A Raposa Já Era o Caçador

Herta Müller · Capítulo 16 de 33

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A Raposa Já Era o Caçador

Raposas caem na armadilha

 

O zelador anda para cima e para baixo diante do portão, seu sobretudo está pendurado nos ombros. O sol bate frio sobre seu rosto. Ele espera pelas bolsas, come sementes de girassol. Seu sobretudo se arrasta pelo chão.

Mara sai do galpão, ela trouxe três facas para David. Estão recém-amoladas. Com uma delas, David corta uma tira de toicinho pela metade e não limpa a lâmina gordurosa, para o zelador não perceber que ela foi recém-amolada, ele diz, guardando a faca na bolsa. As outras duas facas ficam na gaveta, uma levo amanhã e outra depois de amanhã, ele diz.

Eva enxágua os copos de água, seus dedos rincham no vidro molhado. O anão não tem de varrer o galpão hoje, diz Mara, ele será um dos primeiros na área das duchas, temos de nos apressar. Anca não abotoa seu sobretudo, apenas pendura a bolsa no ombro.

David abotoa seu sobretudo e pega sua bolsa.

David segue com sua faca gordurosa na bolsa até o portão. Mara, Eva e Clara passam pelos rolos de arame no pátio interno, um bando de pardais sai voando do arame. A janela do sótão está encostada em frente, sob o beiral do telhado.

Clara sente um nó na garganta, sua língua se ergue debaixo dos olhos. Ela sente ânsia de vômito, seu olhar perde o foco. Quando ergue a cabeça, a janela do sótão está alinhada no ar. Mara e Eva estão bem à frente no arame, entre os rolos, talvez já sobre os degraus da escada de ferro.

 

Os olhos das três mulheres estarão todas as tardes lá pelas quatro horas na janela do sótão por mais alguns dias, enquanto o sol cair rápido e frio sobre as escadas. Daí virão meses nos quais o sol não toca nessa escada. Opaco e pálido, ele passa girando pela parede sobre as escadas num círculo estreito demais. Daí o vapor no corredor da área das duchas será grosso e cego, nenhum olho consegue perfurá-lo. A curiosidade não diminui ainda, ela aumenta por mais alguns dias na cabeça, e por mais alguns dias as mulheres escalam os degraus. Elas esperam pela luz que não vem mais. Esperam em vão. Cada vez que os primeiros homens chegam à área das duchas, o sol já se esgueirou junto à parede. As mulheres se entreolham. Elas olham ao redor como se não tivessem mão. Daí, desistem. Mara fecha a janela do sótão sem fazer barulho e também cerra o pequeno fecho enferrujado. Ela permanecerá trancada por alguns meses.

São os meses nos quais as mulheres riem, todos os dias, à mesma hora. Um riso desenxabido de inverno vindo da lembrança, pois o vapor permanece cego até o começo do ano.

Clara se agacha, encosta a cabeça no arame e afasta bastante os pés um do outro no caminho enferrujado. Ela vomita toicinho e pão. Suas mãos estão frias, ela limpa a boca com o lenço, observa as cabeças de Eva e Mara, desfocadas, na janela do sótão, não vê os rostos. A gata tigrada senta-se duas vezes entre os sapatos de Clara. Ela come o vômito, também lambe o arame. Suas listras saem nadando de seu pelo.

Adina se encosta na acácia nua, os rolos de arame são mais altos do que a cerca da fábrica, fumaça sobe da chaminé da casa do zelador. Ela não se rasga sobre a rua quebrada. Ela sobe com sua lã cinzenta e cai de volta sobre o telhado. No vento, o vapor da fábrica de cerveja cheira a suor frio, a torre de refrigeração está cortada pelas nuvens.

Há duas semanas, a filha da empregada ganhou da mulher do oficial um sobretudo com gola de pele. É pelo de raposa. Vem com duas patas penduradas, dá para amarrá-las debaixo do queixo. As patas têm coxins e unhas marrons, brilhantes. O vapor da fábrica de cerveja cheira como a gola de raposa. Adina espirrou por causa do cheiro. E a filha da empregada disse que isso era naftalina. Se as peles de raposa não cheiram a naftalina, ela disse, aparece um pozinho no verão. Ele come o pelo. O pelo não cai dentro do armário. Ele fica como que colado, esperando que a pele seja pega nas mãos. Daí ele escorrega em pedaços grandes como se fosse queda de cabelo. A pessoa fica segurando uma pele nua nas mãos, uma cartilagem. A pele está recoberta com minúsculos grãozinhos de areia, fininhos. A filha da empregada sorriu e, usando os dedos, brincou com as patas da raposa da gola.

Clara vai até o portão. A zeladora segura a gata zebrada no colo, ela acaricia seu pelo zebrado. Sobre a mesa está a faca de David, o zelador percebeu que ela tinha sido recém-amolada na fábrica. O sobretudo do zelador escorrega do ombro, sua mão devolve rapidamente o lenço melado na bolsa de Clara. Um caminhão estrepita pelo portão em direção à rua, as rodas estrepitam, em cima e embaixo arame amontoado. O rosto do motorista balança no espelho retrovisor. Na frente aparece a cortina branca de vapor da fábrica de cerveja. Clara escuta seu nome através do estrepitar.

Adina anda através de uma nuvem de pó. Ela beija Clara debaixo do olho, suas mãos estão azuis por causa do vento gelado, seu nariz está úmido. Vamos logo para minha casa, ela diz, tenho de lhe mostrar uma coisa.

Clara se agacha e ergue o pelo de raposa, uma luz cinza cai através da janela. A mesa vazia brilha, escura. Na cozinha, diz Adina, está o pão que eu tenho de comer, o açúcar, a farinha. Clara passa a ponta do dedo pelo rabo da raposa, depois pelo lugar do corte na pata, eles podem me envenenar qualquer dia, diz Adina, Clara põe a pata no chão. Ela está sentada de sobretudo sobre a cama desfeita e observa a lacuna entre a barriga da raposa e a pata, o vazio do chão tem a largura de sua mão. O rabo está próximo da pele, como se tivesse crescido ali, não dá para ver o local do corte.

Os dedos de Clara surgem pontudos e finos das mangas do sobretudo, esmalte brilha nas pontas dos dedos, dedais vermelhos. Adina apoia a mão sobre a mesa, tira os sapatos dos pés. Quando Clara move a mão dá para ver os dedos pelo lado de dentro. Estão com ferrugem.

 

Eu não tinha nem dez anos, diz Adina, quando fui com minha mãe à vila vizinha comprar a raposa. Passamos sobre a ponte sem rio, usada às manhãs pelos trabalhadores para ir ao abatedouro. Naquela manhã, o céu não estava vermelho, estava pesado e revolto. Os homens não carregavam um pente vermelho sobre a ponte. Era pouco antes do Natal, gelo por todo o lado, nada de neve. Apenas farinha espalhada rodava no vento, nas depressões do campo. Não dormi a noite inteira tamanha minha impaciência. Desejava a raposa havia tanto tempo que a alegria de recebê-la no dia seguinte era metade medo. A manhã estava tão gelada que não havia nenhuma ovelha do lado de fora, no campo. E, caminhando, pensei, onde não há ovelha sobre o campo também não há vilarejo. Embora o campo fosse muito plano, com alguns arbustos retorcidos, achei que tínhamos nos perdido. Pois de todos os lados o céu vinha em nossa direção. Como o céu descia até o lenço de cabeça de minha mãe, fiquei com medo de estarmos perdidas. Eu andava e andava e não me cansava. Talvez sonolenta, pois senti uma cosquinha cansada na testa, mas o cansaço me incentivava. As ruas estavam vazias quando chegamos ao vilarejo. Havia árvores de Natal em todas as janelas. Seus galhos estavam tão próximos dos vidros que era possível ver cada uma das folhas, como se elas fossem para os passantes do lado de fora e não para as pessoas das casas. Como ninguém passava, elas eram para minha mãe e eu. Minha mãe não percebeu isso. Carreguei sozinha as árvores de uma janela a outra.

Então, paramos. Minha mãe bateu numa janela. Ainda me lembro, não havia árvore de Natal nessa janela. Fomos ao quintal. De tantas peles de raposa, não enxergávamos as paredes no longo corredor aberto.

Depois chegamos num quarto. Havia uma estufa de ferro fundido e uma cama, nenhuma cadeira. O caçador veio de fora e trouxe essa raposa. Ele disse, é a maior. Ele pendurou a raposa sobre os dois punhos, as patas pendiam para baixo, ele mexeu os braços. As patas balançaram como se estivessem correndo. E, atrás das patas, o rabo é como de outro animal, menor. E eu perguntei, posso ver a espingarda? O caçador pôs a raposa sobre a mesa e alisou seu pelo. Ele disse, não se atira em raposas, as raposas caem em armadilhas. Seu cabelo e sua barba e os pelos de suas mãos eram vermelhos como a raposa. Seu rosto também. Naquele tempo a raposa já era o caçador.

Clara tira o sobretudo e sai do quarto. Ela passa mal no banheiro, vomita. Adina vê o sobretudo sobre a cama, está disposto como se houvesse um braço dentro, como se tocasse uma mão sob a coberta. A água escorre no banheiro.

Clara volta ao quarto com a blusa aberta, senta-se rapidamente no sobretudo, estou enjoada, ela diz, vomitei. Sua bolsa está sobre o travesseiro. Sua boca está entreaberta, sua língua, seca e branca como um pedaço de pão dentro da boca.

Você está com medo, diz Adina, você está parecendo a morte. E Clara se assusta, seu olhar é direto e cortante. Clara enxerga um rosto que foi embora. Ele está desfigurado, as maçãs do rosto sozinhas e os lábios sozinhos, sem vida e ávidos ao mesmo tempo. Um rosto igualmente vazio, de lado e de frente, como um quadro sem nada pintado.

No rosto vazio, Clara procura uma criança que caminha ao lado de uma mulher e, apesar disso, está sozinha, porque carrega árvores na cabeça de uma casa até a outra. Uma criança como aquela na sua barriga, ela pensa, tão sozinha como uma criança ignorada por todos.

Adina quer ser o caçador, pensa Clara.

Você tem mais medo do que eu, diz Adina. Não olhe, não olhe mais para a raposa.

Os olhos de Clara estão revirados, vasinhos vermelhos à sombra da base do nariz. Ela mira desatenta o quadro na parede, os sapatos grosseiros no gramado, o uniforme do soldado, a folha de grama na boca de Ilije. Você não pode contar para Ilije, diz Clara, ele não vai aguentar.