A Raposa Já Era o Caçador
Quando está frio não consigo olhar para a água
Sei o que eu sei, diz Clara em voz alta, o bonde resfolega, passa perto da chapada, Ilije é sensível, ela diz, a ponte treme, as árvores se amontoam no parque. Eu sabia, ela diz em voz baixa, que ele não suportaria a raposa, as unhas vermelhas mergulham primeiro no cabelo e só emergem de novo depois de uma mão branca curvada. Eu também sei que ele não fugirá, ela diz. E o cabelo dela voa e se arma ao vento feito um leque sobre sua testa. Disso você não sabe, diz Adina, como você poderia saber? Ela olha para o rosto de Clara, os cantos dos olhos agudos e com um traço preto.
Sem pescador, o rio é fio d’água na cidade, apenas sua bile podre permeia a superfície e o fundo, dá para cheirá-la.
Os sapatos de Clara batem sobre as placas de pedra. Adina fica parada e Clara, sem perceber, dá mais três passos, continua andando bem no meio da placa de pedra. Venha, ela diz, quando está frio não consigo olhar para a água. Em seguida, ela para; em seguida seu cabelo, na água, parece escuro como grama de rio. Ficamos nuas de frio, diz Adina. Clara a puxa pelo braço, estou tonteando, ela diz. Depois ela se afasta da água, dá alguns passos caminho adentro. Adina joga uma folha murcha dentro d’água, mas não é o rio que provoca ânsia, ela diz, e fica observando a folha que é pesada e já está tão molhada que as ondas pequenas não a carregam, Paul viu você no hospital, ela diz.
Eu sei, diz Clara, eu também sabia que ele te diz tudo. As unhas vermelhas dela mergulham nos bolsos do sobretudo, ela forma uma barriga com as mãos por dentro do sobretudo, eu estava grávida, ela diz. Os punhos brancos curvados emergem de novo, as unhas, não. Como assim, você pôde abortar?, Adina pergunta. Há uma folha molhada pendurada no salto de Adina, Pavel conhece o médico, ela diz.
A grama está congelada no parque, fica em fardos ao lado dos caminhos, espessa e vazia. Mas os galhos do alto escutam mesmo sem folhagem.
Clara pega uma folha de grama, ela não precisa arrancá-la, está jogada lá, não cresceu. Ela está amassada, não fica em pé entre seus dedos. Adina se vira, mas o estalido não é um passo estranho, é apenas um galho sob o próprio sapato, ele é médico?, Adina pergunta, e Clara diz, ele é advogado. Ela se vira, mas o ruído não é um passo estranho, é apenas um frutinho da nogueira que caiu no caminho. Por que você não me contou nada?, Adina pergunta, Clara joga a folha de grama fora, ela não voa, é leve demais, ela cai sobre o seu sapato, porque ele é casado, ela diz. Depois os sapatos fazem barulho e a areia raspa o caminho. Uma mulher vem empurrando uma bicicleta, por que você o esconde de mim?, pergunta Adina, há um saco sobre a bicicleta, porque ele é casado, diz Clara, a mulher se vira, nós nos vemos raramente, Clara diz. Desde quando você o conhece?, pergunta Adina.
Nove soldados e um oficial estão diante do cinema. O oficial distribui as entradas do cinema. Os soldados conferem as filas e os assentos. O cartaz mostra um soldado sorridente e uma cancela de via férrea fechada de um lado do rosto ao outro. Sobre o quepe do soldado fica o céu azul, e debaixo do rosto aparece o título do filme, ninguém passa por aqui.
Clara dá uma cotovelada, seu queixo aponta para os soldados, veja como eles estão parados ali, diz ela, os olhos de Adina vagueiam pelas fardas verde-escuras, eu os vi, ela diz, Ilije não está no meio.
Uma voz cumprimenta, o anão nos seus saltos altos, sobre seus tijolos quebrados.
Clara sorri, está frio na cidade, diz o anão. Clara assente. A cabeça dele é grande demais, o cabelo espesso demais e tão claro diante das fardas verde-escuras como a grama congelada do parque. Agora resfriou, diz o anão, quando comprei estava quente. Ele carrega um pão debaixo do braço.