A Raposa Já Era o Caçador
Sono transparente
Depois da noite com o ganso abatido, todos se deitaram sem dizer palavra e dormiram profundamente. Pois todos levaram consigo o fio de cabelo do pão para a cama. Nessa noite, o sono invadiu profundamente cada um, pois estava com vergonha da noite.
Nessa noite, Adina depositou a camisola sobre a mesa e disse, não vou tirar a roupa, estou passando frio. Ela tirou o sobretudo do armário e deixou-o sobre a coberta. Paul estava arrasado e distante de si mesmo. Adina não pensava em dormir, ela estava tão desperta que seus olhos enchiam todo o quarto. Ela não se mexeu, ela esperou. Paul dormia e respirava tranquilamente.
Em seguida, ela calçou os sapatos e vestiu o sobretudo. Ela queria sair, caminhar pela rua, não até a fronteira, só até o milharal. Talvez dê para deitar lá, ela pensou, e congelar. Ilije tinha dito que o gelo entra pelos dedos do pé, que ele só dói até chegar na barriga. Então vai rápido. E, quando ele chega no pescoço, a pele começa a arder. A morte vem no quentinho.
Lá fora os cachorros latiam, nada estalava no quarto, nada tilintava.
A mão de Paul pegou-a e puxou-a até a janela. Ele empurrou a cortina pesada, ergueu o tule rendado sobre o cabelo dela. Você não pode fazer isso, ele disse, veja, há água na poça, não é gelo, as pegadas dos gansos na sujeira estão moles, não congelaram. Ele olhou-a, com esse tule sobre a cabeça você fica parecida com a ovelha, ele disse.
Ele tirou-lhe o sobretudo. Adina não se defendeu; enquanto ele lhe descalçava os sapatos, ela só pensou que o sono dele era transparente, um corredor comprido e tão vazio que nada pode se esconder dele, nem aquilo que alguém ao seu lado pensa no escuro.
E depois ela não tinha onde se segurar quando ele tocou seus seios e os anos passados voltaram ao seu corpo, os anos com Paul. Seu membro estava quente e teimoso e a pele dela ardia diferente do desejo de congelar no milharal. Mas Adina sabia que quem ardia não era ela. Era o esconderijo. Agora a raposa também estava na casa deles, e Liviu e a ovelha não estarão à altura da ameaça da raposa.
Adina ficou sentada ao lado de Paul no escuro, o cigarro dele ardia, ele fez um carinho na testa dela. Aquela que havia gemido não estava mais lá dentro. Você está se repreendendo?, ele perguntou, ela enxergou os damascos nos vidros de conserva parados no ar, debaixo do teto, ela não enxergou o armário, sim, ela disse, mas não importa. Ela também não viu os damascos nos vidros de conserva, ela só sabia que eles estavam lá.
Pois em cada toque da mão, em cada passo, durante o sono, atrás de tudo o que ela fazia, ela sabia que Liviu e a ovelha vivem num vilarejo de uma só rua, que o Natal espera por eles com um pinheirinho raquítico, que eles vão apertar as folhas decoradas do pinheiro na janela para os passantes do lado de fora, como antes. E que não haverá ninguém do lado de fora, no máximo dois estranhos, que caminharam a manhã inteira nos campos — a mulher com uma criança que quer uma raposa.
Separação para você, disse Paul, é eu estar sempre ao seu lado, mas nunca dormir com você. O cigarro ardia e se consumia rápido em sua boca.
Fique quieto, diz Adina, minha cabeça está estourando.
Nessa noite, ela sonhou que Clara estava com um vestido com buquês de rosas amarelas no milho congelado. O vento farfalhava seco e Clara carregava uma bolsa grande. Ela disse, aqui não há ninguém, eles não estão procurando por você. Ela abriu a bolsa. Na bolsa havia marmelos. Clara disse, coma, eu os lavei para você. Adina pegou um marmelo e disse, você não lavou, a casca está peluda.