana de luto, os homens e as mulheres formados casais são vistos pelos olhos do zelador, da faxineira, do supervisor, do responsável pelo aquecimento. Existe uma pequena diferença: como não há imagens nos olhos da gata, na verdadeira semana de luto todo amor permanece um boato.

Os filhos das mulheres se parecem com Grigore, diz a zeladora. Graças a Deus as mulheres não trazem os filhos à fábrica. Nunca vi seus filhos juntos, eu os vi apenas em sequência. Pequenos ou grandes, magros ou gordos, morenos ou loiros. Meninas e meninos. Quando estão lado a lado, dá para ver que são todos irmãos. Bem diferentes, diz a zeladora, mas em cada rosto há um pedaço de Grigore do tamanho de uma mão.

Os filhos das mulheres sofrem de insônia desde que nascem. Os médicos dizem que isso vem do óleo das máquinas. Durante alguns anos, esses filhos crescem diante da fábrica.

Mas em algum momento, diz a zeladora, eles vêm aqui à portaria procurar suas mães. É raro que isso seja urgentemente necessário. Em geral não há motivo.

Que esses filhos ficam parados ali, bem perto da portaria, diz a zeladora, que eles lhe dizem quem são, para que a zeladora faça chamar suas mães. Que eles, enquanto estão parados ali, colocam assustados as pontas dos dedos sobre o rosto. Que não enxergam nem o zelador nem a zeladora. Que, já quando dizem quem são, eles têm apenas olhos para esse arame, para esse pátio de fábrica enterrado. Que olham, ausentes. Que o Grigore do tamanho de uma mão aparece cada vez mais claramente, quanto mais eles ficam parados ali.

E a zeladora enxerga a mancha de ferrugem nas camisas grandes ou pequenas, nos vestidos grandes ou pequenos, nas meias três-quartos. Enquanto esses filhos — pequenos, maiorzinhos ou quase crescidos — ficam bem perto da portaria, esperando, a zeladora enxerga a mancha dentada de ferrugem: todo filho carrega uma lâmina de ferrugem seca e esfarinhada numa peça de roupa.

Ferrugem das mãos das mães, das mesmas mãos que misturam o sangue das melancias na sopa dos homens antes da refeição. As beiradas pretas das unhas se dissolvem na lavagem das roupas. Depois da lavagem, a ferrugem não fica na água, não fica na espuma. Ela está no tecido. Não adianta secar ao vento, passar a ferro, produto contra manchas, diz a zeladora.

Os muitos irmãos que não se sabem assim, os filhos de Grigore, a zeladora continua reconhecendo-os depois de dez anos. Nesse tempo, toneladas de ferrugem e arame telado passaram pelo portão. Nesse tempo, toneladas de ferrugem e arame telado foram moldadas novamente e empilhadas no mesmo lugar, antes ainda de a grama encontrar sol para crescer. Nesse tempo, também essas crianças estarão trabalhando aqui na fábrica. Nunca quiseram isso. Elas vêm até aqui porque não sabem o que fazer. Da ponta do nariz à ponta dos sapatos, elas não topam com nenhum caminho, pois nenhum está aberto. Elas só encontram essa sarjeta de pobreza, falta de saída e fastio de mãe para filho e filhos dos filhos. Elas chegam com a mesma obrigação inesperada: no começo, ainda são barulhentas, irritadiças. Mais tarde, tornam-se suaves e mudas, enquanto se ocupam com suas lidas. O óleo de máquina ainda tem um cheiro penetrante, suas mãos há muito carregam as beiradas pretas. Elas se casam, estocam na barriga umas das outras de maneira traiçoeira, entre o turno do dia e o turno da noite, o amor que murchou. E fazem filhos. Eles têm manchas de ferrugem nas fraldas. Eles crescem, vestem camisas pequenas e depois grandes, vestidos, meias. Eles ficarão em pé diante da portaria com a lâmina de ferrugem seca e esfarinhada. Sem saber que, mais tarde, seguirão por um caminho que, mais tarde, nunca lhes oferecerá outra saída.

A mãe de Grigore também foi funcionária da fábrica. A mãe da zeladora também.

As agulhas de tricô estão sobre a mesa. O pátio da fábrica está em silêncio. O vento cheira a malte. Atrás dos telhados, adiante, fica a torre de refrigeração da cervejaria. O cano grosso, encapado, se estica da torre de refrigeração e passa sobre as ruas até o rio. Vapor sobe do cano. Ele se rasga durante o dia nos bondes que passam. À noite, é uma cortina branca. Alguns dizem que às vezes o vapor cheira a rato, pois na cervejaria, nas cubas de ferro, que são maiores do que a casinha da portaria, os ratos do rio se embebedam e se afogam na cerveja.

No oitavo dia, diz o zelador, restava a Deus ainda um chumaço de cabelo de Adão e Eva. Disso, ele fez o pelo dos animais. E no nono dia Deus arrotou no vazio do mundo. Disso, fez a cerveja.

 

A sombra da portaria ampliou-se. O sol procura o caminho mais curto entre a rua da Vitória e os rolos de arame no pátio. Ele é anguloso, amassado nas bordas. O sol tem uma mancha cinza no centro.

Há dias no final do verão em que o alto-falante estala no alto da portaria. O zelador olha durante um bom tempo para o céu e diz, o sol sobre a chapa ondulada lá em cima, sobre os telhados da cidade, sobre a torre de refrigeração da cervejaria, é uma torneira enferrujada de água.

Diante do portão há um buraco na rua, lá dentro os pardais se empoam na poeira. Entre eles há um parafuso.

A zeladora e o zelador estão sentados na casinha da portaria. Eles jogam cartas. O ferro de passar está na beirada da mesa. O zelador denunciou o homem com a ferida no polegar à diretoria. Ele confiscou o ferro de passar. O homem com a ferida no polegar receberá amanhã uma advertência por escrito.

 

Pardais saltam no galpão. Seus dedos e bicos estão pretos do óleo de máquina. Eles bicam cascas de sementes de girassol e sementes de melancia e migalhas de pão. Quando o galpão está vazio, as letras dos lemas alcançam seu tamanho máximo. trabalho e honra e partido e a luz fica com um pescoço comprido junto à porta do vestiário. O anão de camisa vermelha e salto alto varre o chão gorduroso com uma vassoura gordurosa. No tear ao seu lado há uma melancia. Ela é maior do que sua cabeça. Sua casca tem listras escuras e claras.

E a luz fica inclinada junto à porta do pátio da fábrica. E a gata está sentada ao lado da porta comento um pedaço de toicinho. O anão olha através da porta para o pátio.

E o pó voa sem motivo. E a porta range.