A Raposa Já Era o Caçador
Outro silêncio
Onde estão os rolamentos?, pergunta o diretor. Uma traça marrom sai voando do colarinho de sua camisa, bate as asas até a janela. Ela vai até o pátio atrás da janela, não é maior do que uma mosca. Mara diz, os rolamentos estão encomendados. Sapatos fazem barulho atrás do gerânio, atrás da cortina diante da janela do diretor. Cabelo castanho transita. O vaso de gerânio surge nas pontas do cabelo entre um passo e outro. Ele não balança suas flores vermelhas, mantém suas folhas inertes no cabelo dentro do pátio encalacrado da fábrica, na ferrugem corrosiva, no arame. O diretor não enxerga a cabeça daquele que passa, somente as pontas dos cabelos. E a traça no vidro; onde estão os rolamentos, já que estão encomendados?, ele pergunta. Ele se aproxima tanto do vidro que a cortina toca sua testa e os gerânios tocam seu queixo. Tanto que a traça perde o rumo, passa voando pelas suas têmporas raspadas até a mesa de reunião. Os rolamentos estão a caminho, camarada diretor, diz Mara.
Ele tinha contado com a traça. Ele puxa a cabeça rapidamente para trás, depois olha para o arame do lado de fora, por costume. Ele não tinha contado com os saltos, que sobre o asfalto são tão duros e altos como tijolos quebrados. Ele não tinha contado com os sapatos do anão, que fazem barulho, como se a cabeça fosse a cabeça de um anão só porque os saltos são altos demais. E ele não contou com as pernas curtas, que não se curvam ao caminhar. E com as costas, que se mantêm tão eretas como se um arame novo tivesse sido costurado lá dentro.
Esses sapatos, essas pernas, essas costas atrapalham o olhar que quer permanecer vazio. E, mesmo com o passar dos anos na fábrica, nenhum olho enxerga o anão sem sentir a si mesmo nessa hora. Sem atrapalhar o próprio caminho.
O diretor encolhe a nuca. O barulho atrás do anão, o costume quebrado é como passar frio.
Um anão e mesmo assim ele deu um jeito na vida, diz um. Outro em seu lugar iria mendigar à beira da estrada. Ele aponta para o retrato do ditador que está uma vez ampliado na parede e está outra vez sobre a escrivaninha, reduzido. Ele aponta para o pequeno retrato em pé. Mas ambos os retratos olham um para o outro, a pupila no olho. Entre a parede e a mesa, diante da cortina branca, o retrato pendurado encontra o retrato em pé. Todos que vêm de sua região, diz o diretor, têm uma vontade férrea.
Ele está se referindo ao sul, onde o Danúbio corta o país. Onde a planície é baixa, os verões esturricam entre o milho crescendo duro feito pedra, os invernos congelam entre o milho esquecido duro feito pedra. Onde travesseiros de cardos murchos são levados pela água. Onde as pessoas contam os travesseiros de cardos e sabem que todos que são baleados durante a fuga têm por três dias um travesseiro sobre as ondas e por três noites um brilho sob as ondas, como velas. As pessoas no sul conhecem o número dos mortos. Elas não conhecem os nomes dos mortos nem seus rostos.
Escreva uma advertência, diz o diretor. Os rolamentos estão a caminho, diz Mara. Ele agita o pescoço na camisa, seu colarinho pinica. Às vezes, diz o diretor, batem à porta. Não forte, mal escuto. E, quando abro a porta, não há ninguém se eu não olhar rapidamente para baixo. O supervisor mandou o anão falar comigo, o anão segura uma folha de papel e não diz nada. E vai embora ainda antes que eu consiga falar alguma coisa. E o anão se vai. E eu não o chamo de volta, pois me esqueci de seu nome. Afinal, não posso chamar: Ei, anão. Mara dá um sorriso débil, Mara, você tem pernas bonitas, diz ele. O gerânio balança. Ele se ajoelha sobre o tapete. Sua voz é grave debaixo da saia de Mara. As mãos dele são duras. As coxas dela são quentes. Os dentes dele estão alinhados um a um e molhados e pontudos sobre a coxa direita dela. E o retrato sobre a mesa, a pupila do olho, observa. E perde o foco. Ou é a traça no ar, a uma mão de distância dos olhos de Mara. Ai, isso dói, camarada diretor, ela diz.
O diretor vai toda semana até o portão, disse a zeladora para Clara. Ele não vem à portaria, ele não passa pela soleira. Ele só mete a cabeça porta adentro e logo a recolhe novamente. Ele olha para o arame e pergunta, qual é o nome do anão? O zelador também olha para o arame porque os olhos do diretor atraem os seus e porque o zelador acha que o diretor está com a cabeça inteira nesse arame. Pois quem olha para esse arame olha com a cabeça inteira, não escuta mais. Exceto o zelador e eu, disse a zeladora, ambos olhamos para o arame e não o vemos mais. O zelador diz a cada vez: camarada diretor, o anão se chama constantin. Ele fala tão alto que eu escuto, mesmo que o zelador e o diretor estejam no pátio, disse a zeladora. E a cada vez que está no pátio, uma traça sai voando do colarinho do diretor. E o diretor diz a cada vez, quero guardar o nome, mas logo o esqueço. Lembro-me de tudo, mas me esqueço logo do nome do anão. Em seguida, o zelador diz, o anão é o diabo, senão não seria anão. Quando jovem, o diretor dirigiu uma fábrica de chapéus, ficava atrás dos Cárpatos, disse a zeladora. É de lá que vêm as traças. Desde então, ele dirigiu a companhia de água e esgotos no sul e a companhia de desenvolvimento da habitação aqui na cidade. Mas ele não se livra mais das traças da fábrica de chapéus. O diretor tira um pedaço de papel do bolso e uma caneta. Ele anota o nome. Ele escreve o nome com letras grandes sobre todo o papel, que está sobre sua mão, disse a zeladora. Quando o diretor guarda o papel e a caneta, ele diz, agora eu sei. E a traça avança voando pátio adentro e se perde em meio ao arame. E uma semana mais tarde o diretor mete novamente a cabeça porta adentro e pergunta de novo, qual é o nome do anão?, quero guardar o seu nome, mas eu o esqueço logo. E ele tira o mesmo papel do mesmo bolso e a mesma traça sai voando de seu colarinho e ele anota o mesmo nome mais uma vez. E a traça avança voando pátio adentro, no meio do arame.
Certa vez o diretor me falou, disse a zeladora, acontece com o papel o mesmo que com o nome do anão, ele se perde sozinho.
Todos na fábrica sabem qual é o nome do anão porque o nome não combina com ele, diz a zeladora. Apenas o diretor não sabe. A cada vez ele se espanta que o anão se chame constantin, e a cada vez ele diz que o nome não combina com o anão. Por isso sei que o nome constantin não combina com o anão, não tinha percebido antes. O diretor percebe isso todas as vezes, ela disse. O diretor deveria se lembrar do nome porque percebeu que o nome constantin não combina com o anão.
Meu filho também se chama constantin, disse a zeladora a Clara, mas eu nunca ligaria o nome do meu filho ao nome de um anão, porque meu filho não é anão. E porque o mesmo nome num anão deixa de ser o mesmo nome. Proibi meu filho de me procurar na fábrica, disse a zeladora. Nunca deixarei meu filho entrar nesse arame. Pois eu sei que, na primeira vez em que meu filho olhar para esse arame, ele não vai mais me obedecer. Nunca vou deixar meu filho se empregar nesta fábrica, ela disse, nem um único dia.
O diretor se ajoelha sobre o tapete diante dos joelhos fugidios de Mara. Ele enxerga as pernas da mesa de reunião. Ele respira mais profundamente do que seus pulmões, ele atropela sua respiração. Nessa hora, sente sua testa tão salgada e molhada como se a boca aparecesse duas vezes no rosto, e da segunda vez quente e perdida, onde a testa alcança o cabelo.
A gata tigrada está sentada sob a mesa de reunião. Ela tem um rosto de pelúcia, boceja. O sono lhe escorre pelas listras escuras, pelas costas, pela barriga, até as patas. Seu nariz é preto do óleo de máquina, achatado e velho. Mas seus dentes são afiados, brancos e jovens. E seus olhos são alertas no rosto de pelúcia de listras finas. Há uma imagem nos seus olhos, as coxas de Mara até o joelho. Do lado de dentro da coxa, grande como uma boca, aparece uma mordida.
O diretor se levanta. A traça está sobre o encosto da cadeira. O diretor fica diante do espelho. Ele não sabe o motivo, mas se penteia.
No galpão, sobre o chão gorduroso, há um operário deitado. Seus olhos estão semicerrados, as pupilas escorregaram para a testa. Ao lado da prensa há uma poça de sangue. Ela não escorre, o óleo a absorve. A gata tigrada cheira a poça. Seus bigodes tremem e ela não lambe. Debaixo da manga gordurosa do operário surge um punho sem mão. A mão está dentro da prensa. O supervisor amarra a manga com um pano sujo.
O anão segura a cabeça do acidentado. A cabeça está quente e inconsciente em suas mãos. E o anão não movimenta as mãos. Pois o cabelo da cabeça parece morto, e debaixo do cabelo, a nuca, e debaixo do crânio, o cérebro. Debaixo das pupilas reviradas, o globo ocular entre as pálpebras se parece como a borda de uma xícara branca. Debaixo dos olhos há uma ruga. E o anão observa a ruga durante tanto tempo até ela dividir o rosto inconsciente. E o rosto da gata e o seu próprio rosto. Pois aquilo que é sentido como morto em suas mãos lhe sobe à garganta quando não o movimenta. A gata fareja suas mãos, depois o queixo inerte. As extremidades dos bigodes da gata estão vermelhas. Seus olhos, porém, permanecem tranquilos e grandes, não espatifam a imagem da coxa de Mara e a mordida do tamanho da boca.
Em seguida, alguém diz, o diretor está chegando. Em seguida, chegam Grigore e um homem. E o homem pergunta o nome do acidentado. E ninguém conhece o estranho; as mãos dele são limpas e ele não trabalha na fábrica. E o supervisor diz crizu.
E o estranho enxota a gata com um chute e Grigore enxota o anão aos gritos. E o anão mete as mãos vazias nos bolsos. Fica parado lá onde o acidentado estava deitado, no meio do seu próprio caminho, e olha. E os outros operários ficam em volta. E ficam no meio do caminho de Grigore e do estranho e olham. Em seguida, Grigore e o estranho carregam o inconsciente até o final do galpão, para o vestiário. Seu corpo está mole e pesado. E seu avental está pendurado, semiaberto e estufado para baixo.
Em seguida, o diretor chega ao galpão pela porta aberta, anda em linha reta pelo chão escorregadio, como sobre uma corda, até o vestiário. Enquanto anda, grita, não fiquem parados, voltem ao trabalho. E uma traça sai voando de seu colarinho. Voa e se perde nas janelas, onde as acácias seguram a luz porque em seus troncos, embaixo, já nascem galhos finos e folhas erráticas. E o diretor tranca por dentro a porta do vestiário.
E o estranho segura a cabeça do acidentado. E Grigore abre-lhe a boca. E o diretor pega do casaco uma garrafa que é chata e cabe em sua mão e entorna aguardente na boca aberta. E ele lava as mãos e aperta a maçaneta e abre a porta do vestiário com o pé. O diretor sai do galpão com o estranho pelo caminho gosmento mais curto, até o pátio, junto ao arame.
Grigore caminha atrás dele. E fica parado na porta e chuta o anão. E diz, voltando ao galpão, Crizu está bêbado desde hoje cedo, Crizu está bêbado no trabalho.
O anão se encosta na porta e olha para o arame e come uma pera. Seus olhos estão vazios, sua cabeça é grande. Sua boca diz baixo, Crizu não bebe. E o sumo pinga de sua boca. E o sol enrola uma nuvem transparente ao redor da própria barriga. O anão morde fundo na pera e mastiga. Mastiga a casca, a parte carnuda, as sementes. Seus dedos estão grudentos; os sapatos, salpicados. Suas bochechas estão cheias de pera mastigada. Cheias até debaixo dos olhos.
Não importa, não importa, diz alguém em voz alta no galpão. Carrega sua cabeça ao longo da janela e diz, não dá para fazer nada.
Aquele que diz isso carrega a desgraça pendurada na boca, assim como as folhas estão penduradas na árvore diante da janela. Verdes no verão ou amarelas no outono, a desgraça é um galho em seu rosto. A cor existe, apenas as folhas é que não. Pois a desgraça é nua, sempre pelada, como a madeira de inverno mais tarde do lado de fora. Tem de afastar a vida nua do olho. Tem de afastar o falatório nu da boca antes de um pensamento aparecer na cabeça. Tem de fazer silêncio e não se queixar. E o anão tem de comer e não engolir. E Crizu tem de engolir e ele não bebe.
Mas quando o médico chega, quando sente o cheiro do álcool, Crizu já perdeu seu direito, inconsciente e bêbado.
Em seguida, um bando de pardais passa flamejando feito um guarda-chuva pelo pátio. Um pássaro se solta e se senta sobre o arame e depois no chão. Ele saltita até suas penas se dividirem por igual e suas asas serem somente penas. Em seguida, o pássaro atravessa a porta até o galpão. E atravessa o galpão em linha reta sobre o chão escorregadio, como sobre uma corda. Os operários observam-no. E ninguém diz nada.
Apenas o supervisor está ao lado da prensa e se agacha. Ele olha para outro silêncio, ele procura a mão esmigalhada.
E o anão está em pé sobre uma telha quebrada no pátio e mastiga uma pera no vazio.
Anca guarda todos os lápis na lata vazia de Coca-Cola. Ela tira o pó da lata vazia de cerveja. E Maria guarda todas as esferográficas na lata vazia de cerveja. E Eva rega a trepadeira de manchas brancas e pendura suas folhas de manchas brancas ao redor da moldura da foto na parede. A foto mostra uma papoula florida. E David pega um lápis da lata de Coca-Cola. E Anca diz que a trepadeira de manchas brancas se chama língua de sogra. E David abre a revista com as palavras cruzadas. E Clara pousa o pequeno pincel sobre a escrivaninha e assopra as unhas recém-pintadas. E David diz, sensação depois de comer com quatro letras. E Anca diz Übel [indisposição]. E Eva diz voll [cheio]. E Mara diz satt [satisfeito].
Em seguida a porta se abre e Grigore está na sala. E pela terceira vez Mara põe a perna sobre a cadeira e ergue a saia e mostra a coxa também para Grigore. E Grigore toca o joelho de Mara e olha o pescoço dela, lá onde a correntinha de ouro de Mara está balançando. Um dia maluco, diz Mara, o diretor me mordeu.