A Raposa Já Era o Caçador
As unhas da mão crescem
Pensei nisso, depois me esqueci de novo, diz uma voz de mulher diante da janela. Os buquês de rosa da cortina ficam maiores durante o dia. Lá fora os gansos berram, suas vozes são diferentes das da noite, mais claras. Adina enxerga os gansos um atrás do outro, numa fila branca tão longa quanto o vilarejo de uma só rua, e um pedaço a mais, até o campo, onde o milho congelado não os abandona mais, ele os devora na sequência até dentro do vilarejo, enquanto as penas estiverem quentes. Adina pensa que as pessoas formam uma fila tão longa quanto o vilarejo, sentadas em fila junto às janelas, observando como o milho engole os gansos, e elas não se assustam porque estão acostumadas com esses tiros na fronteira. Que só ficam espantadas porque os tocos de milho congelado avançam até o vilarejo, juntinhos, e se postam no meio da rua, numa fila tão comprida quanto o vilarejo.
O rosto cinza de Paul está deitado sobre o travesseiro, está mais velho do que estava na cidade. Suas roupas estão amarrotadas, são o dia de ontem. Há uma fileira de vidros para conservas sobre o armário, amarrados com celofane e fitas verdes. Damascos inteiros feito pedras dentro dos vidros. A cabeça dela está fria por dentro, ela bate com os dedos na testa. Sua escova de dentes está ao lado da escova dele, depois a tesourinha de unhas. Ela pega a escova de dentes e enfia o cabo na boca.
Diante do armário, Adina sente a raposa junto aos dedos do pé, na borda do tapete há apenas franjas brancas, ela fecha os olhos e, sem meias, calça os sapatos. Ela cheira a toalha. Vai até a cozinha com a comadre nas mãos.
No fogão há brasa. Sobre a mesa da cozinha, toicinho e um pão, ao lado um bilhete: chegamos às 12h.
Os dias ficam assim, como os gansos na cabeça de Adina, uns junto aos outros sem vilarejo, escondidos como uma coluna vertebral e infinitamente longos. Dias do pescoço até a ponta dos pés, de camas e cortinas e comadres e cozinha. Os dias são longos e breves, prestar atenção a qualquer ruído confunde o medo com ausência. Os ouvidos são mais alertas do que os olhos, que conhecem tudo ali na casa.
Rádio e televisão apenas quando estivermos em casa, disse Liviu, os vizinhos poderiam ouvir.
Quando uma voz chama do portão e o homem que sacode o trinco, de uniforme, olha pela fresta da cortina, Adina e Paul procuram a porta mais ao fundo. Ficam lado a lado na despensa, até nada mais ser ouvido. Um jornal aparece no quintal, sobre a escada, pois era o carteiro. Quando Liviu e a ovelha saem da escola, o jornal está sobre a mesa da cozinha. E a primeira página estampa o topete e a pupila. E embaixo está escrito que o filho mais amado do povo fugiu para o Irã; alguns dias mais tarde, que voltou do Irã e está de novo no país.
E Adina pensa que, de tanto ouvir, o pavilhão e os canais dos ouvidos na cabeça deveriam estar lisos como a palma das mãos, com dedos brotando neles, e que estremecem tão rápido quanto o medo. Somente o ruído na comadre é diferente a cada vez, no caso de Paul, mais longo do que o dela, e Paul brinca com o jato e pode rir com uma voz falsa sobre a espuma amarela. Somente quando ele tem de cagar é que ele xinga, sofre com a constipação e diz que ele se sente como um piolho que se esconde num canto da cama.
O jornal sobre a comadre é sempre o do dia anterior e Paul sempre o deixa com o topete para baixo. E logo após ele mete lenha e espigas de milho secas no forno, olha durante tempo demais para a brasa e pelo canto dos olhos debaixo de seu braço. Pois os seios de Adina estão pendurados, nus, sobre o lavatório e o sabonete faz espuma e Adina sabe que ele toca seus seios com o rosto quente feito brasa e as mãos frias. No chá de flor de tília, o rosto dele se reflete envelhecido e o dela, vazio — separados pelos cabos das colheres, cada um em sua própria tigela. E ambas as colheres misturam até o açúcar derreter. Ainda não ouvi nenhum tiro, diz Paul, escuto os cachorros latir e os gansos grasnar e os carteiros chamam no portão. Escuto aquilo que faz barulho, embora saiba por Liviu que os tiros são silenciosos, assim como quando um galho se quebra, só que diferentes.
Em algum momento a chave girou na fechadura e Liviu deixou um saco grande dentro da cozinha, uma árvore de Natal que não podia ser vista nas ruas do vilarejo, um delicado abeto-branco, que o pai de um aluno, motorista de caminhão, tinha roubado numa trilha de floresta dos Cárpatos. Isso foi ontem?, pergunta Paul e Adina diz, não, foi hoje pela manhã. Liviu deixou o saco junto à parede e teve de sair logo em seguida novamente, para uma reunião, ele disse. Ele trancou do lado de fora e Paul tirou o saco do pinheiro, na cozinha as folhas tinham uma aparência ressecada e cinza. Devolva o pinheiro ao saco, disse Adina, não consigo olhar para ele.
Ontem, quando a tesourinha de unha estalou, foi diferente. Adina olhou a borda curvada da unha cair da ponta do dedo para a mesa. Desde que a raposa começou a ser retalhada, minhas unhas crescem mais rápido, ela disse. Paul riu com seus sons errados, ela levou o indicador à boca e puxou a unha com os dentes, mastigou-a em pedacinhos e comeu-a. Todos os dias vejo na escola que as unhas e os cabelos das crianças descuidadas crescem mais rápido do que os daquelas bem cuidadas, ela disse. Quando se vive com medo, as unhas e os cabelos crescem mais rápido, dá para notar na nuca raspada das crianças. Paul cortou toicinho, cortou fatias transparentes e girou-as sobre os lábios antes de engoli-las. Como médico, tenho de contradizer você, ele disse, apontou para o topete do jornal, se fosse assim, esses cabelos cresceriam da testa até os dedos do pé em um dia. Ele esfregou os dedos nas finas fatias de toicinho e eles brilhavam, o que você sabe das pessoas?, perguntou Adina, o que você vê quando as abre porque estão doentes ou mortas? Nada. Se um ditador é explicável do ponto de vista médico, então está no cérebro, no estômago, no fígado ou no pulmão? Paul tapou os ouvidos com suas unhas brilhantes, o ditador dormita no coração como em seus romances, ele gritou.
O topete cresce todos os dias até os dedos do pé, pensou Adina, o saco com os cabelos está cheio há tempos, entupido até a boca e mais pesado do que ele. Ele engana a todos, até o barbeiro.
E anteontem a sopa estava servida no prato e Paul queria chamar Adina para comer, e disse abi em vez de Adina. Depois, enquanto os dois faziam silêncio, a sopa que estava servida no prato criou uma pele fininha que ficava presa na colher. E Paul disse, você sabe para quem Abi contou a piada do romeno baixinho? Para quem?, ela perguntou e Paul disse: Ilije.
Adina olhou para seu prato, os círculos de gordura, olhos da sopa, permaneciam redondos, também não se espalhavam com a colher. Adina escutou um ruído pela primeira vez. Não era cachorro e não era ganso, era como se um galho se quebrasse, só que bem diferente. Foi dentro da própria cabeça.
E no mesmo dia, à noite ou na noite seguinte, a ovelha trouxe um saco cheio de chocolate para a árvore de Natal. Os pedaços estavam embalados em papel-alumínio vermelho e em cada um deles havia um barbante de seda. De uma enfermeira, disse a ovelha, seu filho é meu aluno. Ela comeu um pedaço, enfiou-o por inteiro na boca e deixou derreter sobre a língua sem fazer barulho, às vezes Liviu quer voltar à cidade, ela disse, agora é bom estarmos aqui no fim do mundo, como Liviu diz. Aqui todos sabem o que o vizinho comeu anteontem, disse a ovelha, o que ele compra e vende e quanto dinheiro tem. E quanta aguardente cada um tem no porão, disse Liviu. Ela comeu mais um pedaço de chocolate, depois trinchou um ganso, separou as coxas da barriga, as asas do peito. Não chamo a atenção, disse Liviu, nem na escola. Escuto e tenho minhas ideias. A ovelha ergueu o peito do ganso pelo pescoço longo e abriu o estômago. Ele estava cheio de pedrinhas, sei que sou oportunista, disse Liviu, senão vocês não estariam aqui agora. Por quanto tempo vocês conseguem se esconder?, perguntou a ovelha, depositando uma folha de louro sobre a mesa.
Onde vocês poderiam viver neste país?, perguntou Liviu. Adina descascava batatas e Paul assistia como as cascas se enrodilhavam entre o polegar e a faca.
É para irmos atrás dos campos perto do Danúbio?, perguntou Adina, é para fugirmos?, você quer ouvir tiros e imaginar que somos nós? Não precisaríamos nem de meia hora para estar deitados ali no trigal até a colhedeira passar, no verão. Paul puxou Adina para trás pelo ombro, e ela disse na sua cara, o contador vai explicar a porcentagem crescente de proteínas na farinha. Paul tapou a boca dela com a mão. Ela empurrou a mão e viu como a batata perdia a nitidez. Às vezes, ela disse, um fio de cabelo vai ficar pendurado entre os dentes de vocês durante a comida, um fio de cabelo que o padeiro não deixou cair na massa.