A Raposa Já Era o Caçador
O menor dos homens tem o maior cajado
Há uma grossa camada de poeira sobre o para-brisa.
O cotovelo dele está sobre o cabelo dela. A boca dele ofega, a barriga estoca. Ela apoia o rosto contra o encosto. Ela escuta o tique-taque do relógio no pulso. O tique-taque cheira a caminhos apressados, pausas para almoço e gasolina. A cueca está no chão, a calça sobre o volante. Atrás do vidro, pés de milho estão curvados na frente do rosto dela. A calcinha está debaixo do sapato dele.
O cabelo das espigas de milho está repicado e ressecado. As folhas do milho farfalham secas, os pés de milho batem uns contra os outros, duros. Entre as pontas, cresce um céu incolor.
Ela fecha os olhos. O céu incolor sobre o milharal deságua sobre sua testa.
Ouve-se um barulho do lado de fora.
Ela abre os olhos. Uma bicicleta encosta num pé de milho no campo. Um homem carrega um saco nos ombros até a bicicleta. Está vindo alguém, ela diz.
Os pés de milho batem na cabeça do homem que caminha.
A calcinha de Clara está com uma marca de um solado ripado. Ela veste a calcinha. Ele não vai chegar até aqui, diz Pavel, ele roubou milho. Clara consulta o relógio. O homem empurra a bicicleta por entre os pés secos.
Tenho de voltar para a fábrica, diz Clara. Pavel puxa sua calça do volante, sementes de girassol caem do bolso sobre seu joelho nu, por quanto tempo você pode ficar fora do tribunal?, pergunta Clara.
O carro zumbe, está cinza, envolto pela poeira. Não trabalho no tribunal, diz Pavel. O vestido de Clara está amassado, as costas, suadas. Você é advogado?, pergunta Clara. Sim, ele diz, mas não no tribunal. O céu se alarga, pois o milho busca a amplidão, corre na direção oposta. Continua uma plantação baixa, farfalhante, que vai até o horizonte. Eu vi você num outro carro, diz Clara. Ele olha para fora, onde?, ele pergunta. Ela enxerga as sementes de girassol entre os sapatos dele, na catedral, na rua ao lado do parque. Pavel gira a direção com tanta suavidade como se suas mãos não estivessem fazendo nada. Carros pretos há em todas as fábricas, ele diz. Ela observa o ponteiro de segundos pulando no relógio, mas você não é de nenhuma fábrica.
Ele fica em silêncio e dá de ombros. E Clara fica em silêncio e olha para fora.
Lá há um canto onde o céu impede a vista. Lá um cansaço límpido espera e se ergue todos os dias até a cidade. Nos intervalos de almoço e nas tardes vazias da fábrica. Cansaço que cerra os olhos entre arame e ferrugem. Que bate no pescoço, porque a mão do zelador revira a bolsa. Cansaço que coloca frente a frente no bonde, entre os pontos de parada, rostos iguais, envelhecidos. Cansaço que entra na própria casa com o olhar na frente, diante da própria cabeça. E que permanece na casa até que um dia se encerre entre janela e porta.
E se eu imaginar o pior?, pergunta Clara e olha para a testa dele.
A pinta de Pavel anda diante do para-brisa, é preta como os montinhos recém-escavados de toupeiras na grama, ao lado da janela.
O carro procura pelos buracos do caminho. Pavel puxa sua gravata de bolinhas vermelhas e azuis. Há um fio de cabelo pendurado no colarinho da sua camisa. É um cabelo dela. Ela o retira com a ponta dos dedos. Pavel aperta o pescoço contra a mão dela e pergunta, o que é? Ela diz, nada, um fio de cabelo. O que você vai dizer para sua mulher? A alameda de álamos sobe voando na beira do caminho. Ele diz, nada. Quantos anos tem sua filha? Ele diz, oito. Os álamos soltam folhas amarelas de ambos os lados. Os dedos de Clara se tornam inseguros e deixam o cabelo cair.
Sei o que eu sei, diz Pavel.
Uma gralha está sentada na grama e brilha.
Há uma escada de incêndio ao lado do quarto com o sistema de alto-falantes. Ela conduz ao sótão. Os degraus são estreitos e de ferro. Clara sobe a escada atrás dos calcanhares de Eva. Mara, Anca e Maria já estão lá em cima. A pequena janela não está fechada, apenas encostada. Eva abre a janela, empurrando-a. Lá embaixo, no pátio, do outro lado, há três escadas e uma porta aberta. E no corredor, logo atrás da porta, ficam à esquerda o vestiário e à direita as duchas dos homens.
O cabelo de Mara está diante do rosto de Eva. Anca pressiona o ombro nas costas de Maria, Clara sente a fivela de cabelo de Maria na sua orelha.
Os homens de avental sobem todos os dias as escadas, entram no corredor e pegam a porta esquerda. Depois de um tempo, eles saem nus da porta esquerda, atravessam o corredor e vão tomar ducha na porta direita. A água quente enche o corredor de vapor. Mas de maio até setembro, quando o sol do fim de tarde cai do outro lado do pátio da fábrica, inclinado sobre o arame, a luz fica sobre as escadas e ilumina o corredor. A claridade é tanta que atravessa o vapor, que dá para ver os homens nus caminhando de uma porta à outra.
Os homens nus entortam os pés, pisam hesitantes com dedos nodosos, o chão de cimento está sempre molhado e frio e escorregadio. Eles têm barrigas gordas e costas esquálidas, encolhem os ombros. Suas barrigas são peludas, as coxas, finas. Os pelos púbicos, um nó grosso. Da janela do sótão não dá para ver seus testículos. Só o membro balançante.
Os loiros têm paus tão brancos, diz Mara. Eva encosta nas suas costas e diz, todos os moldávios têm paus brancos. Não, diz Maria, o velho Georg não. Ainda não vi o dele, diz Clara. O cabelo dela está sobre o olho, ela o põe para trás e há cabelo de milho em sua mão. Eva diz, Georg subiu as escadas antes, virá logo. Mara ergue o rosto sobre o cabelo de Eva. Os olhos dela são grandes. Clara solta o cabelo de milho.
O anão, diz Maria, meu Deus, o anão tem o maior. O menor dos homens tem o maior cajado.
Clara fica na ponta dos pés.