A Raposa Já Era o Caçador
A pá perdida
O joelho esquerdo se ergue, o joelho direito se abaixa. A grama está pisoteada, o chão está macio. A sujeira escorrega para longe, os sapatos encalombados apertam os tornozelos. Os cadarços são de lama, desde de manhã até o meio-dia, rasgados duas vezes e duas vezes amarrados. As meias estão molhadas, o vento sopra e seca a sujeira nas mãos. O boné caiu na sujeira.
O cigarro, interrompido por comandos, fica sujo por cada mão que desde de manhã até o meio-dia acende esse único cigarro quatro vezes e a fumaça em voos finos de boca em boca, e amassado três vezes, o último jogou-o fora em brasa.
A trincheira é funda o suficiente, vai até o pescoço, e a luz está tão baixa sobre a grama como o tanque na floresta, como a testa sobre os olhos. O dia é puxado até o chão entre a floresta e a colina.
É noite, os cantos dos olhos dos soldados espreitam, o oficial do dente de ouro foi mijar depois do último comando, passou pelo tanque, três árvores para dentro da floresta. Os soldados não movimentam sapatos e pás, eles fazem silêncio e escutam o jato d’água do oficial atingir o chão. Mas os galhos estalam e os corvos voam até os ninhos e gritam, eles pressentem a neblina que aos poucos recobre as árvores. Talvez eles pressintam a neve atrás da paisagem, nas costas planas dos dias seguintes. Neve, que é áspera e seca e que fica caída. Neve tão branca que seus bicos pretos ficam sempre abertos e se resfriam, porque não encontram nada para comer, só milho congelado.
O jato sobre o chão da floresta emudeceu.
O oficial abotoa a calça, afunda mais o quepe na cabeça, aperta mais o cachecol ao redor do pescoço. Ele raspa a sujeira da bota com um galho ressequido.
Ficar em formação, fazer a contagem, cada voz tem um tipo de cansaço diferente, cada inspiração de cada boca é um animal bafejante diferente. Duas fileiras, os grandes, os pequenos.
Pás no ombro, grita o oficial, passa as filas em revista, dolga, onde está sua pá? Ilije ergue as mãos até o gorro, bate uma das botas na outra, às ordens, camarada oficial, minha pá sumiu. O oficial ergue o dedo indicador e seu dente de ouro é mais claro que seu rosto, procure-a, ele diz, sem pá você não volta à unidade.
Direita volver, marche, esquerda, direita. Os soldados sobem a colina marchando ao lado das marcas do tanque. O pico da colina os engole de baixo, o céu os engole de cima.
Ilije não escuta mais seus passos sincopados, ele caminha ao longo da trincheira. Seus olhos vasculham a trincheira, ela é mais escura do que o chão. Suas mãos estão doendo por causa da pá, porque a pá não pressiona mais, porque as mãos não cavam mais, porque os calos viraram pele e ardem. Seus sapatos encontram apenas grama e sujeira, seus olhos encontram a colina. Ela se postou na noite e a floresta é um canto escuro, não há árvores por lá.
Ilije pensa que há uma terra lisa atrás da colina, que à noite talvez ela seja feita de água, uma água igualmente lisa, que ele poderia fugir se fosse escura feito a margem e o lugar de onde ele saltaria não o visse e a água o carregasse. Se nadar bastante, ele pensa, os olhos vão se acostumar com a noite e atravessar bastante, e, depois de ter atravessado tudo, as mãos vão tocar numa outra margem. Mas ele pensa que teria de tirar os sapatos encalombados antes de chegar ao pico da colina. Ele se livraria deles antes mesmo de saltar; livre deles, não perderia tempo em desamarrá-los na margem, com os cadarços cheios de nós. E amanhã, quando o dia começar igualmente cedo e sombrio com um comando, com um dente de ouro, desperto há tempos, quando a coluna marchar colina acima ao lado das marcas do tanque, esses sapatos estarão lá e as árvores estarão novamente na floresta e os corvos também.
Mas há uma carta para Adina numa caixa de correio distante. Dentro dela há uma foto dele, cabelo preto sem quepe, uma testa branca e um sorriso débil sem grama na boca.
No pico da colina, Ilije fica com medo de pisar para fora das solas dos próprios pés. A planície é escura, mas não há água no chão. Ele caminha para lá e para cá ao lado das marcas do tanque e está com medo de se virar para si mesmo. A trincheira viu tudo e amanhã o oficial do dente de ouro vai saber, isso é traição. Sua boca vai gritar, seu dente vai brilhar. O pico da colina ficará parado, mudo, sem saber mais que passou a noite numa testa, que foi quem incitou à fuga uma cabeça transparente de medo.
Em seguida, cada passo abre um buraco no estômago, cada inspiração cria uma pedra na garganta. Folhas de milho rasgadas raspam os joelhos, há grama na altura do traseiro nu. Ilije tem de cagar. Ele ergue a cabeça, ele faz força. Ele arranca uma folha do cabo, uma folha estreita, longa, de milho. A folha de milho se rasga e seu dedo fede. E fedem o milharal e a floresta. E a noite e a lua, que não apareceu, fedem.
Ilije chora e amaldiçoa a mãe dos soldados dos oficiais dos tanques e trincheiras.
Os deuses e todos os partos do mundo.
Suas maldições são frias, suas pragas não são de comer, não são de dormir. São para ficar vagando por aí e passar frio, sobem por entre talos de milho e vomitam. Suas maldições são para se agitar e deitar esticado, para um curto ataque de raiva e um longo repouso.
Quebradas, as maldições nunca existiram.