A Raposa Já Era o Caçador

Herta Müller · Capítulo 27 de 33

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A Raposa Já Era o Caçador

A comadre

 

A mão de Paul passa pelo rosto de Adina.

Ela se assusta, chegamos, diz Paul, ela sente um fio de areia na cabeça, puxa a mão pesada de Paul do rosto, eu dormi?, ela pergunta, o rosto dela está desfigurado, suas faces estão encovadas quando ela abre os olhos.

O banco diante da casa de Liviu é mais baixo numa das pontas. As pernas cresceram na lama da poça. As janelas são escuras atrás da cerca. O portão está trancado.

No sul, onde o Danúbio corta a terra, as casas são vilarejos de uma só rua. Não há mais ampliações, as cercas se prendem umas nas outras, atrás de cada casa há um jardim, atrás de cada jardim, uma faixa de terra. Os cachorros não têm lugar para perambular, não têm lugar para latir. Não por causa dos ladrões, Liviu disse no verão, aqui nada é roubado, as pessoas têm tantos cachorros para não ouvirem os tiros, e gansos pegam o lugar de galinhas porque eles grasnam a noite inteira. As pessoas se acostumaram, não escutam mais os latidos e os grasnidos, elas ouvem os tiros.

Adina escuta, os gansos grasnam de um jeito breve e grave no quintal e no quintal do vizinho e no quintal além desse. Eles estão presos entre tábuas. Dá para escutar suas patas batendo, suas asas se espremendo na madeira. Eles se bicam, não dormem profundamente. A cada noite, um vilarejo de uma só rua se parece com uma meia, feito seus pescoços.

Liviu ficou noivo no verão. Ele se casou com uma professora do vilarejo porque ele se sentia estranho e entregue à própria sorte. Sua mulher é tão jovem que mal toca na idade dele. Ele mantém o próprio silêncio e o próprio ouvir para si, pois ela está acostumada com as mulheres que falam e os homens que se sentam ao lado, quietos. Ela cresceu com os tiros, com os cachorros e os gansos.

No verão, quando Adina esteve com Paul no casamento de Liviu, essa mulher de véu branco e vestido longo estava com as feições de uma ovelha. Uma ovelha que nunca comeu grama, Paul falou naquela época. Ela foi abraçada por todos, beijada, e Liviu apenas apertou mãos e virou o rosto. Ela comeu muito e Liviu mastigou, ausente. E Liviu dançou como se estivesse carregando pedras nos bolsos, e ela como se todo o seu branco fossem penas voadoras. Ela não falou muito e, quando falou, sorriu. O policial do vilarejo estava bêbado, durante o almoço ficou contando piadas e rindo sozinho, porque sua bebedeira girava em torno de uma mesma frase, que ninguém entendia. O padre emborcou seu gorro preto sobre o gargalo de uma garrafa, os fios de macarrão da sopa ficaram presos na sua barba grisalha. Depois da refeição, ele ergueu a batina até o joelho e dançou com o policial. Liviu olhou para Paul e Adina, quando vocês se casam?, ele perguntou. Paul disse, logo. Adina sentiu a mentira passando pelo rosto dela. Ela perguntou à ovelha, vocês são parentes?, e apontou para o policial. Liviu ficou em silêncio, a jovem ovelha sorriu e disse, no interior é assim, o policial faz parte.

Paul segura pedrinhas de cascalho nas mãos. Ele as joga nas janelas, elas arranham na grama, depois fazem ruído, porque há folhas secas no chão. Eles estão dormindo pesado, diz Paul. Os cachorros latem mais alto, os gansos estão mudos. Paul aponta sobre a cerca e bate com os dedos contra os vidros. A luz se acende na última janela.

A cabeça de Liviu está amassada de dormir. A veneziana estala, sou eu, diz Paul. Ele ergue o queixo, seu rosto está no escuro, temos de nos esconder, ele diz. Liviu reconhece sua voz.

Eles empurram o carro para dentro do celeiro. Liviu cobre-o com palha e deposita sacos diante dos pneus. As asas brancas dos gansos brilham através das frestas das tábuas, eles grasnam, seus bicos batem na madeira.

A ovelha está de camisola sobre a escada, descalça em sapatos grandes demais ela ilumina com a lanterna um círculo dentro do celeiro. Mas o círculo não alcança, ele fica parado numa poça porque se enxerga a si próprio na água.

Na cozinha, a ovelha sorri sob a luz, conversamos ontem sobre vocês, diz Liviu, a gente fala de vocês e vocês aparecem diante da porta, diz a ovelha. Adina deposita a bolsa ao lado do fogão, Paul mete a mão dentro da jaqueta e põe uma escova de dentes sobre a mesa, essa é minha bagagem, ele diz.

 

A ovelha conduz Adina até o quarto escuro, fecha a cortina, os grandes buquês de rosas. Elas reaparecem sobre a toalha de mesa. Aqui está a lanterna, diz ela, não acenda, dá para ver de fora. Ela junta as roupas dentro do armário, aqui todos sabem em que quarto dormimos, aqui ainda há lugar para as roupas de vocês, ela diz.

É o mesmo quarto, a mesma cama. Cedo pela manhã depois do casamento, Adina deitou-se ao lado de Paul e perguntou, por que você mente? Paul suspirou e mosquitos voavam ao redor da lâmpada, por que Liviu ainda acha que estamos juntos? Paul deu um bocejo e disse, isso é tão importante assim? Choveu na manhã do casamento, em seguida o calor ficou terrível, a noite não refrescou, não dava para cerrar a janela. Paul adormeceu antes mesmo de fechar a boca. Enquanto dormia, ele descobriu as pernas, ele roncou até os dedos dos pés. Adina apagou a luz, os grilos guizalhavam sons tremidos através do vilarejo inteiro. A música folclórica ainda ecoava em sua cabeça. Os mosquitos sentiram o cheiro da aguardente e vinham somente no rosto dela, Paul tinha bebido muito com Liviu e conversou com um contador desdentado sobre a porcentagem cada vez menor de proteínas no leite das vacas do governo.

Nessa noite de mosquitos, Adina sonhou que dançava com o contador desdentado. Havia uma colher sobre o chão do quintal e o contador pisava nela a cada passo. Ela o puxou dali, bem perto dos limites do jardim. Mas, quando ele continuou dançando com ela perto dos limites do jardim, também havia uma colher por lá e ele pisava nela a cada passo. E uma mulher murcha, mais velha ainda, estava sentada de costas para a mesa e o observava. Ela disse, dance de maneira respeitosa, essa senhora vem da cidade.

A lanterna revira a bolsa escura, o pente está bem no alto, a tesourinha de unhas no fundo, a escova de dentes entre as meias-calças. A camisola está fria sobre a pele. As axilas cheiram a suor, os pés também. Paul segura sua escova de dentes na boca, pelo cabo. Liviu deixa uma comadre branca ao lado da cama, não é para vocês irem até o quintal, nem durante o dia, ele disse.

Paul deixa a escova cair da boca até a mesa, dá a volta na mesa, ilumina o buquê de flores com a lanterna. Os cachorros latem lá fora, ele cheira as rosas da cortina, posso pôr meus sapatos ao lado dos seus?, ele pergunta, ilumina os sapatos de Adina e põe os seus ao lado. Ele se deita vestido e ri.

Estou com vontade de fazer xixi, diz Adina, ela pega a comadre, não há rosto nenhum sobre a cama, somente as roupas de Paul, eu já estava com vontade no celeiro, ela diz. No caminho, mijei três vezes de medo, diz Paul, ela ilumina a comadre, ela é novinha, o pior é o barulho, ela diz. Mas eu sou músico, diz Paul, ela empurra a comadre entre as pernas, vou assobiar, ele diz, meu avô era brigado com o genro, ele diz, ele sempre parava os cavalos diante da casa dele e começava a assobiar até que eles mijassem, só depois ia embora. Ouve-se o barulho e Adina sente um bafo quente entre as pernas. Sobre a cadeira há um jornal, Adina cobre a comadre com ele e escuta. O vento está pendurado atrás da cortina, ele balança os galhos pelados. Achei que o barulho seria diferente, diz Paul.

Tínhamos um banheiro de verão e um banheiro de inverno e quatro comadres, diz Adina. O banheiro de verão ficava atrás das trepadeiras num jardim mirrado, o banheiro de inverno ficava atrás do corredor. O banheiro de verão era de tábuas, o de inverno, de pedras. Minha comadre era vermelha, a de minha mãe era verde, meu pai tinha uma azul. O quarto era de vidro, o mais bonito de todos, mas nunca era usado. É para os hóspedes, dizia minha mãe. Nunca recebíamos hóspedes, somente visitas curtas. A costureira vinha duas ou três vezes por ano, trazia um vestido para minha mãe, comia duas maçãs em pé e ia embora. E no outono, quando meu pai tinha aguardente de ameixa lá do vilarejo das ovelhas, às vezes também vinha o barbeiro. Ele entornava três copos em pé e ia embora. Meu pai às vezes dizia, você poderia cortar meu cabelo rapidinho. O barbeiro dizia, só faço isso na barbearia, preciso de um espelho quando corto, preciso me enxergar do jeito que você me enxerga.

Quem vinha até nós morava nessa periferia suja. Ninguém era hóspede, ninguém passava a noite, diz Adina. Paul não diz nada. Ele dormiu de roupa, sem rosto.