A Raposa Já Era o Caçador

Herta Müller · Capítulo 20 de 33

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A Raposa Já Era o Caçador

O beijo voador

 

Adina veste a meia-calça, suas pernas não estão dentro da meia-calça. Ela veste o sobretudo, seus braços não estão dentro do sobretudo. Apenas a camisola fica pendurada para fora do sobretudo. Ela mete a camisola dentro da meia-calça. A chave, o dinheiro, a lanterna estão no bolso do sobretudo. Na cozinha, o sol se encontra sobre a mesa, debaixo da mesa ficou sujeira de seus sapatos, na parede o relógio faz tique-taque e escuta a si mesmo. Logo é meio-dia. Adina escorrega os pés para dentro dos sapatos, seus dedos não estão nos sapatos, eles estão no relógio. Adina sai da cozinha na ponta dos pés, antes de os dois ponteiros se encontrarem na metade da cabeça do dia, onde é meio-dia. A porta se abre, a porta bate.

A respiração de Adina caminha na sua frente, ela tenta segurá-la com a mão, mas não a alcança mais. Há uma lata de lixo do lado da calçada. Uma velha com uma bengala e um saco de pano está encostada na lata de lixo. Ele está pela metade. A bengala arranha o asfalto, tem um prego na extremidade inferior. Ela curva a cabeça e a bengala para dentro da lata de lixo, espeta pão seco com o prego.

A esquina é de vidro de janelas. Por trás, há um homem sentado debaixo de um pano branco. O homem é jovem e magro, o saco de seu cabelo não ficará pesado quando ele morrer, pensa Adina, não mais pesado do que o saco cheio de pão. A tesoura abre e fecha, pontas curtas de cabelo caem sobre o pano. O barbeiro corta e conversa. Ele prolonga o tempo para além do inverno, assim como Adina prolonga o caminho de casa, porque a raposa está se remexendo debaixo da mesa, porque há uma árvore aqui no meio do asfalto diante da janela, onde o cabelo é cortado, e porque a árvore está pelada.

 

O segundo ônibus comprime seu acordeão preto. As dobras abrem e fecham. Os chifres procuram pelo caminho, o motorista come uma maçã. Um homem se levanta antes de a escada estar imóvel. As pernas de sua calça tremulam, seus sapatos brilham. Ele usa uma jaqueta corta-vento. O acordeão estridula, troncos de árvores passam pelos vidros, sobretudos caminham devagar e o andar de ônibus pressiona-se para cima contra o vidro. Apenas o caixão, que está preso com cordas ao teto de um carro vermelho, carrega consigo o ônibus por um tempo. Pois o caminho mantém os troncos das árvores à distância, empurra o caixão para cima de tudo, através do acordeão, de um vidro para o outro. Depois são blocos habitacionais que passam, cujas calçadas já são parede. O caixão passa pela janela mais ao fundo e o homem com a jaqueta corta-vento belisca o traseiro de Adina. Ela está em pé nas escadas, ela o empurra, ela tropeça, a porta bate, pó se levanta.

O rosto do homem continua andando de ônibus. Ele lhe mostra o punho junto à janela, ele abre os dedos e lhe joga um beijo voador.

A raposa não está se remexendo debaixo da mesa. O pelo está inteiro no chão diante do armário. Adina põe a chave sobre a mesa. Ela está no quarto, mas o quarto está apenas para si. As patas traseiras e o rabo estão tão próximos do pelo que não dá para ver o corte. A ponta do pé de Adina afasta a pata traseira esquerda, afasta a pata traseira direita, afasta o rabo. A pata dianteira direita traz consigo a barriga e a cabeça, ela está crescida ali. A pata dianteira esquerda deixa a barriga e a cabeça paradas. Ela foi cortada. A cama está desfeita.

A cozinha, as maçãs, o pão.

Adina está no banheiro e o banheiro está a sós consigo. Há um toco de cigarro nadando dentro do vaso sanitário. Na água faz horas, está estufado e rasgado.

Adina põe a nota de dinheiro e a lanterna sobre a mesa. Ela tira o sobretudo e a meia-calça. Ela se deita na cama. Os dedos de seus pés estão gelados, a camisola, a cama estão geladas. Seus olhos estão gelados. Ela escuta o coração batendo sobre o travesseiro. Ela gira a mesa nos olhos, a nota de dinheiro, a lanterna, a cadeira. O despertador faz tique-taque até a luz sumir na janela.

Algo toca, não é o despertador. Adina encontra os dedos do pé e o chá ao lado da cama. Ela acende a luz, ela abre a porta. Um quadrado claro pousa sobre a escada, ela sorri e oferece o rosto. A boca de Paul está fria. Ele segura um galho nu nas mãos, vai virar sabugueiro, ele diz. Com o galho na mão, ela estica o indicador, aponta com a extremidade do galho para a raposa. Ele ergue em sequência as patas cortadas, desde hoje são três, ela diz, olha para ele e tira o cachecol do pescoço dele. A nuca dele está raspada, estive no barbeiro, ele diz.

Ela põe o cachecol sobre a cama. Em todos os quartos em que vivi até hoje, a raposa ficava diante do armário, até no abrigo dos estudantes, onde o quarto era apertado, ela diz, éramos quatro. Havia um gato no abrigo, ele era gordo e quase cego, não pegava mais os ratos. Ele passeava por todos os quartos, das escadas da frente até atrás na direção do corredor. Farejava os pedaços de toicinho e os comia. Nunca entrava no nosso quarto, tinha farejado a raposa.

Ela enfia a ponta nua do galho na boca, não olhe assim, ele diz, senão não vai virar sabugueiro. Ela vai até a cozinha, o vaso ficou com uma borda marrom por causa dos últimos crisântemos. Ontem vi Clara no hospital, ele diz, ela cheira o galho, Clara estava esperando no setor dos abortos, ele diz, a torneira aberta faz barulho, ele está parado junto à porta da cozinha, há bolhas na água, ela enche o vaso até a borda marrom. Ela passa ao seu lado com o vaso, ele a segue.

Mais uma pata, diz Paul, a gente enlouquece com uma raposa dessas. Ele põe o galho na água, não é preciso binóculo, isso é uma raposa, diz ele, entre cama e cadeira estamos no meio da floresta, o galho nu faz uma sombra nua sobre o rosto dele. O binóculo, ele diz, estava hoje de manhã com o porteiro. Ele não estava olhando para trás, observando a floresta, ele estava olhando para a frente, observando a entrada. Quando me coloquei na frente dele, ele não abaixou o binóculo, ele me encarou e disse, meu senhor, seu olho é do tamanho de uma porta. A sombra nua no rosto de Paul poderia ser uma ruga. Depois veio um homem, ele diz, que deu dinheiro ao porteiro porque hoje não era dia de visitas. O porteiro deixou o homem olhar pelo binóculo, eu tirei meu sobretudo e coloquei o avental branco sobre o braço. Paul pousou os dedos sobre as pontas dos dedos de Adina, como dizemos para um homem, ele perguntou, que dá dinheiro ao porteiro e pela manhã já está subindo as escadas com um pão fresco na sacola, que sua mulher morreu há uma noite durante a queda de energia? Ele puxa Adina para si, andamos devagar, ele diz, porque o pão fresco está cheirando, ela sente como o queixo dele se movimenta na cabeça dela, dentro da orelha dele há tufos de cabelo. Torcemos por esse homem, ele diz, para que a ampliação do binóculo tenha esvaziado o susto durante todo um dia. Ela puxa as pernas para debaixo da camisola e põe os pés sobre seu joelho. Torcemos em vão, ele diz, pois ouvimos nos passos desse homem que em poucos minutos ele vai perder a razão.

Adina segura o rosto nas mãos. Ela enxerga, pelo meio dos dedos, como os galhos são claros, como a haste fica escura na água.

Paul acende e apaga a lanterna. Ele pega a nota de dinheiro de cima da mesa, você queria ter me dado isso pela manhã, ele diz, e a alisa com a mão. Há um rosto estampado nela, sujo, amassado e mole. Ele fura com a ponta do galho mais longo um buraco no rosto, ele espeta a nota de dinheiro no galho nu. Mais uma pata, ele diz, e depois?