A Raposa Já Era o Caçador
Antigamente e não agora
Um velho carrega um botijão de gás num carrinho de mão. Há uma tampa na torneira do botijão, um saco com pão está pendurado na tampa. O braço do carrinho de mão é um cabo de vassoura, suas rodas são de um triciclo de criança. As rodas são estreitas, elas se engastalham nas frestas das placas de pedra. O homem faz força e por alguns passos seu caminhar é o de um cavalo magro. A tampa do botijão de gás está solta. O homem para, deixa o cabo de vassoura bater sobre as placas de pedra. Ele se senta sobre o botijão de gás, arranca um pedaço da casca do pão. Mastigando, ele olha para os troncos dos álamos, depois para os galhos no alto.
Atrás da cabeça andam sapatos, ouvem-se passos na nuca. Adina vira a cabeça, as mãos dele enfiam sementes de girassol na boca, seus sapatos brilham, as pernas de sua calça tremulam, sua jaqueta corta-vento estala. Os sapatos repicam sobre o rosto dela. É o homem do ônibus, que empurrou o caixão em trânsito de uma janela à outra. Gosto de você, ele diz, e cospe uma casca de semente girassol sobre a pedra, você é boa na cama. Lá há um banco, e sobre o banco há uma garrafa vazia, você deve foder bem, ele diz, e no banco seguinte há os pregos nus do ferro onde havia uma tábua de sentar. Ela diz, suma, e se senta no terceiro banco vazio. Ela fica no centro, ele cospe uma casca de semente de girassol sobre o banco, ela se recosta. Ele se senta. Há bancos o suficiente, ela diz e vai para a ponta, ele se recosta e olha no rosto dela. Ela não se recosta mais, suma ou eu grito, ela diz. Ele se levanta, não importa, ele diz, não importa. Ele sorri para dentro de si, abre a calça, segura o pau na mão. Daí eu vou me despedir, ele diz, e mija no rio. Ela se levanta, sua língua subiu-lhe aos olhos de tanto nojo, ela não enxerga as placas de pedra no primeiro passo. Ela sente como sua cabeça se preenche de água fria pelas duas orelhas. Ele sacode os pingos do seu pau. Eu pago, ele grita atrás dela, dou trezentos lei, eu mijo na sua boca.
Adina olha para a ponte, ele segue devagar na outra direção, na direção de que veio. As pernas de sua calça tremulam, as pernas são finas. Ao caminhar, ele ergue várias vezes a mão ao rosto, ele come sementes de girassol. Suas costas são estreitas.
Ele caminha feito um homem tranquilo.
Como é a história do romeno baixinho que chega ao inferno?, ele perguntou, eu disse que não sabia. E ele me disse que há três semanas eu sabia. Depois ele disse que dava para notar, por “n” razões, que eu achava que os baixinhos iam para o céu e não para o inferno. E isso é uma contradição, ele disse. Eu abri a gaveta porque estou resfriada, procurei meu lenço, e ele disse que era para eu fechar a gaveta. Eu perguntei por que e ele disse que poderia haver algo na gaveta que ele não devesse ver. Eu disse, isto é um escritório, e ele disse, depois de quatro anos e meio, toda gaveta se torna íntima. Eu ri e disse que não sabia que ele era tão discreto. Depois ele disse que era advogado e que tinha boa educação. Então, o que é que o romeno baixinho vê no inferno?, ele perguntou. Depois ele contou a piada inteira: um romeno baixinho morre e chega ao inferno, há muito empurra-empurra e todos estão metidos até o queixo na lama quente. O diabo aponta o último lugar livre num canto para o romeno baixinho e o romeno baixinho se posta no lugar livre e afunda até o queixo. No meio, ao lado do assento do diabo, porém, há alguém metido somente até o meio na lama. O romeno baixinho estica o pescoço e reconhece Ceausescu. E ele pergunta ao diabo onde está a justiça, ele tem mais pecados do que eu. Sim, mas ele está de pé sobre a cabeça da mulher, diz o diabo.
Ele ria e ria. Então percebeu que estava rindo e seu olhar ficou penetrante, ele encolheu os ombros e a pinta na jugular começou a pulsar. Ele me odiou porque teve de rir. Seus toques se tornaram precipitados, suas mãos eram como garfo e faca, ele tirou uma folha de papel de sua maleta e pôs uma esferográfica sobre a mesa. Escreva, ele disse. Peguei a esferográfica e, olhando através da janela para o pátio da fábrica, ele ditou, eu, e eu perguntei eu ou o senhor, e ele disse, escreva eu e seu nome. Meu nome é suficiente, eu disse, afinal sou eu. Ele gritou, escreva o que eu estou dizendo e daí percebeu que estava gritando, apertou o queixo e os cantos da boca entre os polegares e os indicadores e disse baixinho, escreva eu e seu nome. Eu escrevi, não direi a ninguém, independentemente da relação de proximidade existente, que colaboro. Baixei a esferográfica e disse, não posso escrever isso. Ele perguntou, por quê?, e eu disse, não posso viver assim. Ah, é isso, ele disse, suas têmporas mastigavam, mas sua voz permaneceu muito tranquila. Levantei-me e me afastei da mesa, me postei diante da janela e olhei para o pátio, não quero mais ser importunada na fábrica, eu disse. Tudo bem, ele disse, pensei que você precisasse das tardes para coisas pessoais. Ele meteu a esferográfica na jaqueta e amassou a folha e guardou a bolota na maleta. Ele tinha aberto totalmente a maleta e eu vi um retrato lá dentro. Não consegui enxergar o retrato claramente, apenas uma parede. Eu sabia que conhecia essa parede. Você acha que estamos perseguindo você, ele disse, você ainda vai vir por conta própria. Ele fechou a maleta com força e depois fechou a porta com força. Quando ele partiu, eu vi meu pai nessa parede com suas faces descarnadas e as orelhas grandes. Era a última fotografia que mamãe tinha recebido de papai.
Como ele se chama?, perguntou Adina, e Paul diz, murgu, e Abi diz, pavel murgu. Que idade?, pergunta Adina, e Paul diz, trinta e cinco, quarenta e cinco. Ele não tem quarenta e cinco, diz Abi.
O café está escuro, as cortinas nas paredes de vidro são de um vermelho escuro, as toalhas das mesas são de um vermelho escuro e engolem o pouco de luz. E os sobretudos e os gorros são pretos. As lâmpadas brilham para si, a fumaça é mais clara, fica pendurada feito sono atravessado pela conversa. Nos buracos das cortinas, do lado de fora ao lado do rio, sobre as placas de pedra, o dia está ficando noite. Os troncos dos álamos se estorvam entre si, o vento gira no caminho junto à margem, junta folhas secas e as enxota novamente. Os pescadores estão no café. Eles se embebedam. Eles bebem até que a noite se torne inseparável da bebedeira na cabeça. Quando seus olhos casualmente olham pela janela, uma folha tomba do ar, aqui e acolá. E eles sabem que ela vem de longe, pois os álamos junto à água são pelados, seus galhos são varas de pesca. Os pescadores não confiam nos álamos pelados. Eles sabem que as varas de pesca continuam sendo no alto aquilo que as cabeças dos pescadores são embaixo. Os álamos proíbem a felicidade no inverno, dizem os pescadores, os álamos pelados devoram a felicidade enquanto eles bebem.
Para quem você contou a piada?, pergunta Paul. Se eu ainda soubesse, diz Abi.
O pescador com medo de melões põe uma garrafa de aguardente pela metade sobre a cabeça. Ele estica os braços feito asas e dá uma volta ao redor da mesa com a garrafa na cabeça.
murgu leu uma declaração para mim, diz Paul, na qual rosto sem rosto significa Ceausescu. Ele diz que ela é sua. Eu não acreditei. Daí ele me mostrou a folha, era sua letra. Ele ditou, diz Abi, e um homem gritava na sala ao lado, escutei a surra, escrevi tudo. Era uma gravação, diz Paul olhando para Adina. Ela olha para o vazio entre os dois rostos. E no vazio o rosto de Abi tem faces encovadas e orelhas grandes. Não era uma gravação, diz Abi, não acredito. Tinha passado da meia-noite quando pude ir embora, diz ele. Desci as escadas. Na casa do zelador havia um espelho do tamanho de uma mão apoiado no telefone, ao lado um cinzeiro com água e um pincel de barba dentro. O zelador estava com espuma branca no rosto e uma lâmina de barbear na mão. Não acreditei no que vi. Procurei a pinta no seu pescoço. Apenas quando eu estava ali do lado e o zelador afastou a lâmina da face e gritou, está ventando, feche a porta, é que compreendi que o zelador se barbeava. Não havia mais ninguém na rua, estava escuro feito breu, diz Abi, eu só via uma espuma branca diante dos meus sapatos. Em seguida, passou um bonde vazio de um vagão e janelas claras. O motorneiro andava sozinho e estava com espuma branca no rosto. Não consegui entrar.
O pescador com medo de melões ergue a garrafa de aguardente até a boca, ele não bebe, ele fecha os olhos e beija a boca da garrafa. Depois, cantarola uma canção, os olhos do pescador nadam na bebedeira, e a bebedeira nada na fumaça. Lá fora, o relógio da catedral bate, quem sabe quantas vezes, menos do que a canção cantarolada, ninguém acompanha as batidas, nem Adina.
Para quem você contou a piada?, pergunta Paul.
E durante a noite, diz Abi, sonhei que estava procurando o túmulo numa cidade estranha. Fui levado até um pátio de pedra. O muro de trás era a parede na qual a última foto do meu pai estava encostada. Eu tinha de cortar uma fita branca. Um homem grande e gordo me passou uma tesoura e um homem pequeno e gordo de avental branco estava ao meu lado e se pôs na ponta dos pés. Ele disse ao meu ouvido, o pátio está sendo inaugurado. Em seguida, os homens passaram em fila. Eles todos eram muito magros e seus olhos pareciam bolas de vidro, não havia nenhum olhar nelas. O homem pequeno e gordo perguntou, você o vê? Eu disse, não pode ser ele. O homem pequeno e gordo disse, nunca dá para saber, eles estão todos mortos.
Paul e Abi estão em silêncio, seguram a cabeça nas mãos, seus crânios com a razão abalroada. Tiratirá-tiratatá, cantarola o pescador, e sua boca está em todos os rostos. De mão em mão, a garrafa de aguardente dá a volta da mesa. Cada um dos pescadores fecha os olhos e bebe.
É uma noite no café, que acaba com as horas no meio da cidade assim como aqui e ali uma sombra do tamanho de um homem se suicida, sem mais, no rio. É inverno na cidade, um inverno demorado, envelhecido, que insere seu frio dentro dos homens. Há um inverno na cidade no qual a boca resfria, em que as mãos, ausentes, seguram e deixam cair a mesma coisa, porque a ponta dos dedos da mão se torna como couro. Há um inverno na cidade em que a água não chega nem a congelar, em que os velhos carregam suas vidas passadas feito sobretudos. Um inverno em que os jovens se odeiam feito infelicidade quando aparece, entre suas têmporas, a suspeita da felicidade. E, mesmo assim, procuram suas vidas com as órbitas oculares nuas. Um inverno passa ao redor do rio, onde em vez da água apenas o sorriso resfria. Onde o gaguejar já foi o conversado e o grito alto já foi a palavra dita pela metade. Onde cada palavra morre na garganta e bate com a língua nos dentes, muda, cada vez mais muda.
O pescador com medo de melões beija a boca da garrafa e canta:
Antigamente e não agora
Eu dormia e meu pau, não
Mas agora e agora e agora
Meu pau dorme e eu, não
Tiratirá-tiratatá