A Raposa Já Era o Caçador

Herta Müller · Capítulo 26 de 33

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A Raposa Já Era o Caçador

A cidade vazante

 

A mulher com o cabelo castanho-avermelhado, de cachos largos, limpa as janelas. Ao lado dela há um balde com água fumegante. Ela ergue dali um pano cinza que pinga, puxa um pano cinza úmido diante do beiral da janela, depois um pano branco seco dos ombros. Em seguida, ela se agacha e segura papel de jornal amassado na mão. O vidro brilha, seu cabelo está dividido em duas asas, está aberto no vidro. Ela cerra as asas do vidro e cerra seu cabelo.

As petúnias estão pretas da geada, caules e folhas formam uma maçaroca preta. Quando esquentar, as petúnias congeladas vão colar umas nas outras.

Somente depois de o sol pousar por duas semanas seus dentes mornos sobre o estádio é que a mulher compra novas petúnias no mercado. Elas ficam embaladas num jornal enquanto estão ao lado da mão da mulher sobre o peitoril da janela. Em seguida, a mulher arranca o mato preto da terra. Ela tira as raízes fundas fazendo um buraco com uma faca grande, afofa a terra com um prego comprido. Quando ela tira as petúnias do jornal, uma depois da outra, suas raízes são curtas e cabeludas. Ela faz buracos na terra com o prego e mete o cabelo nos buracos. E fecha os buracos apertando-os com os dedos. Depois, rega as novas petúnias-brancas, de modo que a água fica dois dias pingando da caixa.

A primeira noite organiza os talos e as folhas das petúnias recém-plantadas de maneira que não fique mais visível onde esteve, na janela pela manhã, o cabelo de cachos largos. O dia aquece, as petúnias florescem para si. A cada dia, as manchas de inverno se esgueiram mais para baixo das flores brancas. Elas se esgueiram para baixo da cidade.

As cascas peladas dos álamos e as acácias têm um brilho verde antes de as folhas aparecerem. Nesse momento, o frio foi embora e nada está coberto. E o ditador sobe no helicóptero e voa sobre o país. Sobre as planícies, sobre os Cárpatos. Pernas velhas de homem estão lá no alto, de onde vem o vento que seca o inverno dos campos.

Ele estica a mão no lugar em que um lago de glaciar brilha na sua testa, disse a filha da empregada para Adina. Ele dobra as pernas velhas e diz, o lago precisa ser esvaziado porque o milho não cresce na água.

Ele tem uma casa em cada cidade. A cidade se retrai na sua testa antes da aterrissagem. Onde aterrissa, ele pernoita. Onde pernoita, um ônibus de janelas fechadas com tábuas passa devagar pelas ruas. No ônibus há gaiolas de arame. O ônibus para diante de todas as casas, pois de cada casa são recolhidas e levadas embora as galinhas e os cachorros. Apenas a luz pode despertar o ditador, disse a filha da empregada, os cacarejos e os latidos deixam-no imprevisível. Poderia acontecer, disse ela, de as pernas velhas de homem pararem no meio da cidade, no caminho para o balcão da ópera, onde ele fará seu discurso. De ele fechar por um instante os olhos, porque uma galinha cacarejou em seu sono, porque um cachorro latiu em seu sono de madrugada. De ele abrir a pupila e dizer, a ópera tem de ser demolida, porque onde há uma ópera não pode haver um bloco habitacional.

Ele odeia a ópera, disse a filha da empregada. A mulher do oficial escutou a mulher de um oficial da capital dizer que ele, certa vez, foi à ópera. Que ele disse, um palco cheio de gente, um palco cheio de instrumentos e quase não se ouve nada. Um toca, os outros ficam sentados por ali, ele disse. Ele esticou a mão. No dia seguinte, a orquestra foi desfeita.

O ditador troca as roupas de baixo por novas todos os dias, disse a filha da empregada. Um terno novo, uma camisa nova, uma gravata nova, meias novas, sapatos novos. Tudo está selado em sacos transparentes, disse a mulher do oficial da capital, para ninguém o envenenar. Nas manhãs de inverno, baterias de aquecedor novas, um sobretudo novo, disse a filha da empregada, um cachecol novo, um gorro de pele novo ou um chapéu novo. Como se tudo que ele tivesse usado no dia anterior tivesse ficado pequeno demais, pois o poder cresce na calada da noite.

Nos retratos, seu rosto que encolhe aumenta, o topete cinza fica mais escuro.

Quando as pernas velhas de homem dormem, aquilo que ele usou no dia anterior percorre a terra feito a escuridão. Tantos gorros pretos de pele por dia, tantas noites de lua branca, disse a filha da empregada.

Pois, se durante o dia o gorro de pele esteve sobre seu cabelo, à noite a lua não vai brilhar amarela. No máximo uma metade branca, de boca escancarada, com um canto da boca que não consegue se fechar e que goteja no céu. Uma lua que faz os cachorros uivarem e que pressiona seu olhar, o ardente, bem fundo na cabeça quando o sino bate doze vezes na torre da catedral. Uma lua com uma maçã no rosto, que está bem apoiada no caminho de casa. Um salteador noturno, uma lacuna na escuridão atrás do último bonde.

Pela manhã, há pedras no lugar onde alguém desceu à noite e nunca chegou em casa.

Por um tempo, o rastro da noite fica na frente da janela feito luz tardia. O chão é escuro, a raposa é mais clara, afasta as patas cortadas. Dava para escancarar as janelas. Se houvesse vento, a parede iria tremular, daria para apertá-la com os dedos como uma cortina, como água em pé. Ilije sabe disso, ele pensa todos os dias em sua planície de água, em seu caminho suave. Ele mastigou e engoliu sua folha de grama, comeu-a. Ele tirou sua boca da foto, pôs uma mancha morta no rosto — uma que Adina não consegue tocar com o dedo.

Adina tira as mãos da mesa. No lugar das mãos, a mesa está quente. E no chão, embaixo, onde a raposa é o caçador, os dedos dos pés juntam as patas cortadas no pelo. E em seguida, depois de as mãos terem aquecido a mesa em cima, elas tocam a testa. As mãos sentem que a testa também está quente, mas que, à diferença da mesa, não sabe mais nada sobre o que é morar.

O sino toca várias vezes em seguida, longamente. O apartamento se assusta. Adina olha pelo olho da porta. Clara está na escada, no olho da agulha. Estou vendo o seu olho, ela diz, abra. Adina afasta o rosto, o olho da porta está vazio, depois coberto pelo olho de Clara. Seu punho bate à porta, ela diz, eu sei que você está em casa. Adina se encosta na parede. As fivelas da bolsa de Clara batem no chão na escada. Em seguida, papel estala.

Ela empurra um bilhete pela fresta da porta até o corredor.

Adina lê:

pessoas estão sendo presas há listas você tem de se esconder ninguém vai te procurar na minha casa

A porta do vizinho abre e fecha outra vez. Os saltos de Clara batem nas escadas. Adina puxa o bilhete da fresta da porta com a ponta do pé. Ela se agacha, lê mais uma vez com os joelhos debaixo do queixo. Ela amassa o bilhete, joga-o dentro do vaso sanitário. Ele boia, a água o recobre e não o engole. Depois, a mão de Adina se mete na água, pega o bilhete e o alisa, dobra, guarda no bolso do sobretudo.

As portas dos armários estão abertas. A bolsa de viagem sobre o tapete está aberta. Uma camisola voa, cai sobre a raposa ao lado da bolsa. Um pulôver, uma calça caem dentro da bolsa. Uma toalha, um embolado de meias-calças e calcinhas, uma escova de dentes, uma tesoura de unhas, um pente.

O hospital faz as vezes de final da rua, expõe janelas pequenas, iluminadas, uma corrente de luas. As janelas não têm teto, o céu está costurado acima delas sem uma transição, sem uma estrela. Um carro para, há dois homens dentro. Um sapato de criança balança no para-brisa. O farol retorce sua luz para o chão. Adina vira o rosto para o lado. Se o motor silenciasse, seria possível escutar as batidas de seus corações através dos sobretudos. Os fachos cortam a bolsa de viagem de sua mão. Os homens vão ao hospital.

Há escadas diante da entrada, à esquerda e à direita o chão afunda, há folhagens lá. Adina mete a bolsa de viagem no meio das folhagens. Elas estão peladas. Sua mão estremece duas vezes, pois é apenas uma folha esquecida, úmida e seca. A bolsa está bem no fundo, as escadas são altas, o vento é escuro e mais pesado do que as folhas.

Adina aguarda sem mãos. Ela não diz o nome ao porteiro; quando chegar, ele vai me ver, ela diz. O porteiro telefona. Sua mão direita sente o bilhete molhado no bolso do sobretudo.

O porteiro caminha para lá e para cá. Seus olhos atravessam a parede de vidro, um pedaço de escada, um pedaço de noite e um ruído que morre entram em seu campo de visão. Seu olho suporta tudo porque ele conhece o binóculo. Seus sapatos estalam. Nos cantos, duas rugas correm para dentro da boca. A lâmpada do teto olha em vez de iluminar. Nos olhos do porteiro, a folhagem é mais clara do que do lado de fora. Pois dois caroços em brasa olham dos olhos do porteiro, há uma lâmpada no meio dos dois olhos.

 

Paul desce a escada, seu gorro branco é uma grande petúnia, ela engole sua orelha esquerda. Adina põe o bilhete molhado na sua mão. O papel está amassado, tem mais rugas do que o polegar esticado dele.

Paul lê, por hábito o porteiro escuta a noite, seu olhar é dissimulado, do lado de fora o vento trepida a placa de metal. Espere no carro, diz Paul, seus sapatos brancos de pano estão sobre o chão de granito, ele põe duas chaves no centro da mão dela, para elas não fazerem barulho, ele diz, as chaves estão amarradas com um barbante branco de restos de ataduras, conte as janelas embaixo, ele diz, o carro está à direita diante do décimo. Tire seus sapatos brancos, diz Adina, eles chamam muito a atenção, ele olha para o chão, sei que lá fora não sou médico, ele diz. Seu avental branco é de cal, recém-engomado e recém-passado a ferro.

As mãos não se assustam mais diante do arbusto. Mesmo que as folhas estejam molhadas e secas por dentro. Adina carrega a bolsa de viagem diante da barriga com ambas as mãos, para que, dentro do sobretudo, ela não seja outra coisa além de sobretudo. Mas no caminho, que não se enxerga por causa da escuridão, está o gorro de petúnia de Paul, seus sapatos brancos de pano, seu avental branco. Ela conta as janelas embaixo, para onde a folhagem se estende, de uma janela a outra ela vê os galhos solitários ao vento e que Paul é um confeiteiro que aprende na carne dos homens. O olho dele amplia as entranhas sob a pele até que elas esfriem.

A porta do carro estala. A bolsa está sobre o banco traseiro. Adina se pergunta onde a tesourinha de unha foi parar entre as roupas grossas dentro da bolsa grande. O cachecol de Anna está ao lado da bolsa. Um carro para diante da entrada. Dois policiais descem das portas dianteiras, dois cachorros das portas traseiras. Eles farejam o asfalto, cheiram os passos. Sentada agora no carro, Adina quer ser do tamanhinho da tesoura de unha na bolsa.

Paul vem pela porta clara, ele desce as escadas, seus sapatos são escuros. Ele caminha ao lado da folhagem feito um guarda-noturno, ele conta as janelas. A calça que ele veste parece uma calçada.

Ele bate na janela, a porta se abre, suas pernas são sua bagagem. O que os policiais estão procurando, o que os cachorros estão procurando?, pergunta Adina, ele gira a chave e o carro zune. Eles trazem todos os dias os feridos da fronteira, ele diz, a maioria está morta, nós vamos até a casa de Abi, ele diz, e depois para a casa de Liviu, no campo.

A estrada passa, a cidade é um dedal, íngreme e preta, os blocos residenciais tão estreitos como as têmporas. Há uma oficina ao lado da morgue, diz Paul, os caixões são soldados lá e depois enviados para casa com escolta policial. Ninguém mais olha para dentro deles, diz Paul.

A janela do alto está iluminada. Paul não toca a campainha, ele apenas bate uma vez na porta, Abi abre, sorri e ergue as sobrancelhas, ele está cheirando a álcool. Adina põe o bilhete na sua mão, Paul toca o braço dele, venha, ele diz, vamos para o campo. Os olhos de Abi estão congelados, grandes demais e pequenos demais no seu rosto, ele assente. Depois ele se solta, não quero saber para onde, ele diz, eu não vou junto, boa sorte, o que quer dizer boa sorte?, os vilarejos são pequenos.

 

Pessoas caminham pelas extremidades escuras das ruas, elas carregam lanternas, a noite os livra de suas roupas. Paul dirige devagar, Paul dirige sem fazer barulho.

Por um tempo, Adina pensa que a cidade nunca termina, pois a canção proibida se espalhou. Que as ruas continuam correndo para dentro do país e as cidades estão em todos os lugares. Que em algum lugar, no campo escuro, quando o caminho fizer uma curva, os sinos vão tocar porque a floresta atrás do milho descongelado é um parque, que atrás da torre fica a catedral e que o campo vazio não está vazio, porque o rio passa no meio.

Que o ditador enxergou a cidade vazante do alto, do ar, que ele dispôs todos os soldados ao redor da cidade vazante. Que eles, com suas pás, cavam para separar a cidade vazante do país. Que em nenhum lugar há uma ponte. Que Ilije também cava e cava e faz um sinal para ela, ele ergue e abaixa os dedos como ondas, aperta a ponta da pá com os sapatos na extremidade da cidade e pensa no Danúbio.

Que Paul sobe no carro com seus sapatos brancos, que ele dirige e dirige, e onde a cidade termina e onde a última luz ao largo se apagou, ele não diz mais nada. Que ele olha para o alto à procura de uma lua branca enquanto as bordas de um campo vagueiam sem rumo embaixo. E pensa, de repente, que ele é médico e que ao seu lado está sentada uma pessoa de entranhas quentes na barriga.