A Raposa Já Era o Caçador
Céu preto e branco
A cada manhã, quando Adina deixa cair as flores secas de tília na água fervente, elas incham, os cabos e as folhas crescidas, parecidas com peles, se tornam verde-claros. A fim de distinguir os dias uns dos outros, ela conta os feitios do chá. É sempre a mesma coisa, é sempre pela manhã e os gansos e os cachorros estão na rua. Sobre a mesa há sempre um bilhete: chegamos às 12h ou 1h ou à noitinha. O chá de flores de tília sempre tem gosto de sono. A comadre fede ao lado da porta da cozinha.
Ela raramente olha pelo buraco da cortina da cozinha, pois as cercas nos quintais são de arame e os arbustos, pelados. Dá para enxergar através dos quintais e dos jardins.
Apenas Paul olha com frequência para fora e recita para si mesmo a cor do céu e a da sujeira e se está frio.
Hoje pela manhã havia vozes no vilarejo. Desde que acordou, Paul está sentado diante do buraco da cortina. Aqui a rua está vazia, ele diz, mas no meio do vilarejo estão uivando e gritando.
Adina olha pelo buraco da cortina da cozinha. O sol ofusca, o arbusto pelado lança sua sombra sobre a areia. A vizinha leva três cadeiras para o quintal. O rosto dela é pequeno e enrugado. No sol, ela fica com um bigode e não tem olhos. Ela carrega dois travesseiros e um edredom de penas até o quintal, bate-os e deixa-os sobre as cadeiras.
O chá de Paul esfriou porque seus olhos atrás dos buquês de rosas da cortina estão possuídos.
Liviu passa de casaco aberto, sem sobretudo, pela fresta da cortina. Liviu vem correndo para casa, diz Paul, senta-se rapidamente à mesa da cozinha e bebe de seu chá frio. Adina vê pelo buraco do tule da cozinha que Liviu não trancou o portão, ele passa pelo arbusto pelado. Está segurando seu cachecol na mão. Adina fecha o tule, senta-se rapidamente ao lado de Paul e segura a cabeça com as mãos. A chave gira na porta. O rosto de Liviu está suado e vermelho, ele joga o cachecol sobre a mesa. Vocês não estão ouvindo o que se passa na rua?, ele ofega, venham para o quarto.
Suas mãos tremem, ele liga o televisor, Ceausescu não pôde fazer seu discurso, ele disse, as pessoas gritaram tanto que foi impossível, um guarda-costas puxou-o para trás da cortina. Adina chora; a tela mostra, sem nitidez, pedras e janelas, o Comitê Central e, diante disso, sobretudos, apertados uns contra os outros, milhares de sobretudos sem nitidez como uma plantação coberta por gritaria. As faces de Adina ardem, seu queixo se dissolve, suas mãos estão molhadas, os pequenos rostos que gritam são uma massa de olhos, eles encaram o céu. Ele está escapando, grita Liviu, ele está fugindo, ele está morto, grita Paul, se ele fugir estará morto.
Há um helicóptero pendurado no ar sobre a sacada do Comitê Central. E fica menor, uma pontinha de agulha flutuante, cinza, que some.
A tela mostra um céu vazio, branco e preto.
Liviu beija a tela, vou te comer, vou te comer, ele diz. Seus beijos molhados ficam pendurados no céu branco e preto. Adina vê pernas velhas de homem paradas no ar, dois joelhos pontudos e panturrilhas brancas e o topete bem no alto, tão alto como nunca. Paul abre as cortinas de todas as janelas. Está tão claro dentro da casa que as paredes balançam, porque cada parede é maior do que o cômodo todo.
A ovelha está na cozinha e ainda respira pela caminhada e ri duas rodadas de lágrimas nos olhos e diz, o policial está sendo surrado de cuecas na frente da igreja. O contador tirou-lhe a calça e o padre pendurou seu quepe de policial na árvore.
A velha ali da frente sabe tudo, diz a ovelha, há dois dias ela disse que este inverno está quente demais.
Raio e trovões de inverno
estragos do céu em dezembro
é disso que o rei vai morrer
Foi isso o que ela disse. Sou velha, antigamente era assim, ela disse. E hoje pela manhã ela perguntou se eu tinha ouvido algo ontem à noite. Não eram tiros, ela disse, era uma trovoada, não aqui, mais acima, no interior.
Liviu e Paul tomam aguardente, a garrafa faz glub, os copos tilintam. Paul marcha descalço com o roupão de Liviu ao redor da mesa, copo de aguardente na mão, e canta com voz grave e trêmula a canção proibida:
Acorde, romeno, de seu sono eterno
Liviu põe um pano de prato amassado sobre o ombro dele e dança com a garrafa e canta alto e reclamão:
Hoje alegre, amanhã alegre
um pouquinho mais a coisa segue
As panelas fazem um escarcéu no armário da cozinha, Paul deixa os romenos despertos cair no meio da canção, dança ao lado de Liviu e o acompanha:
Mete mais, mais, mais
Mete mais, mais, mais
Sempre em frente, nunca atrás
A ovelha está apoiada no fogão, atrás de seus ombros estão os travesseiros e edredons de penas da velha no quintal vizinho. Eles são tão claros como se dormissem sobre as cadeiras.
Onde o helicóptero vai pousar?, pergunta a ovelha, e Paul diz, no céu, na lama junto ao romeno baixinho.
Quando eu era criança, havia um carrossel de correntes ao lado da praça do mercado, diz a ovelha. Na primeira neve ele era desligado porque Mihai não podia ficar sentado no frio. Mihai tinha um pé duro. Tínhamos de comprar bilhetes na junta do distrito quando queríamos dar uma volta no carrossel. As crianças recebiam três bilhetes e os adultos, cinco. O dinheiro deveria ser usado para asfaltar uma rua que atravessasse a vila inteira. Mihai exigia os bilhetes, arrancava um cantinho de cada um e jogava os cantinhos num chapéu. No verão, ele deixava as meninas maiores darem uma volta de graça porque antes disso, atrás de uma caixa grande, ele metia a mão na calcinha delas. Algumas se queixavam com o prefeito, mas este dizia, não faz mal, não dói. Mihai ligava o motor e o desligava. Todas as voltas tinham a mesma duração, pois ele sempre olhava para o relógio da igreja. Ao meio-dia ele fazia um intervalo, comia e enchia o motor com um tonel de óleo diesel. Ele consertava o motor apenas durante a noite, para não perder nenhuma volta durante o dia. Ele sabia das coisas, tinha montado o motor sozinho a partir de dois tratores. Quando só havia meninas, eu também dava uma volta, diz a velha. Eu não andava com os meninos, pois eles pegavam os assentos voadores das meninas e giravam as correntes até que as meninas acabassem vomitando. Mihai mostrou aos garotos como pegar os assentos das meninas.
Numa noite de inverno, dois carros pretos passaram pelo vilarejo. Vinham de uma revista na fronteira. Dizia-se que dentro havia três altos funcionários do partido, um oficial de fronteira e três guarda-costas. Eles estavam bêbados de cair. Um deles bateu na janela do carteiro e perguntou quem tinha a chave. O carteiro apontou para o extremo do vilarejo, onde Mihai morava.
Mihai já estava dormindo quando bateram na sua janela. Ele não queria abrir, mas as batidas não cessavam. Sim, disse Mihai, tenho a chave, mas não há combustível para o motor. Não tenho combustível, ele disse, o combustível fica na junta do distrito. Quando Mihai apareceu com o guarda-costas e a chave, ele olhou o motor e disse, para uma volta é suficiente. E então?, perguntou o guarda-costas. Então o motor vai se desligar, disse Mihai.
O guarda-costas acenou e todos desceram do carro e tomaram os assentos, os guarda-costas no meio dos funcionários, o oficial de fronteira atrás. Mihai esperava ao lado do motor até que todos tivessem prendido as correntes aos assentos. Dê a partida, disse o guarda-costas, quando estiver funcionando você pode ir para casa.
O motor estava funcionando, os assentos voavam, as correntes se esticavam em diagonal no ar. Mihai foi para casa, a lua brilhava e ficou muito frio. Mas o motor continuou, os assentos voaram a noite inteira.
Pela manhã, o carrossel tinha parado, disse a ovelha, e os assentos estavam no chão e sete homens se penduravam neles. Estavam congelados.
A ovelha secou duas lágrimas dos olhos e sua boca abria e fechava. No dia seguinte, chegou uma comissão ao vilarejo. O carrossel foi proibido, desmontado e levado embora. Nunca se asfaltou uma rua que atravessasse o vilarejo. Mihai e o carteiro foram presos como inimigos da classe. No processo, Mihai disse que era noite e que o óleo diesel era preto. Ele se confundira, provavelmente o motor estava cheio. E o carteiro disse que ouviu o motor durante a noite inteira, apenas pela manhã é que ele tinha parado. Ele olhou pela janela uma vez e viu os camaradas voando pelos ares. Sim, ele os escutou gritar, disse, mas não achou estranho, parecia que os camaradas estavam se divertindo.