A Raposa Já Era o Caçador

Herta Müller · Capítulo 11 de 33

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A Raposa Já Era o Caçador

Infecção do ouvido médio

 

Rosto sem rosto

fronte de areia

voz sem voz

O que resta?

Resta tempo

Paul só enxerga olhos no auditório. A luz está apagada e todos os olhos são iguais. E um pouco mais de cem olhos são de policiais.

 

Tempo sem tempo

O que se pode mudar?

As cabeças que se movem no ritmo da música distinguem-se das cabeças alertas. Elas movimentam mãos e, nas mãos, lanternas acesas. Elas iluminam as cabeças dos cantantes. Também fixam os rostos que passam da cantoria ao berro. Anna está sentada na primeira fila e vê os círculos das lanternas na parede.

O que poderia trocar com vocês?

Dos meus irmãos, um

por um cigarro

A porta lateral se abre por dentro e, vindo do saguão, um facho de luz corta a sala. Cães latem.

Fiquei maluco

estou apaixonado

ela me ama

meu amor é estúpido

porque ela, apesar de tudo,

não me ama de verdade

E um homem com as costas arqueadas é puxado para fora e levado embora pelo facho de luz.

Tenho só uma ideia

O que posso vender a vocês?

O casaco estropiado

tem só um botão

Um cantor se vira e olha para Paul. Paul olha para Sorin. Ele ergue a baqueta e toca o braço de Abi.

A noite tece

um saco de escuridão

 

A porta lateral se abre do lado de fora e cabeças com quepes azuis estão sob o facho de luz. Adina está sentada no meio do auditório. Enxerga debaixo dos quepes as orelhas em riste.

Grama taciturna

um trem de carga apita na estação

Essas orelhas perscrutam o auditório, os cães latem. A boca de Paul canta, seu crânio está elétrico e os dedos de seus pés também. As lanternas brilham. Em seguida, todas as portas são escancaradas, os sapatos batem. O palco fica escuro e o auditório clareia. E os rostos que gritavam estão sob a luz, nus. Os policiais, os cachorros e um homem de terno estão no auditório. Os dedos das mãos de Paul puxam as cordas, a guitarra está muda. As baquetas de Sorin não têm som. Em seguida, o homem de terno está ao seu lado no palco, ergue as mãos e grita, chega, o show acabou, saiam do auditório com calma.

Os cantores e Paul e Abi e Sorin cantam e não se escutam mais uns aos outros. Pois a canção ficou opaca, exalou medo, tão grande feito a boca e o olhar. Tão grande feito o auditório. Lá embaixo, sob a luz, os policiais empurram, chutam e espancam os cantantes porta afora.

criança pequena sem os pais

sapato descalço sobre o asfalto

Os cassetetes de borracha procuram, ao acaso, costas, cabeças, pernas. Revólveres e pistolas automáticas estão embainhados em cintos de couro. Adina está encostada na parede. As filas de cadeiras estão vazias. Os policiais se fartaram de bater, os cachorros se fartaram de latir. Apenas os sapatos dos policiais fazem barulho. Eles se aproximam da saída. Anna está sentada entre cadeiras vazias na primeira fila. E os cachorros de pernas longas, perdidas, seguem os sapatos.

O homem de terno está no palco. Amanhã às oito na sala 2, diz ele. Paul olha e diz, entendido. Abi pergunta por quê. Sorin está puxando um cabo. Adina está ao lado de Sorin e observa o cabo aninhar-se na dobra do braço dele. Anna está sentada na beirada do palco, segurando-se com as duas mãos e olhando para o vazio. E o homem de terno diz, as perguntas fazemos nós. E Paul diz, trabalho no turno da noite. E o homem de terno salta para baixo do palco ao lado das escadas, caminha pelo auditório e grita, venha em seguida. E bate a porta atrás de si. E Anna beija Paul. Paul diz, vá para casa, amanhã venho te ver.

Ela pressiona a boca. Olha para o chão e esfrega o sapato. Paul diz, venho depois do interrogatório, sem falta.

Anna passa por Adina e seu semblante é vazio. Apenas um rosto fino. E as maçãs de seu rosto estão desfiguradas de ciúmes, por saber que Adina viveu três anos com Paul. Seus braços estão impotentes, por isso ela tem de entrelaçar os dedos a fim de conseguir andar. Por isso ela tem de erguer as pernas alto demais a cada passo nas escadas. Em seguida, ela se arrasta lentamente entre as cadeiras vazias para dentro do auditório. Por isso seus passos não enganam e mostram que Anna está levando embora seu rosto antes que ele seja descartado entre Adina e Paul. Adina escuta os passos no auditório e, no rosto de Paul, observa como o olhar de despedida se desgarra novamente. Sem olhar para trás, Anna sai do auditório por uma porta lateral.

A garrafa de aguardente passa de mão em mão. As vozes se enovelam. Uma bela noite. Num belo país. Todos podemos nos enforcar. Morrer no coletivo é proibido. Quando estivermos mortos, deixaremos o auditório com calma. Eu assino os atestados de óbito, diz Paul. Sorin ergue a garrafa até a boca, diz ao gargalo da garrafa, à aguardente que está batendo contra seus dentes, para mim, por favor, meu diagnóstico preferido, otitemédiaaguda.

Paul desce as escadas, Adina salta do palco ao lado da escada. No auditório, entre as cadeiras vazias, ele percorre o mesmo caminho que Anna. Adina o segue.

 

Ela sente as costelas dele, sua jaqueta é fina. A rua tão escura que apenas o céu faz barulho porque não se vê as árvores. Sem carros, sem gente. O asfalto é frio e as solas dos sapatos, finas. O pescoço dela passa frio, mas o caminho existe, os sapatos batem. E as batidas se esgueiram até o rosto. O estádio fica ao lado da maçã do rosto de Paul. Quieto e alto. Uma montanha, como se lá, onde de noite a lua caminha, uma bola nunca pudesse voar de dia.

O hospital fecha o caminho com sua altura e comprimento escuros. Algumas janelas estão acesas, mas estão acesas para si, não lançam o brilho para a noite.

Olhe para isso, diz Paul. Um dia contei as janelas, cento e cinquenta e quatro. No verão, quatro se jogaram pela janela, não tem importância, não tem importância. Se não se jogarem, eles morrem na cama. Lá não se trata de uma canção, há meses não temos algodão, ataduras, usamos os restos de uma fábrica de meias.

Paul beija Adina, ele fica pendurado em sua boca. As mãos dele estão quentes, ela fecha os olhos e sente na barriga o membro duro. Ela tira a boca, pressiona a testa contra o pescoço dele. Fica parada com os sapatos entre os sapatos dele, no meio do cruzamento, onde de dia as ruas se cortam. O colarinho da camisa dele estala no ouvido dela. Mas os ouvidos dela estão longe da cabeça, estão lá atrás, onde os cães latem. E seus olhos estão lá em cima, onde a lua anda à procura de buracos nas nuvens.

Vá agora, diz Adina.

Em seguida, ela atravessa a rua com passos pequenos sobre o asfalto, mas não há nada. Apenas o estalar dos sapatos permanece denso e a testa quente, para que o caminho se sustente. No meio-fio ela vira a cabeça. Paul não se mexeu, está parado feito uma sombra. A mancha branca é sua cabeça. Paul está no cruzamento, olhando para ela.

Paul vai em direção às janelas iluminadas. O vento ergue seu cabelo, há um cheiro de terra molhada e grama recém-cortada.

Há uma floresta atrás do hospital. Não é floresta. Um viveiro, deixado à mercê do mato. Mais velho do que os fogões dos conjuntos residenciais na periferia da cidade, mais velho do que o hospital. Ainda é possível reconhecer as fileiras bem embaixo junto às raízes, junto aos poucos galhos retos. Mas, para o alto, agulhas e folhas se entrecruzam. Modificam-se diariamente. O que permaneceu igual durante os anos foi que árvore nenhuma combina com outra, que atrás do hospital cresce um matagal que não suporta qualquer rosto. Que os doentes dos andares do alto são os que mais claramente enxergam o matagal e são perturbados. Paul sabe que os doentes passam horas observando esse matagal com seu binóculo. E se tornam monossilábicos como guardas-florestais.

Essa observação começou com um guarda-florestal doente dos Cárpatos ocidentais e não parou mais. O guarda-florestal ficava no décimo andar. Um guarda-florestal da mesma floresta veio visitá-lo e lhe trouxe o binóculo. Para matar o tempo, ele disse. O guarda-florestal doente passou dias olhando a floresta com os homens do décimo andar. Até morrer. Quando o guarda-florestal da mesma floresta veio com a viúva e um caixão, ele levou a dentadura do morto, seus óculos, uma tesourinha de unhas e seu chapéu. Ele deixou o binóculo para os homens do hospital. E, aos poucos, todos os homens se tornam guardas-florestais doentes, cada vez mais, descendo até o terceiro andar, porque estão ligados a esse binóculo. Há listas que relacionam o décimo com o terceiro andar. Nas listas estão nomes, dias e horários. Elas mostram quando e por quanto tempo cada doente pode olhar a floresta com o binóculo.

Certa vez, Paul olhou a floresta com o binóculo. Ele queria saber o que os guardas-florestais doentes enxergavam. Ele conhece a floresta porque muitas vezes passeia entre essas árvores depois do trabalho. Mesmo assim, a imensa bola de agulhas e folhas atrás do binóculo assustou Paul. Também a folhagem desgrenhada que toma conta de tudo. Os galhos, que há muito reconheceram sua maneira de crescer. Pois o mato expulsa aquilo que se mantém dócil, corta-lhe a luz no alto e no chão. E os gramados atrás do binóculo ficam mais próximos do que quando o pé está dentro deles.

Os guardas-florestais doentes dizem que também se vê cachorros e gatos. E homens com mulheres, que copulam no meio do dia em locais escuros ou nas clareiras na semiescuridão da noite. E, pela manhã, crianças escondendo-se de outras crianças. E outras amassam folhas de grama. E, quando ninguém as procura, se esquecem do esconde-esconde.

Paul escuta essas crianças porque elas passam por cima das três fiadas de arame farpado para dentro do pátio dos fundos do hospital, até a ambulância enferrujada, sem janelas, à procura da dor.