A Raposa Já Era o Caçador

Herta Müller · Capítulo 4 de 33

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A Raposa Já Era o Caçador

Uma pessoa vale um pedaço de pão

 

Um homem caminha ao lado de um cavalo na beira da estrada. Ele assobia uma canção. A canção é mais lenta do que seus passos, os cascos do cavalo não atrapalham o ritmo. O homem olha para o chão enquanto anda. A cada manhã, o pó é mais velho do que o dia.

Adina sente a canção nas solas dos pés; na sua testa, a boca do homem canta a letra:

 

Não me sai do pensamento

vender casa e campo

 

Um homem pequeno, uma corda fina, um cavalo grande.

Uma corda fina para um cavalo é uma corda grossa para um homem. Um homem com uma corda é um enforcado. Assim com o funileiro dos anos abandonados, da periferia.

Um dia — quando o bonde passou fazendo barulho diante da sua vitrine com chaminés de fogão, regadores e cruzes de cemitério — ele se tornou um enforcado.

Os passageiros estavam atrás dos vidros e cada um carregava um cordeiro nos braços, pois logo seria Páscoa.

O fogo não ardia mais nas vasilhas, mas a morte não tinha mordido sua bunda, como o funileiro sempre dizia. Quando ele foi encontrado, a morte tinha apertado sua garganta.

Seus poucos dedos tinham pegado uma corda e feito um laço. O homem do abatedouro, que jogara o gato do barbeiro porta afora, foi quem o encontrou. Ele tinha encomendado uma chaminé de fogão com o funileiro e fora buscá-la. Ele estava vindo do barbeiro. Seu cabelo estava recém-cortado e seu queixo estava recém-barbeado, ele cheirava a óleo de grama. Lavanda, foi como o barbeiro chamou esse cheiro, mas todos os homens que ele barbeava ficavam com o rosto brilhante e cheiravam a grama.

Quando encontrou o enforcado, o homem que cheirava a grama disse, um bom artesão, mas fica fazendo lambanças.

Pois o funileiro estava pendurado torto e tão rente ao chão perto da porta que ele poderia ter ficado na ponta dos pés e se soltar, caso quisesse.

O homem que cheirava a grama era mais alto que o enforcado e disse, pena pela corda boa. Ele não cortou a corda, ele alargou o laço, o funileiro caiu. O avental de couro se curvou quando ele caiu. O enforcado não se curvou, seu ombro bateu no chão, a cabeça ficou reta no ar. O homem que cheirava a grama soltou o nó, usou a palma da mão e o cotovelo para enrolar a corda, passando entre o polegar e o indicador. Ele fez um nó na extremidade mais curta, a corda pode ser bem usada no abatedouro, ele disse.

A costureira meteu um alicate e uma agulha nova, brilhante, no bolso do avental. Ela deixou a cabeça pender e suas lágrimas pingaram sobre o despertador que estava sobre a mesa. Uma locomotiva se movimentava sobre o mostrador redondo do relógio, ela fazia tique-taque. A costureira olhou para os ponteiros e pegou um regador, vou levá-lo para o seu túmulo, ela disse. E o homem que cheirava a grama disse, eu não sei. Ele procurava a chaminé de seu fogão.

E o barbeiro disse, há uma hora o funileiro ainda estava comigo, fiz sua barba. Ele nem estava seco ainda e se enforcou. O barbeiro meteu uma lixa no bolso do guarda-pó. Ele olhou para o homem que cheirava a grama, quem corta a corda do enforcado, ele disse, vai acabar pendurado nela. O homem que cheirava a grama estava segurando três chaminés de fogão debaixo do braço e apontou para a corda, olhe aqui, a corda está inteira.

Adina viu uma porção de panelas soldadas no chão ao lado do enforcado. O esmalte do interior das panelas estava desbotado e trincado. Salsinha e levístico, cebola e alho, tomates e pepinos. Naquele desbotado havia um dente, uma fatia, uma folha de tudo aquilo que o verão fazia surgir da terra. Os legumes de todos os jardins da periferia e dos campos, e a carne de todos os quintais e currais.

Quando o médico veio, todos se afastaram um passo do funileiro, como se o terror tivesse chegado. O silêncio desfigurava todos os rostos, como se o médico trouxesse a morte.

O médico despiu o funileiro e olhou as panelas. Ele sacudiu as mãos inanimadas e disse, como alguém pode soldar com três dedos em duas mãos? Quando o médico jogou as calças do funileiro no chão, dois pêssegos caíram dos bolsos. Eles eram amarelos como o fogo que não mais ardia nas vasilhas, redondos e lisos. Eles rolaram para baixo da mesa e brilhavam ao rolar.

O barbante estava ao redor do pescoço do funileiro como todos os dias, mas faltava a aliança no barbante.

Durante alguns dias e noites, o ar sob as árvores tinha um cheiro amargo, Adina enxergava a corda vazia nos veios de cal das paredes e nas fendas do asfalto. E na primeira tarde ela pensou na costureira, na primeira noite ela pensou no homem que cheirava a grama. E no dia seguinte ela pensou no barbeiro. E na noite, que escureceu de repente, Adina pensou no médico.

Dois dias depois da morte do funileiro, a mãe de Adina passou pelos campos de beterraba para ir ao vilarejo que piscava com as paredes brancas até a periferia. Como logo seria Páscoa, ela comprou um cordeiro. No vilarejo das ovelhas, a mãe de Adina escutou que uma criança tinha estado com o enforcado. Uma criança estranha, que tinha ido parar lá, disseram as mulheres do vilarejo, roubara a aliança do pescoço do funileiro. O anel era de ouro, daria para vendê-lo e comprar uma mortalha para o funileiro. Pois o dinheiro na gaveta da mesa de sua oficina fora suficiente apenas para uma caixa tosca de madeira, apertada. Não era um caixão, elas disseram, mas um terno de madeira.

 

O homem com o cavalo para perto do meio-fio, um ônibus em movimento o recobre. Depois que o ônibus passa, o homem está na poeira e o cavalo anda ao seu redor. Ele ergue as pernas sobre a corda, enrola a corda num tronco de árvore e amarra o laço. Ele força a passagem pela porta da loja entre cabeças que esperam na fila do pão.

Antes de a cabeça do homem sumir entre as cabeças que gritam, ele olha para trás. O cavalo ergue a pata, fica um tempo sobre três pernas enquanto um ônibus passa, ele esfrega a barriga no tronco.

Adina sente o pó no olho, o cavalo explora a casca da árvore com as narinas. A cabeça dele perde a nitidez. A poeira no canto do olho é uma mosca minúscula na ponta do dedo de Adina. O cavalo come um galho, as folhas de acácia farfalham diante de seu focinho, a madeira fina tem espinhos, faz barulho na sua garganta.

A loja na qual o homem sumiu exala ar quente para a rua. Os ônibus assopram grandes bolas de poeira atrás de si. O sol se pendura em cada ônibus, é mais um passageiro. Ele tremula como uma camisa aberta nas esquinas. A manhã cheira a gasolina e poeira e sapatos gastos. E quando alguém passa com um pão nas mãos, a calçada cheira a fome.

Nas cabeças que gritam na loja, a fome tem ouvidos transparentes, cotovelos duros, dentes pobres para morder e dentes bons para gritar. Na loja há pão fresco. Há inúmeros cotovelos na loja, mas o pão é contado.

Onde a poeira sobe mais alto, a rua é estreita, os blocos residenciais são tortos e apertados uns nos outros. Ao lado dos caminhos, a grama se torna fechada, e quando floresce, atrevida e luminosa, está sempre judiada pelo vento. Quanto mais atrevidas as flores, maior a pobreza. Lá o verão se debulha a si mesmo, confunde roupas rasgadas com debulho. Os olhos na frente e atrás das vidraças são tão importantes para o brilho dessas vidraças como as sementes voadoras para a grama.

As crianças puxam as folhas de grama com os talos leitosos da terra e brincam de sugá-los. E na brincadeira está a fome. O crescimento dos pulmões é interrompido, o leite da grama alimenta os dedos sujos, as correntes de verrugas. Os dentes de leite não, eles caem. Eles não ficam moles por muito tempo, eles caem na mão ao falar. As crianças os jogam na grama, hoje um, amanhã outro, sobre o ombro atrás das próprias costas. Enquanto o dente está no ar, elas cantam:

Rato, rato, me traga um dente novo

que te dou o velho

Apenas quando o dente se perdeu num lugar incerto na grama é que elas olham para trás e chamam isso de infância.

O rato pega os dentes de leite e ladrilha de branco os corredores debaixo do bloco residencial. Ele não traz dentes novos.

A escola fica no final da rua, no começo da rua há uma cabine telefônica quebrada. As varandas são de chapa ondulada e enferrujada e não suportam nada exceto gerânios cansados e roupas voejando no varal.

Aqui não florescem dálias. Aqui a clêmatis debulha o próprio verão, fingido e azul. Onde há entulho, onde tudo enferruja, quebra e desmorona, ela desabrocha.

No começo da rua, a clêmatis se esgueira para dentro da cabine telefônica quebrada, se deita sobre os cacos de vidro e não se corta. Ela recobre o disco do telefone.

Os números sobre o disco são caolhos; quando Adina caminha devagar, eles próprios se anunciam: um, dois, três.

Um verão enlouquecido ao marchar, um verão militar atrás da extensa planície, no sul. Ilije está de uniforme. Na boca, carrega uma folha de grama que cresceu apenas nesse verão, no bolso do uniforme, carrega um inverno com dias riscados no calendário. E um retrato de Adina. O quartel fica na planície, uma colina e um bosque. A folha de grama é da colina, Ilije escreveu.

Quando Adina enxerga grama alta, ela pensa em Ilije e procura seu rosto. Ela carrega uma caixa de correio na cabeça. Quando a abre, ela está vazia, é raro Ilije escrever. Quando escrevo cartas, sei onde estou, ele escreveu. Quando temos certeza de que somos amados, escrevemos poucas cartas, disse Paul.

Enquanto a clêmatis estava verde, havia um homem na cabine telefônica. Sua testa era tão estreita que o cabelo começava já sobre as sobrancelhas. Porque sua testa é vazia, diziam os passantes, porque sua cabeça é de aguardente e porque a aguardente evapora. Onde a aguardente evapora não sobra nada, diziam os passantes.

O homem estava deitado e seus sapatos ficavam nos calcanhares. Ao passar por ali, dava para ver as solas, não dava para ver seus sapatos. O homem bebia e conversava sozinho em voz alta quando não estava dormindo. Os passantes se apressavam nesse ponto, avançavam sobre as próprias sombras. Eles passavam a mão pelo cabelo, como se houvesse pensamentos lá. Eles cuspiam, sem prestar atenção, na calçada ou na grama, porque a boca estava um pouco amarga. Quando o homem conversava sozinho em voz alta, os passantes desviavam os olhos, quando ele dormia, eles cutucavam com a ponta dos pés as solas dele até que ele gemesse. Os passantes não queriam acordar um cadáver em nenhum dos dias, mas a cada vez achavam que esse era o dia.

Havia uma garrafa apoiada na barriga do homem, seus dedos envolviam seu gargalo, ele segurava a garrafa, não afrouxava os dedos dormindo.

Há dois dias o homem afrouxou os dedos enquanto dormia, a garrafa tombou. Uma mulher cutucou a sola do sapato do homem. Depois se juntou o zelador do próximo bloco residencial, depois uma criança, depois um policial. O homem na cabine telefônica não gemia mais, sua morte cheirava a aguardente.

O zelador jogou a garrafa vazia do morto na grama e disse, quando uma alma morre, ela é a última coisa que a pessoa tomou antes de sua morte. Aquilo que o estômago não digeriu é a alma. O policial assobiou, uma carroça parou na rua. Um homem soltou o chicote e desceu do carro. Ele ergueu o morto pelos braços, o zelador pegou nos sapatos. Eles carregaram o peso rígido sob o sol como uma tábua, eles depositam a tábua sobre a carroça, sobre os vasos verdes de temperos. O homem cobriu o morto com um cobertor de cavalo, pegou o chicote. Ele açoitou o cavalo e estalou a língua com a boca torta.

 

A cabine telefônica ainda cheira a aguardente e há dois dias o vento faz um barulho diferente. A clêmatis cresceu desde então, ela continua florescendo com o mesmo azul, sobre o disco do telefone há números caolhos. Adina disca na cabeça e conversa até acabar a rua onde estava o morto.

Estou na outra ponta, ele diz.

Você está pele e osso, você está uma tábua, ela diz.

Não importa, ele diz, sou uma pessoa inteira, meio louco e meio bêbado.

Mostre suas mãos, ela diz.

Vinho na boca, conhaque no estômago, aguardente na cabeça, ele diz.

Ela olha os sapatos dele, ele bebe em pé.

Pare, ela diz, você está bebendo com a testa, você não tem boca.

Há um grande rolo de arame na ponta da rua, ele está enferrujando. Em volta, a grama é amarela. Atrás do rolo de arame fica uma cerca, atrás da cerca, um quintal e um barracão de madeira. No quintal, um cachorro puxa sua corrente pela grama. O cachorro nunca late.

Ninguém sabe o que o cachorro vigia. De manhãzinha e à noitinha, quando está escuro, aparecem policiais. Eles falam com o cachorro, lhe dão de comer e não terminam de fumar seus cigarros até o fim. São três policiais, dizem as crianças dos blocos residenciais. Como nos quartos só há velas acesas, elas enxergam do lado de fora do barracão três cigarros ardendo. As mães tiram as crianças de perto das janelas. O cachorro se chama Olga, dizem as crianças, mas não é uma cadela, é um cachorro.

O cachorro olha para Adina todos os dias, a grama se espelha nos olhos dele. Todos os dias Adina diz olga para que ele não lata.

Há folhas amarelas debaixo dos álamos, na grama. Os álamos diante da escola são teimosos, ficam verdes antes de outros álamos da cidade, já em março. Porque o campo fica atrás da escola e a escola fica na periferia da cidade, dizem os professores. E no outono os álamos diante da escola ficam amarelos antes de outros álamos da cidade, já em agosto. Porque as crianças mijam nos caules feito os cachorros, diz o diretor.

Os álamos ficam amarelos por causa da fábrica onde as mulheres fazem comadres vermelhas e prendedores de roupa verdes. As mulheres emagrecem e tossem e os álamos ficam amarelos. Mesmo no verão as mulheres da fábrica usam ceroulas até os joelhos e elásticos. Todos os dias, elas metem tantos pregadores nas ceroulas até que suas pernas e barrigas estejam tão estufadas que os pregadores não façam barulho enquanto caminham. No centro da cidade, na praça da ópera, os filhos das mulheres carregam os pregadores em barbantes nos ombros e os trocam por meias, cigarros ou sabonete. No inverno, as mulheres também escondem comadres cheias de pregadores de roupa nas ceroulas. Não dá para vê-las debaixo dos sobretudos.

O sino toca através dos álamos, sobre o pátio da escola. Não há ninguém no pátio, ninguém nos corredores. A aula não vai começar. As crianças estão sentadas sobre o caminhão diante da escola, sob os álamos. Elas serão levadas para trás da cidade, em campos distantes, até os tomates maduros.

Tomates pisados de ontem, de anteontem, de semanas, de manhã à noite, estão colados em seus sapatos. Tomates esmagados estão colados em seus bolsos, nos gargalos de garrafas d’água, nas jaquetas e camisas e calças. E sementes de grama, ervas-dos-ninhos e pelotinhas de cardos murchos.

A penugem dos cardos é para o travesseiro dos mortos, dizem as mães quando os filhos voltam tarde da noite do campo, o óleo das máquinas come a pele, elas dizem, mas a penugem dos cardos come a razão. Elas acariciam o cabelo dos filhos por um tempo. No meio da carícia, os esbofeteiam. Depois, os olhos dos filhos e os das mães ficam olhando a luz das velas por um tempo, mudos. Os olhos têm culpa, diante da vela isso não aparece.

Há pó grudado nos cabelos das crianças, ele deixa a cabeça teimosa e entorta o cabelo. Encurta os cílios, endurece os olhos. As crianças sobre o carro não falam muito. Elas olham os álamos e comem os pães contados, frescos. As cadeias de verrugas são ágeis, eles fazem um buraco na casca. As crianças comem o miolo primeiro. Ele é branco, não está assado, é massa anestesiada pelo calor do forno, gruda nos dentes. As crianças mastigam e dizem que estão comendo o coração. Elas amolecem as cascas com saliva, formam chapéus, narizes e orelhas com elas. Depois, seus dedos cansam e a boca não está satisfeita.

 

O motorista fecha o porta-malas. Falta um botão na sua camisa, o volante toca seu umbigo. Há quatro pães diante do vidro. O retrato de uma cantora sérvia loira está colado ao lado do volante. O bonde passa quase raspando, o motorista amaldiçoa a mãe de todos os bondes.

Passando a cidade não há direção. Tocos de trigo sem fim, até os olhos não enxergarem mais essa cor branca. Apenas a vegetação e o pó sobre as folhas.

Colheitadeiras são altas, diz o motorista, isso é bom porque quando estamos sentados no alto não vemos os mortos deitados no trigal. Seu pescoço é peludo, o pomo de adão entre a camisa e o queixo é um rato saltador, o trigo também é alto, ele diz, enxergamos apenas os olhos dos cachorros e dos soldados. O trigal é baixo apenas para a fuga. Adina se segura nos joelhos, um pássaro se equilibra na beirada do campo, come uma rosa-mosqueta sobre o galho mais alto, um milhafre-real, diz o motorista, quando dizemos campo-santo estamos nos referindo ao cemitério. Manejei colheitadeira, fiquei por três verões na fronteira, sozinho no campo durante a colheita, e por dois invernos fiquei no arado, somente à noite no arado. O campo tem um fedor doce, o trigal deveria se chamar campo-santo. E uma boa pessoa vale tanto quanto um pedaço de pão, dizemos, os professores dizem isso aos alunos na escola. O milhafre-real fica sentado no campo como se sua barriga estivesse aparafusada aos tocos, ele não se mexe. Como o campo de tocos é duro e vazio, como a barriga do pássaro é mole, o céu forma duas nuvens brancas enquanto os tocos sugam o pássaro. O canto do olho do motorista pisca, o abrunheiro está carregado com bolinhas verde-azuladas e não se assusta com as rodas. Não se deve dizer às crianças que uma pessoa vale um pedaço de pão, diz o motorista, as crianças acreditam nisso e não conseguem mais crescer. E não devemos dizer isso aos velhos, eles sentem quando estamos mentindo e ficam pequenos feito crianças, porque não se esquecem de nada. Seu pomo de adão salta do queixo à camisa, minha mulher e eu, ele diz, conversamos apenas de noite, quando não conseguimos dormir. Minha mulher quer ser boa, ela não compra pão. O motorista ri porque o veículo solavanca nos buracos, ele olha para o campo, então eu compro o pão. Comemos e achamos gostoso, minha mulher também acha. Ela come e chora e fica mais velha e mais gorda. Ela é melhor do que eu, mas quem ainda é bom por aqui? Quando seus olhos saltarem das órbitas, ela vai vomitar em vez de gritar. Ele mete a camisa na calça, ela vomita em silêncio para os vizinhos não ouvirem nada, ele diz.

O caminhão está parado na estrada do campo, as crianças saltam na grama. A grama é alta, as pernas das crianças somem lá dentro. Moscas zunem das caixas vazias de tomates. A barriga do sol é vermelha, a plantação de tomates vai até o vale.

O agrônomo espera ao lado das caixas. Ele se agacha, procura fiapos de grama nas pernas da calça, a gravata voa diante de sua boca. Ele tira os fiapos com a mão. Os fiapos estão presos nas mangas, nas costas, eles o escalam mais rápido do que o agrônomo consegue tirá-los. Ele amaldiçoa a mãe de todas as gramas. Ele olha para o relógio, o mostrador e a grama queimam sob o sol. Quando está brilhando, ela indica sua avidez, que não teme qualquer caminho para se espalhar. Até no vento ela se pendura. Se não existisse a plantação, embaixo, ela cresceria no alto sobre as nuvens, e o mundo estaria repleto de grama e mato.

As crianças pegam as caixas, as moscas se sentam sobre as cadeias de verrugas. Elas estão bêbadas de tomates secos, elas brilham e picam. O agrônomo ergue a cabeça, fecha os olhos e grita, hoje vou dizer pela última vez, vocês estão aqui para trabalhar, todos os dias os tomates maduros continuam nos galhos e os verdes são colhidos, e os vermelhos são pisoteados no chão. Há um fiapo de grama no canto da sua boca, ele o procura com a mão, não encontra, ele grita, vocês vão estragar mais do que ajudar a agricultura, isso é uma vergonha para a escola de vocês. Ele encontra o fiapo de grama com a boca e o cospe, quinze caixas por dia, ele diz, essa é a regra. Não é para ficar bebendo água o dia inteiro, ao meio-dia tem uma pausa de meia hora, aí é para comer, beber e ir ao banheiro. Há uma bolota de cardo no cabelo do agrônomo.

As crianças vão de duas em duas para a plantação, entre elas balançam as caixas vazias. As alças estão meladas dos tomates amassados, as plantas estão carregadas com um verde bilioso e vermelho. Até os menores galhos. As cadeias de verrugas colhem até sangrar, os tomates vermelhos enfeitiçam os olhos, as caixas são fundas e nunca ficam cheias. Do canto da boca das crianças pinga um suco vermelho, tomates voam ao redor de suas cabeças e estouram e tingem também as bolotas de cardo.

Uma menina canta:

Eu caminhava por uma trilha lá em cima

e encontrei uma donzela lá embaixo

A menina mete um sapinho no bolso da calça, vou levá-lo para casa, ela diz, ela fecha o bolso com a mão, ele vai morrer, diz Adina. A menina ri, não importa, não importa, ela diz. O agrônomo olha para o céu, cata uma bolota de cardo com a mão e assobia a canção da donzela. Dois garotos estão sentados sobre uma caixa cheia até a metade, gêmeos, ninguém consegue distingui-los entre si, são um mesmo garoto duas vezes.

Um dos gêmeos enfia dois tomates gordos, vermelhos, debaixo da camisa, o outro acaricia os peitos de tomate com ambas as mãos, ele dobra os dedos, ele amassa os tomates na camisa e olha com os olhos vazios para a menina com o sapinho. A camisa fica vermelha, a menina com o sapinho ri. O gêmeo com os tomates amassados arranha o rosto do outro, os gêmeos se engalfinham no chão. Adina estica a mão na direção deles e a puxa novamente, qual dos dois começou?, ela pergunta. A menina com o sapinho dá de ombros.