A Raposa Já Era o Caçador

Herta Müller · Capítulo 17 de 33

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A Raposa Já Era o Caçador

Você não diz nada

 

Não há janelas na escadaria, na escadaria não há luz do dia. Não há luz elétrica na escadaria. O elevador está parado entre os andares no alto. O isqueiro bruxuleia e não ilumina. A chave encontra o buraco da fechadura. A porta não faz barulho, a maçaneta não faz barulho. A porta do quarto está aberta, a máquina de costura está ligada, um quadrado claro é lançado da porta aberta do quarto.

Pavel tira os sapatos, ele anda na ponta dos pés, de meias, até a cozinha. Diante da janela da cozinha, pernas de calças tremulam no vento. Ele não enxerga o varal de roupas. As fivelas de sua bolsa são frias. Ele deposita um pacote de café Jacobs, uma caixinha de margarina sobre o armário da cozinha. Ele conta e põe doze carteiras de cigarros ao lado do café. Ele abre a geladeira e guarda a carne. Ao lado do armário da cozinha há um guarda-chuva. Ele pega o guarda-chuva.

Pavel vai na ponta dos pés até a porta do quarto. A pequena roda da máquina de costura está girando, a correia se movimenta, a linha escorre do carretel, os pés de Clara pisam no ritmo. Pavel abre o guarda-chuva na porta. Está uma forte tempestade lá fora, ele diz, será que posso dormir aqui com a senhora? Os olhos de Clara sorriem, sua boca permanece séria. Sim, meu senhor, ela diz, entre, tire suas roupas molhadas.

Depois o guarda-chuva cai no chão, a roda da máquina para no meio do ponto.

A mão de Clara está na sua cueca. O cabelo dela deságua sobre o rosto dele, o senhor está duro de frio, meu senhor, diz a boca dela, suas coxas estão quentes e sua barriga é funda e o membro dele estoca.

 

A geladeira começa a fazer barulho, a energia voltou. Clara cheira o papel, acende a luz, abre o pequeno pacote de café. Seus dedos estalam, ela segura um grão de café sobre a pinta dele, você está vindo do trabalho?, ela pergunta, o moedor de café corta sua voz. A chama está lambendo ao redor da panela, a água forma bolhas. Ela joga três colheres de café na água, não molha a colher. Ela bate com o cabo da colher no fogão, você seria capaz de fazer algo contra Adina?, ela pergunta. O café sobe, ela pega a espuma com a colher, o que você está querendo dizer?, ele pergunta, ela deixa a espuma escorrer dentro das duas xícaras vazias, o que você está querendo dizer?, ele pergunta, de tão clara, a espuma parece areia na colher. Você poderia envenenar Adina?, ela pergunta, tirando a panela do fogo.

Um fio preto de café escorre na espuma. Não, ele diz, a espuma sobe até a alça da xícara, porque ela é minha amiga, diz Clara. Ele leva as xícaras até a mesa, as pernas de calças tremulam ao vento do lado de fora, também por isso, ele diz e segura um torrão de açúcar na mão, o que ela quer?, ela não sabe onde mora, ele diz, ela não quer nada, ela está falando de raiva. O torrão de açúcar mergulha e rasga a espuma da xícara.

 

Não dava para brigar com meu pai, diz Pavel, quando ele estava com raiva, emudecia. Ele passava dias sem dizer uma palavra. Minha mãe ficava enfurecida. Certa vez ela o arrancou da mesa e apertou o rosto dele diante do espelho e sacudiu o cabelo. Olhe para você, ela gritou, mas ele não piscou os olhos, acho que ele não se viu, ele enxergou através do espelho. Seu rosto se transformou em pedra. Quando ela soltou as mãos do cabelo, a cabeça dele caiu para trás. Ele disse bem baixinho, todo homem tem um pedaço de brasa na boca, por isso é preciso olhar a língua de cada um. Num átimo, uma palavra raivosa pode destruir mais, ele disse, do que dois pés em toda a vida. A colher de Pavel tilinta na xícara.

Vocês procuram suas vítimas, diz Clara, todos pensamos o que elas dizem, você também. Ele remexe, a espuma nada na borda, todos somos vítimas, ele diz. O isqueiro dele faz clique, ele segura a chama, ela puxa o cinzeiro da borda da mesa até bem perto da mão. Você pergunta o que Adina quer, Clara diz, o que ela pode querer?, ela quer viver.

Clara gira o cigarro na mão. Ele bebe fazendo barulho, vê os olhos dela sobre a xícara de café, o que vocês vão fazer com aquele que atirar em Ceausescu?, ela pergunta, não sopra nenhuma fumaça pela boca, ela engole a respiração.

Pavel está com um nó na garganta e borra de café sobre a língua, depende, ele diz. De quê?, ela pergunta, ele silencia.

Clara está junto à janela, enxerga as pernas das calças tremularem e a bola presa no galho da árvore, a bola verde que ninguém viu durante um verão inteiro entre a folhagem que balançava. Que está presa lá há dois invernos nus, porque nenhuma criança ousa subir pelo tronco liso até os galhos finos.

O que aconteceria depois?, a boca de Clara pergunta ao vidro, ele passa a mão pelo cabelo dela, daí peço o divórcio, daí nos casamos, ele diz, sente a testa dela bater na sua mão, ele está com câncer, não vai viver mais muito, ele diz, afunda mais a mão no cabelo dela e aperta sua cabeça.

Ele vai sobreviver a nós todos, Clara diz, ele vira a cabeça dela, quer ver o seu rosto. Ele tem câncer, sei de fonte segura, Pavel diz. Mas mesmo com todos os dedos da mão ele não consegue tirar os olhos dela da bola verde.

Você tem de ajudar Adina, ela diz, ele enfia a mão no bolso da calça, abre dentro do bolso o fecho do frasquinho de perfume, goteja perfume na dobra do pescoço de Clara, isso cheira a quê?, ele diz e deixa o fecho cair para dentro da blusa dela na nuca. Ele põe o frasquinho aberto sobre a mesa e o cheiro está presente na cozinha, o cheiro é opressivamente pesado no pescoço de Clara.

Seu olhar se arranca do galho da árvore, desse mudo jogo de verão preso, dessa bola verde amassada.

Cheira a serviço secreto, diz Clara.

Ele vai ao quarto e tromba com o guarda-chuva. Ele está no corredor e calça os sapatos, a chave do seu apartamento está sobre a cama, diz Pavel, seus dedos não encontram o cadarço.

Você pode ficar com a minha chave, diz Clara, daí vocês não precisam de uma chave extra, os sapatos dele estão apertados, são estreitos e duros, vocês também têm uma chave de Adina, só que Adina nunca lhes deu uma.

Sobre a mesa há dois pratos. Dois garfos se tocam, as facas, não. Sobre a margarina há migalhas de pão, duas extremidades foram cortadas tortas, dá para ver o fundo. Sobre o prato dele há uma casca de pão.

Não fale nada, ele diz.

Ela abre a geladeira, guarda a margarina. A luz cai, quadrada, sobre os pés dela, estou indo, ele diz. O rosto dela está frio. A carne está embalada em papel celofane, uma camada branca cresce sobre o celofane como lá fora no jardim.

Os pés de Pavel estão confusos, sua mão está segura, encontra a maçaneta. Ele fecha a porta com barulho.

Nem pela manhã Clara toca no guarda-chuva aberto no chão. O guarda-chuva é de Pavel. A roupa na máquina de costura também é de Pavel. A agulha está no meio do ponto, a agulha é de Pavel. As rosas no vaso são dele.

A bola verde na forquilha do galho está olhando para a cozinha, a água do café ferve. O café é de Pavel, os torrões de açúcar, o cigarro que Clara está fumando, o pulôver que está usando, a calça, a meia-calça. Também os brincos, a sombra dos olhos, o batom. Também o perfume de ontem à noite.

A fumaça fria de cigarro tem um gosto amargo na língua e a respiração fria tem um gosto amargo na boca, ela fica flutuando no ar feito fumaça. Nas ruas, as ondas de pó atrás dos caminhões também cheiram diferente do que o pó do verão. Na cidade, as nuvens também cheiram diferente do que as nuvens de verão. Clara anda para lá e para cá diante do prédio do serviço secreto.

Dois homens descem a escada, um homem, três homens, uma mulher veste uma jaqueta de pelo de cordeiro enquanto caminha.

Há um calendário grudado atrás da cabeça do porteiro, a primavera, o verão, o outono, todos os meses que já passaram estão circulados, quase um ano inteiro. O porteiro está enfurnado dentro da portaria até a barriga.

Há um nó na garganta de Clara, ela acende um cigarro, a senhora foi convocada?, pergunta o porteiro, ela não guarda o isqueiro, segura a carteira de cigarros para ele. Ele pousa a mão esquerda sobre o telefone e com a direita puxa devagar dois cigarros. Ele põe um na boca, o outro no bolso esquerdo da camisa do uniforme. Um para a boca e outro para o coração, ele diz. O isqueiro dele bruxuleia, ele olha para ela, quem?, ele pergunta, sopra a fumaça para cima, até o cabelo. Ela diz: pavel murgu. Ele pressiona um botão, ele está aqui, ele diz, quem devo anunciar?, ele pergunta. Ela diz: clara. O cigarro no bolso da sua camisa se parece com um dedo, do quê?, ele pergunta, ela diz, o camarada murgu já sabe.

Os caminhões fazem barulho do lado de fora, está frio e escuro, não neva. As árvores sacodem a poeira sobre o caminho, a senhora conhece o camarada chefe faz tempo?, pergunta o porteiro, ela assente, eu nunca a vi aqui, ele diz. Ele escuta com o pescoço, com o queixo no fone, a brasa cai para baixo, sim, sim, ele diz. O cigarro entrou bem fundo no seu bolso, espere no café lá do outro lado, ele diz, em quinze minutos o camarada chefe estará aqui.

A garçonete usa uma coroa de renda sobre o meio da cabeça. Seu cabelo é grisalho, ao caminhar entre a fumaça e mesas vazias, ela murmureja uma canção. Os caminhões zumbem através da vidraça, de cima dá para ver o que estão carregando, madeira e sacos. A garçonete equilibra a bandeja com cinco copos, à mesa estão cinco policiais. Na mesa ao lado, seis homens de terno e a mulher com jaqueta de pelo de cordeiro.

Há uma mancha marrom de água no teto e uma luminária com cinco braços, quatro soquetes vazios e uma lâmpada. Ela está acesa, ilumina apenas onde sobe a fumaça de cigarro. A mulher na jaqueta de pelo de cordeiro chama mitzi, a garçonete apoia a bandeja vazia sobre a mesa e um dos homens de terno diz, sete runs da Jamaica. Um caminhão sacode a vidraça. Ele carrega tonéis e canos. De onde será que vêm?, pensa Clara, há neve sobre os tonéis e os canos.

Dois homens de rosto mal barbeado, desdentados, estão sentados no canto ao lado da porta. Eles jogam cartas. Um deles usa um anel azinhavrado. As cartas estão

amassadas e desgastadas, ás de bolota,[1] diz o com o anel, mas sobre a carta que ele puxa da mão não há bolotas, apenas manchas cinza.

Camarada murgu, diz o do anel azinhavrado.

Pavel aperta sua mão, como vai a vida?, ele pergunta, o do anel sorri com a boca preta vazia, pague uma rodada para nós, camarada murgu, ele diz. Pavel sinaliza que sim, o da boca sorridente chama, mitzi.

O outro deposita as cartas com a frente para baixo sobre a mesa, nossa mitzi já foi uma grande cantora, ele diz. A garçonete murmureja, dois runs da Jamaica, diz o do anel azinhavrado. Nossa mitzi, filha da classe trabalhadora, diz o outro, mas é um anjo. Ah, como era bom quando nossa mitzi ainda era jovem e famosa por toda a cidade, se apresentava no schari neni, onde havia a melhor música e a aguardente mais clara, destilada no porão.

Pavel olha para Clara e Clara escuta e vê um caminhão andando do lado de fora na poeira do inverno. O caminhão carrega areia e pedras.

Naquela época, os eruditos ainda bebiam com os pobres, diz o com o anel azinhavrado, e o professor desenhava com um fósforo queimado sobre um pedaço de papel o quão delicada era a alma humana. E o tabelião real só tinha olhos para a nossa mitzi. A boca dela se parecia com uma rosa, diz aquele com o anel azinhavrado, e a voz de rouxinol.

O outro dava risadinhas com seus lábios murchos, e peitos de porcelana branca, diz ele, e os bicos de seus seios eram mais bonitos do que os olhos dos outros.

Os homens de terno riem, um policial tira o quepe e bate com ele na mesa, a mulher com a jaqueta de pelo de cordeiro acaricia os cachos de pelo de sua gola, Pavel meneia a cabeça para ela, bate no ombro do homem que está ao lado da mulher.

A mulher carrega a bandeja, ela não murmureja ao caminhar. Seu rosto é macio e está comovido, seus olhos embaçados, ela põe dois runs da Jamaica sobre as cartas de ambos os homens desdentados, sorri e suspira e passa a mão pela cabeça daquele com o anel azinhavrado.

Pavel está apenas meio sentado na cadeira. Estou tão feliz, ele diz para Clara, agora vamos tomar uma bebida, ele olha para a mancha de água no teto. Depois para a garçonete, dois runs da Jamaica, ele diz, tocando com a ponta de um dedo a mão de Clara. Aqui chamamos a atenção, ele diz, aqui todos escutam e todos observam.

Você gosta daqui?, pergunta Clara. Pavel puxa a gravata, assim como você gosta da fábrica, ele diz.