A Raposa Já Era o Caçador

Herta Müller · Capítulo 13 de 33

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A Raposa Já Era o Caçador

A folha de grama na boca

 

Uma mulher está na janela em frente regando as petúnias. Ela não é mais jovem e ainda não é velha, Paul disse já há anos. Naquele tempo, ela tinha cabelo castanho-avermelhado, de cachos largos, naquele tempo, quando Paul ainda morava com Adina. E naquele tempo o vidro da janela já estava rachado, torto. Passaram-se cinco anos, eles não alteraram o rosto da mulher. O cabelo não ficou mais liso, não ficou mais opaco. E as petúnias-brancas mudam todos os anos, mesmo assim são as mesmas.

Naquele tempo as petúnias-brancas já estavam penduradas para baixo, naquele tempo a mulher já não via nada além dos caules tortos. Ela não via os funis brancos.

Quando alguém levantava a cabeça embaixo, na rua, elas já estavam penduradas tão no alto, entre todas as janelas, de modo que quem não soubesse que as pequenas manchas brancas eram petúnias enxergava meias de crianças ou lenços esvoaçados pelo vento do verão até o outono.

Adina está sobre a pele de raposa diante do armário semiaberto. Ela procura a saia cinza de pano. As saias leves de verão estão penduradas para fora, as saias de inverno para dentro, sobre o cabide. Quando o calor e o frio se trocam entre si, as roupas trocam de posição no armário. Nessa hora Adina percebe há quanto tempo Ilije está fora. As roupas dele não trocam de nenhum cabide, de nenhuma gaveta, de nenhuma prateleira. Ficam lá como se ele não vivesse. Seu retrato está na parede, ele com os pés na grama. Mas a grama não lhe pertence e os sapatos não lhe pertencem. Nem a calça, a jaqueta, o quepe.

Certo dia, há dois verões, uma voz chamou lá de baixo, alto, pelo nome de Adina. Adina foi até a janela. Ilije estava bem próximo do lado das petúnias do outro bloco de apartamentos. Ele ergueu a cabeça e perguntou: para quem estão florindo? E Adina gritou: para si mesmas.

 

Adina veste a saia cinza. Seu pé escorrega no pelo da raposa. O rabo da raposa se afasta da pele. Rasgou debaixo do seu sapato, lá onde a faixa de pelo fica clara e fina nas costas. Ela arruma a raposa com os pelos para baixo, olha o verso, uma textura tão branca e enrugada feito massa velha. Os pelos em cima e a pele embaixo são mais quentes do que o chão e mais quentes do que suas mãos.

Apodrecida, embolorada, pensa Adina. Empurra o rabo de raposa até a pele, até ficar parecendo como se tivesse grudado de novo; da moldura do retrato, Ilije olha para as mãos dela com as roupas que não são dele, com os olhos que não são dele. Ele está segurando uma folha de grama na boca.

Apodrecer, embolorar é molhado, pensa Adina, uma pele seca assim esturrica como uma folha de grama. Nesse retrato, a folha de grama é a única coisa que pertence a Ilije. A folha de grama envelhece seu rosto. Adina vai à cozinha. A mulher rega as petúnias-brancas até diante da janela da cozinha.

Elas se abrem pela manhã, quando chega a luz, e se fecham à noite, quando acinzenta. Abrem e fecham os funis todos os dias, dão mais de uma volta em outubro. Elas têm um mecanismo de relógio como o escuro e o claro.

Sobre a mesa da cozinha há uma faca, cascas de marmelo e meio marmelo. O corte secou ao ar como a parte de baixo da pele da raposa, mas tão marrom como o pelo da raposa. Uma barata está comendo da cobra de casca de marmelo.

Seria preciso segurar um marmelo e uma faca, descascar uma cobra de casca de marmelo, pensa Adina, comer um marmelo descascado que pressiona a gengiva. Seria preciso morder, mastigar, engolir e fechar os olhos até que o marmelo da mão chegasse ao estômago.

Adina põe as mãos sobre a mesa da cozinha e o rosto nas mãos. Ela prende a respiração.

Seria preciso pensar que nunca deixamos meio marmelo sobrando, porque ele resseca feito uma pele, esturrica feito uma folha de grama. Depois de comer um marmelo inteiro, quando ele saiu da mão e chegou ao estômago, diz Adina com as mãos sobre a mesa, seria preciso abrir os olhos e ser outra.

Uma que nunca come marmelos.