A Raposa Já Era o Caçador
A pinta
A escuridão está trancada na escadaria, ela cheira a repolho cozido. Ela não encontra a corrente de ar, embora a porta do bloco residencial esteja aberta. Ela está presa, com as pernas pesadas, nos primeiros degraus. Tão pesadas que até o círculo pálido da lanterna fica preso no corrimão e salta até a parede em silêncio. Os sapatos fazem barulho na cabeça. Há uma câmara de secagem no primeiro andar, uma mancheia de luz vem de fora e cai sobre fraldas brancas. A lixeira ao lado é cinza, como uma manga de tecido. No segundo andar, há um gerânio pelado num balde de plástico. Ele cheira a terra embolorada e repolho cozido. Adina não quer encostar nele, ela vai para o lado do corrimão. No terceiro andar, os sapatos estalam. Pernas de calça vêm descendo a escada, uma camisa reluz. Adina segura a lanterna mais para cima. O círculo pálido salta sobre o ombro do homem. Seu meio rosto, seu olho, seu ouvido, a ponta do colarinho branco. Entre o colarinho e a orelha, uma pinta está iluminada. O canto de seu nariz, o círculo da lanterna dobrou-se em seu queixo.
Ambas as nozes, pensa Adina, e esse homem, que amassa uma noz na outra em sua mão, e como você se chama?, uma voz perguntou, ele já desceu até o segundo andar, ele vai embora e fica preso na cabeça de Adina. Era verão, e o que vamos fazer agora?, ele perguntou. E ele contou a piada do romeno baixinho. Sua pinta pulsava na carótida, Abi disse.
No quarto andar, a campainha toca, Adina tira o indicador, a campainha silencia, sei o que eu sei, Clara disse, e a porta estala e o cabelo de Clara aparece revolto na porta.
Em seguida, Adina aperta a porta contra o rosto de Clara e seu cabelo dá um passo para trás, fica atrás da porta aberta. Como se o cabelo fosse da porta, Adina passa, segue em frente até o corredor. A porta da cozinha está aberta, recende a café.
Duas xícaras sobre a bandeja, duas colheres, grãos de açúcar espalhados sobre o criado-mudo. A cama está desfeita, o padrão adamascado no travesseiro, como sussurros exalados pela boca.
Ele esteve com você, diz Adina, o homem, agorinha na escadaria, era Pavel. Clara ergue o cabelo, sim, ela diz, sua orelha está em brasa junto ao rosto debaixo de seus dedos finos, o cabelo se anela, revolto, ao redor de seus olhos, vocês se veem tão raramente e raramente é todo o dia. Sua respiração espanta qualquer palavra, eu sei por que você o esconde, ela diz, não minta para mim, seu advogado trabalha no serviço secreto. Há uma toalha sob o braço de Clara na cadeira, e seus dedos finos abotoam a blusa, os botões redondos e brancos, você mente mesmo quando você não fala nada, diz Adina. Há cravos vermelhos inchados no vaso, seus cabos se tocam, ao redor das folhas a água está turva.
Eu não seria capaz de fazer nada que pudesse prejudicar você, diz Clara, ele também não. Sobre a máquina de costura há uma meia-calça, Adina segura o queixo com a mão e vai até a cozinha.
Clara está encostada na geladeira, põe o indicador sobre a boca, Pavel é uma boa pessoa, ela diz com os lábios fechados. O bule de café está torto sobre a grelha, o fogão está todo respingado, Pavel prometeu, diz Clara, ele sabe que eu só posso amá-lo se não acontecer nada com você. O pano de prato está amarrotado sobre a mesa. E a raposa?, pergunta Adina, ele disse a você por que eles retalham a raposa? Ele come você por encomenda, ele nos queria a nós duas, diz ela, uma no verão, outra no inverno. Quando acorda, sua cabeça tem dois desejos que são como dois olhos — para os homens, seu punho se endurece; para as mulheres, é o seu pau.
Uma saia de seda está pendurada do lado de fora do bloco habitacional, ela é vermelha em cima e seca, embaixo está preta da água e o cós não para de pingar. E os outros?, pergunta Adina, seu bom homem, ele também prometeu protegê-los? Clara pressiona os lábios, seu olhar passa muito reto bem ao lado de Adina e atravessa o vidro da janela, você não o conhece, ela diz, aperta o cabelo na cabeça com a mão.
Você se deita com alguém assim, diz Adina. O açucareiro está aberto, o açúcar está duro feito pedra na mancha marrom de café. O vento sopra lá fora, na árvore, mas você não o conhece, diz Clara, a bola verde murcha está presa na forquilha do galho. Não conheço você, diz Adina, a bola verde murcha tolera a passagem de um segundo inverno, aquela que eu conheço não é você, ela diz, pensei que eu a conhecia. Os dedos dos pés de Clara estão encolhidos. Quadradinhos azuis no joelho, o frio dos azulejos sobe até a barriga, você se deita com um criminoso, Adina grita, você é como ele, você o carrega no rosto, você escutou?, você é como ele. Clara aquece um pé no outro, não quero mais ver você, Adina grita, nunca mais. Suas mãos se debatem, seus olhos estão arregalados, seu olhar é o caçador, salta dos olhos e acerta. O que a boca molhada grita é brasa sobre a língua. Sua raiva é ódio, e tão escura quanto seu sobretudo.
Fique aqui, diz Clara. Adina solta os dedos magros que tentam agarrá-la pelo sobretudo, solta sua manga. Não encoste em mim, ela grita, não consigo ver suas mãos. O cabelo de Clara fica na porta da cozinha. O corredor não permite nenhum passo aos dedos do pé. A porta bate.
A escada sobe junto à parede, a lanterna lança a luz para longe. No terceiro, no segundo andar, Adina se guia pelo corrimão. A lixeira faz barulho, ela escuta algo caindo pelo cano, algo cair na cabeça. Dois lances mais para baixo, vidro se quebra.
Do lado de fora sob a árvore, quando se ergue o queixo e olha para cima, a bola verde murcha na forquilha da árvore é tão pequena e escura como se nada existisse lá em cima a não ser outro olho. Sobretudos passam; esses sobretudos envolvem novembro em vez das pessoas. Ele é tão melancólico e velho em sua segunda semana que a noite já chega pela manhã.
Minha mãe foi desde sempre minha avó, disse Clara, não por causa dos anos, mas apenas pela maneira como ela lidava com os anos. Quando ela começou a envelhecer, disse Clara, eu ainda era criança. Ela me abraçava apertado e dizia à minha orelha, onde você está, minha filha, onde você está tão longe? Quando ela começou a ficar velha, seu marido começou a ficar jovem, disse Clara, ao seu lado ele ficava cada vez mais jovem. Como se ele a tivesse espreitado, poupado a própria pele às suas custas. Como se minha mãe tivesse se encarquilhado também para ele. Não quero ficar assim, disse Clara, não devemos ser assim. Então ele se apressou. O que era a força dele junto dela se tornou a fraqueza dele. Num dos verões da cidade, ele parecia estar vivendo o seu primeiro. Ele não conseguiu se aprumar sem ela nesse primeiro verão e seguiu-a em sua morte.
A porta do estádio está aberta. Policiais e cães esperam no estacionamento. Homens se apertam pelo portão para sair, eles cantam e gritam. À luz do estádio, a bola romena voava contra os dinamarqueses. O jogo de futebol foi vencido. Da trincheira do estádio ergue-se luz ao céu como se a lua tivesse se enganado. Esses dinamarqueses não são de nada, as mãos dos homens carregam a bandeira tricolor, três riscas distintas. Os retalhos vermelhos famintos, amarelos mudos, azuis vigiados no país recortado. Os dinamarqueses não são de nada, os lábios dos homens falam do mundo e do campeonato mundial, suas canções sobem garganta acima como o mato na trincheira do estádio. O que os dinamarqueses querem aqui?, o corredor fundista se mantém indiferente. Quando a alegria se agita, ele está sozinho consigo mesmo. Pois ele é um estranho.
Acorde, romeno, de seu sono eterno, canta um velho. A canção é proibida, ele se posta no meio-fio, enxerga o focinho de um cão e os sapatos de um policial, cantando se afasta do medo, ergue o queixo muito alto. Sua mão segura o gorro de pele. Ele o arranca da cabeça, ele o agita, ele o joga no chão e pisa com os sapatos. E pisoteia e pisoteia e canta para ouvir as solas de seus sapatos na canção. E a canção é proibida e a canção cheira a bebida. As bandeiras, no alto, se misturam; embaixo, as cabeças dos homens estão bêbadas, os sapatos, confusos. As bandeiras seguem com os homens na rua do outro lado, para dentro da noite.
A voz do velho cessa. Meu Deus, diz ele junto à acácia pelada, o que poderíamos nos tornar no mundo, mas não temos pão para comer. Um policial vai até ele com um cão, e mais um policial. Ele ergue os braços e grita para o céu, Deus nos perdoe por sermos romenos. Seus olhos brilham na luz fraca, o brilho se apressa de soslaio. O cachorro uiva e pula no seu pescoço. Dois, três, cinco policiais o levam embora, carregado.
O estacionamento se levanta e se abaixa, com ele a acácia pelada. A rua joga seus passos sobre o rosto dele. O estacionamento está na cabeça. O céu embaixo é o Danúbio, o asfalto no alto é a noite. No olhar emborcado, lá debaixo da trincheira, no alto junto ao céu, no país recortado, uma luz branca envolve a cidade.
A cabeça do velho está pendurada bem para baixo.