A Raposa Já Era o Caçador
A lâmina de barbear
O estádio fica trancado dentro de sua trincheira. A grama está tão comida pelo outono que dá para enxergar a terra no meio. Pedras também. Do outro lado há blocos residenciais. Estão próximos uns dos outros, atrás do estacionamento vazio, não mais altos do que o mato que escala a trincheira. Lilás, jasmim e hibisco, vegetação que nunca é cortada porque não ultrapassa a trincheira. Floresceu paulatinamente no início do ano e no rápido início do verão. Agora está careca sobre a trincheira, balança os galhos e não pode cobrir nada do vento, que lufa os galhos.
O corredor fundista lá em cima é apenas uma imagem desenhada na pedra. Mas nas estações peladas do ano ele não conhece nenhum obstáculo. Quando não há mais nenhuma folha na planta, o corredor fundista é um vencedor. Os rostos que gritam e os vestidos gordos estão na fila do pão diante da loja. Ele a vê do alto, ele não tem fome. O sol está de costas para o estádio. Ela não propaga calor, só um colarinho leitoso. O corredor fundista não passa frio. Ele caminha com panturrilhas nuas sobre pequenas pessoas na cidade.
Um carro para no estacionamento. Dois homens descem. Um é jovem, o outro mais velho. Eles usam jaquetas de frio, olham rapidamente para o sol cego. Atravessam rapidamente o lugar, as pernas de suas calças voejam, os sapatos reluzem. Cospem cascas pretas sobre o caminho, comem sementes de girassol. Entre latas de lixo e montanhas de caixas vazias, eles andam em fila em direção aos blocos residenciais, o mais velho diante do mais jovem, procurando o caminho escondido.
O mais velho está sentado num banco, olha para as janelas no alto e come sementes de girassol. Atrás de sua cabeça, lá no alto, há uma parede de petúnias. Lá no alto, disse o mais jovem, diante de sua cabeça e na mesma altura, fica o apartamento. Um quarto e uma cozinha. O quarto fica na frente, lá está a raposa, disse o jovem, a cozinha fica ao lado.
Está ventando no banco. O homem esfrega as pernas, ergue o colarinho até as orelhas.
O jovem abre a porta. Sua chave não tilinta. Ele tranca a porta por dentro. Ele não tromba com os sapatos, ele sabe onde estão. As sandálias com a marca preta dos dedos ficam bem perto da porta do quarto. A cama está desfeita, a camisola, sobre o travesseiro.
Ele vai até a janela. A mulher com o cabelo cacheado castanho-avermelhado está atrás das petúnias. Ele lhe faz um sinal com a mão. Ele vai até a frente do armário, ajoelha-se no chão. Tira uma lâmina de barbear do bolso interno de sua jaqueta. Ele a desembrulha, põe o papel ao lado do joelho. Ele corta a pata esquerda traseira da raposa. Ele umedece o indicador com a ponta da língua e limpa o pelo cortado espalhado no chão. Ele esfrega o pelo entre o indicador e o polegar até formar uma bolinha firme, solta a bolinha no bolso da jaqueta. Ele embrulha a lâmina de barbear no papel e a guarda no bolso interno. Ele junta a pata decepada à barriga da raposa.
Ele se levanta, conferindo do alto se dá para perceber o corte. Vai ao banheiro. Levanta a tampa do vaso. Cospe no vaso. Urina, não dá descarga, fecha a tampa. Vai até a porta do apartamento e a destranca. Estica brevemente a cabeça na direção do corredor, sai. Tranca a porta do apartamento.
As petúnias são mais brancas do que o colarinho de leite do sol. Elas logo vão se resfriar. O banco do bloco residencial do lado das petúnias está vazio. Diante do banco há sementes de girassol.
Dois homens seguem pelo caminho escondido entre latas de lixo e montanhas de caixas vazias. Eles caminham um atrás do outro, o mais jovem na frente do mais velho. Eles atravessam o estacionamento. O mato sobe pela trincheira, sempre mais alto na estação pelada do ano.