A Raposa Já Era o Caçador

Herta Müller · Capítulo 3 de 33

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A Raposa Já Era o Caçador

O topete

 

O jornal é áspero, mas o topete do ditador tem um brilho claro sobre o papel. Ele está encerado e brilha. Ele é feito de cabelo amassado. O topete é grande, ela empurra mechas menores para trás da cabeça. Elas são engolidas pelo papel. No papel áspero está escrito: o mais amado filho do povo.

Aquilo que brilha vê.

O topete brilha. Ele olha todo o país todos os dias. A moldura do retrato do ditador no jornal ocupa metade da mesa, todos os dias. Debaixo do topete, o rosto é como ambas as mãos quando Adina as coloca lado a lado, viradas para cima, olha reto para o vazio e engole a própria respiração.

A pupila do ditador é igual à unha do polegar de Adina, quando o polegar se curva sem pegar nada. Do jornal, a pupila olha todos os dias para o país.

O nervo óptico corre pelo país. Cidades e vilarejos, às vezes juntados à força, às vezes separados à força, caminhos se perdem pelos campos, terminam em túmulos sem pontes ou diante de árvores. E árvores, onde ninguém as plantou, se sufocam. Cães perambulam. Onde não há casas, eles desaprenderam há tempos como latir. Eles perdem uma pelagem de inverno, depois uma pelagem de verão, às vezes são tímidos, às vezes são violentos quando não estamos preparados. Eles têm medo e, ao andar, tropeçam antes de morder.

E as pessoas, lá onde a luz da pupila as atinge, estão no país e têm lugares debaixo dos pés que sobem íngremes às gargantas e descem íngremes às costas.

 

Também o café, também o parque, também mesas e cadeiras de metal. Estão curvados em forma de folhas e caules, brancos e finos como linhas. Pesadas são apenas as cadeiras, quando as erguemos ou empurramos para longe. Pegamos nelas somente com os dedos e já olhamos para a água porque não contamos com o metal nas mãos.

O caminho ao lado do café segue o rio, o rio segue o caminho. Pescadores estão junto ao rio, lá está novamente, dentro da água, a pupila. Que brilha.

Aquilo que brilha vê.

As sombras de álamos caem pelas escadas da margem, quebram-se nos cantos e não mergulham. Quando o bonde passa sobre a ponte, as sombras empurram para o curso d’água sombras ainda menores, assim como o topete do ditador empurra mechas menores para trás da cabeça.

Luz dos álamos e sombra dos álamos, até a cidade inteira estar listrada. Paralelepípedos, montinhos de grama, água e bancos.

Ninguém caminha ao lado do rio, embora seja um dia de verão, embora pudesse ser um verão para um caminhar sem rumo pelo rio.

Os pescadores não confiam no verão listrado. Eles sabem que, no lado de baixo, as sombras dos álamos permanecem sendo o que os álamos são, no alto: facas.

Os peixes não se aproximam, dizem os pescadores. Quando uma listra escura dos álamos cai sobre os anzóis, eles pousam as varas sobre grama mais clara e lançam as linhas numa superfície clara da água.

Uma mulher caminha ao lado do rio. Ela carrega um travesseiro, ele está amarrado, ela o carrega com ambos os braços, reto, o vento açoita às suas costas. Talvez haja uma criança dentro desse travesseiro, talvez um bebê, que dorme com duas cabeças, nas duas extremidades, onde os barbantes não estão tão presos. Os braços da mulher são bronzeados, as panturrilhas tão brancas como o travesseiro. Um pescador observa as panturrilhas. O traseiro dela balança. O olhar do pescador cai na água, cansado e pequeno pelos álamos de ponta-cabeça. Os olhos do pescador sentem a noite minúscula. Ela se alonga sobre o nariz no meio do dia. Os dedos tocam o bolso da calça, colocam um cigarro na boca. A chama é clara no canto da boca, a mão cresce e a cobre, o vento chega.

Os pescadores pescam grama afogada do rio, meias carcomidas e cuecas inchadas. E uma vez por dia, quando as varas ficam tortas e os fios estão bêbados da terra, eles pescam um peixe ensebado. Poderia ser um gato morto.

A tarde minúscula sobre o nariz rouba tudo. E proíbe aquilo que não pode roubar. Ela proíbe a sorte, dizem os pescadores, o verão listrado devora a sorte da pescaria.

Há vagens penduradas nos álamos, que não são sementes nem frutos, dedais tortos para os insetos, para moscas e larvas das folhas. Eles caem dos álamos e caminham sobre o jornal. Adina empurra os insetos com a ponta do dedo sobre o topete do ditador, as moscas vão atrás dos pelos na orelha, as larvas das folhas percebem o brilho claro e se fazem de mortas.

A garçonete abaixa a bandeja, olha o rosto sobre a mesa, seu osso malar bate, sua orelha arde. Ela olha para o lado, tão rápido que o medo tensiona uma veia azul na têmpora, ela põe o copo sobre a testa, sobre a mesa. O refresco é ralo e levanta borbulhas amarelas, a mecha da testa está dentro do copo. Adina bate com a colher, a colher brilha, o refresco, aquilo que brilha vê. Uma agulha quente está sobre a testa, o bonde passa sobre a ponte, ondula o rio. Adina solta a colher, não pega no copo, sua mão é como a colher. Adina espera por Clara e Paul. Ela vira a cabeça.

O parque fica atrás do telhado plano do café, atrás dele há telhados pontudos. São as ruas dos diretores, inspetores, dos prefeitos, funcionários do serviço secreto e oficiais. As silenciosas ruas do poder, onde o vento fica com medo quando bate. E, quando sopra, não rodopia. E, quando fica tormentoso, prefere quebrar as próprias costelas a um galho. As poucas folhas secas arranham os caminhos, cobrem as pegadas logo após os passos. As ruas não notam o caminhante que não mora lá, que não é de lá.

As silenciosas ruas do poder estão em meio a uma névoa que espraia os galhos no parque e consente o ouvir, que oferece o caminho ressoante ao lado do rio, que faz com que os passos em ambas as margens, ainda sobre a grama cortada, sejam verticais, com o joelho colado da garganta. Os caminhantes não querem chamar a atenção ali, eles andam íngremes e devagar. Mesmo assim, correm, estão atiçados na garganta. E, quando os caminhantes chegam à ponte, a cidade os cobre com ruídos despreocupados. Eles respiram aliviados, o bonde passa fazendo barulho, tira a testa e o cabelo do silêncio.

Os senhores das ruas tranquilas nunca são vistos nas casas e nos jardins. Atrás dos pinheiros, sobre as escadas de pedra, há empregados. Quando os pés dos empregados tocam a grama, eles erguem as tripas até o pescoço para não estragá-la. Quando cortam o gramado, há um espelho no branco de seus olhos — e a foice e o rastelo brilham como tesoura e pente. Os empregados não confiam na sua pele porque suas mãos fazem sombras quando tocam em algo. Suas cabeças sabem que eles nasceram por meio de mãos sujas em ruas sujas. Que suas mãos, agora no silêncio, não se tornarão limpas. Somente velhas. Quando os empregados olham o interior das geladeiras dos senhores, os olhos se assustam porque um quadrado de luz cai sobre os pés. O relógio de parede tiquetaqueia, a cortina se estufa, o rosto gela por causa daquilo que eles pensam. A carne está embalada em celofane, o celofane está recoberto por geada, geada branca, como a pedra, o mármore no jardim.

Nos jardins das ruas tranquilas não há anões de jardim com gorros. Nos jardins há pedras tristes, descalças até a cabeça. Leões nus, tão brancos quanto cães recobertos por neve, e anjos nus sem asas, como crianças recobertas de neve. E no inverno, quando a geada gira ao redor do sol, também ali a neve se torna amarela e se quebra, sem degelar.

Os empregados moram nos porões, debaixo das casas. O que eles fazem à noite, durante o sono, está mais próximo de baratas e ratos do que dos pisos de cima. Os empregados homens foram para baixo da terra, os filhos dos empregados cresceram e saíram de casa. As empregadas são viúvas.

Uma professora da escola de Adina é filha de uma empregada. Minha mãe é empregada na casa amarela atrás do jardim redondo, a professora disse para Adina. No outro lado do rio, ela ergueu o indicador acima da cabeça e mostrou a casa para Adina. Seus olhos estavam baços, ou apenas seu olhar tinha se petrificado, porque o dia estava muito frio e a água, próxima. Ela ria baixinho no alto da ponte, o bonde passou, esmagou as risadas. À noite, disse a filha da empregada, quando já está escuro, o senhor volta para casa, ele é oficial, ele passa seus dias bebendo no cassino dos militares na praça da Liberdade. À noite, é o caminho que o encontra, não ele o caminho. Antes que vá embora, as garçonetes colocam seu quepe ao contrário em sua cabeça. Dessa maneira ele vai cambaleando sobre as ruas, até que o caminho de casa o encontre, a aba do quepe na nuca. A cada noite, disse a filha da empregada, acontece a mesma coisa nessa casa: delta do danúbio. O sino bateu na torre da catedral, a filha da empregada olhou para cima, riu e riu, o bater dos sinos estava pendurado em sua língua. Adina sentiu mais uma vez, nas vitrines, a proximidade da água. A filha da empregada se curvou, olhou para os sapatos de baixo. As solas estavam diante de seus olhos, não gosto dos saltos, ela disse. Sua boca se repuxou, disse delta do danúbio e voltou a falar do oficial.

Quando o oficial sobe as escadas entre os leões, sua mulher escuta as botas se arrastarem. Ela diz para minha mãe: delta do danúbio. Minha mãe pega uma panela com água quente da cozinha e a leva para ele, no banheiro. Ela despeja a água numa bacia que está no chão. Ela despeja outro tanto de água fria, até que a bacia fique cheia até a borda e a água esteja morna. A mulher do oficial fica esperando no corredor. Antes de a chave virar por fora, ela abre a porta por dentro. Ela tira a pasta de sua mão, o quepe de sua cabeça e diz delta do danúbio. O oficial grunhe e assente. Ele atravessa a sala atrás da mulher até o banheiro. A mulher já está sentada sobre a tampa fechada da privada, ele tira as botas e as deixa diante da porta. A mulher diz, tire a cegonha. O oficial tira a calça do uniforme e a entrega à mulher, que dobra a calça e a pendura no braço. Ele tira a cueca e agacha com as pernas abertas sobre a bacia, fica de joelhos e observa os azulejos azuis sob o espelho. Seu membro está pendurado na água. Quando seus testículos mergulham na água, a mulher diz, bom. Quando seus testículos flutuam na superfície da água, ela chora e grita, você trepou até esvaziar, até suas botas estão moles. O oficial encolhe a cabeça entre os joelhos, olha os testículos nadadores, eu te juro, ele diz, meu amor, eu te juro.

A filha da empregada olhou para o arbusto pelado que encostou no seu sobretudo, minha mãe não sabe o que ele jura, ela disse, o espelho está manchado, ele repete seu juramento. Sua mulher está calada faz tempo, daí ele chora. No caso dele, são somente lamúrias; no caso dela, é mais. Minha mãe se senta na sala, sua cadeira fica no final da mesa comprida. Ela olha o banheiro, se envergonha até o último fio de cabelo. Ela esconde as mãos, que tremem, debaixo do tampo da mesa. Quando minha mãe mexe o sapato de usar em casa, a mulher diz, Lenuza, você fica. E ela diz ao oficial, meta a cegonha na calça. Ele se levanta e veste a cueca. Ela passa pela sala com a calça no braço, toca a cada passo o canto da mesa, depois o ombro de mamãe. Ela diz, Lenuza, leve embora, e volta para a porta do quarto usando o canto da mesa como corrimão. Com as botas nas mãos, ele a segue.

A filha da empregada soprou ar quente nas mãos. Meu sobretudo não tem bolsos, ela disse, ele é da mulher. Minha mãe arruma o banheiro e apaga a luz. Na verdade, eu não acredito nisso tudo, disse a filha da empregada, que esfregou os dedos no sobretudo, cutucou os botões com as unhas e produziu um ruído como se pedras estivessem caindo sobre pedras.

Minha mãe nunca mentiu, disse a filha da empregada, o oficial ronca atrás da porta do quarto, a mulher cantarola uma canção:

As rosas no jardim

florescem mais uma vez

mais uma vez tão belas

as rosas no jardim

Minha mãe conhece a canção, a mulher a canta todas as manhãs na cozinha. Minha mãe caminha na ponta dos pés, mas o piso estala. A mulher escuta e, quando minha mãe está diante da porta da sala, ela diz, Lenuza, dê duas voltas na chave. A mulher tem medo que o anjo de pedra passe pela casa durante a noite, diz a filha da empregada. Por isso há os leões. A mulher diz às vezes para mamãe, o anjo dele não consegue passar entre meus leões. O oficial comprou o anjo contra os leões da sua mulher. Os anjos e os leões são do mesmo canteiro, minha mãe diz, eles não se atracam. O oficial sabe disso, disse a filha da empregada, a mulher não sabe. Pela manhã, quando o oficial está com o quepe e as botas, a mulher escova a jaqueta do seu uniforme no corredor. Ele se abaixa devagar e pega sua maleta, e ela se abaixa e escova. A escova é tão pequena que minha mãe, na época em que estava não havia muito na casa, não a enxergava na mão da mulher. Minha mãe tinha se espantado com a mulher fechando a mão para passá-la sobre a jaqueta do oficial. Certa vez a escova caiu de sua mão. A mulher tem mãos muito pequenas, até aquele dia minha mãe achava que a mulher não conseguia segurar nada nas mãos sem que se percebesse. Ela é muito grande, essa mulher, disse a filha da empregada, nunca vi mãos tão pequenas numa mulher tão grande. Quando o oficial sai, a mulher se posta na janela e o observa. Duas casas adiante e ele sumiu, ela espera até vê-lo novamente no início da ponte, em seguida sobre a ponte. A mulher diz que tem medo de que ele sofra alguma coisa justo pela manhã, sobre a ponte, quando está sóbrio.

E há ainda a história do frasquinho de perfume, disse a filha da empregada. A mulher o carrega escondido na bolsa, há anos está vazio. O vidro traz uma rosa gravada, a tampa um dia foi dourada, mas nesse meio-tempo ela ficou gasta de tanto ser carregada. Na borda da tampa leem-se letras do alfabeto cirílico, o frasquinho deve ter contido um perfume russo. Há anos, esteve na casa um oficial russo, sobre o qual nunca se fala, um sujeito de olhos azuis. Pois a mulher diz vez ou outra que os oficiais mais bonitos têm olhos azuis. Seu marido tem olhos castanhos e vez ou outra diz à mulher, você está com fedor de rosas de novo. O frasquinho deve lembrar algo especial, algo triste, disse a filha da empregada, ela umedeceu o lábio inferior e estacionou a ponta da língua no canto da boca. Deve ter havido algo que descerrou um desejo e trancou uma porta, ela disse, pois a mulher se transforma numa pessoa solitária não pela ausência do marido, mas por carregar o frasquinho vazio de perfume. Às vezes, sua mãe tem a impressão de que a cabeça da mulher está caindo para dentro do pescoço, para dentro da mulher, como se houvesse escadas na mulher, da laringe até os tornozelos, como se ela caminhasse com a cabeça por essas escadas para dentro de si. Talvez porque minha mãe more no porão, disse a filha da empregada. A mulher do oficial fica metade do dia sentada à mesa e seus olhos são de um vazio lancinante, girassóis ressecados. A filha da empregada limpou as narinas vermelhas com o lenço amassado, esfregou e meteu o lenço de volta na bolsa, amassado feito uma bola de neve. A mulher comprava sua mãe, ela disse, todos os anos, no Natal, lhe dava um par de sapatos para caminhar em casa de cordeiro legítimo; todas as semanas, grãos de café e chá russo.

Isso sou eu quem ganho, disse a filha da empregada, porque minha mãe economiza. Ela só não pode me dar os sapatos de andar em casa, porque a mulher perceberia. Ela conseguiu sumir com os penúltimos, disse que o cachorro do carteiro os tinha carregado e mordido tanto que não dava mais para usá-los. O carteiro negou, mas não conseguiu provar nada.

A filha da empregada disse que conseguiu a vaga na escola por causa da mãe, graças à mulher do oficial.

Há dois pescadores lado a lado no rio. Um deles tira o gorro da cabeça, o cabelo está achatado, há um barbante passando pela parte de trás da sua cabeça. Sem gorro, ele usa um gorro de cabelo branco. O outro pescador cospe cascas dentro do rio, elas nadam, por dentro são brancas e por fora, pretas. Ele segura uma mão cheia de sementes de girassol para o do gorro sem gorro, coma, ele diz, para que o tempo passe. O do gorro sem gorro empurra a mão cheia de sementes para longe de si, elas são como sementes de melão, ele diz. Quando voltei do front para casa, tudo aquilo que eles comiam aqui em casa era um cemitério para mim. Linguiça, queijo, pão, até leite e pepinos ficavam atrás da porta do armário da cozinha, debaixo de tampas, um túmulo. Agora, depois de anos, não sei, ele diz. Ele se abaixa, pega um cascalho, vira-o na mão, fecha o olho direito. Ele lança a pedra na água, lança de um jeito que a pedra toca a água e sobe novamente, toca a água quatro vezes e quatro vezes continua voando. A pedra dança sobre a água antes de afundar. O nojo passou, ele diz, mas eu ainda tenho medo do interior dos melões. O pescador com as sementes de girassol encolhe a cabeça, sua boca é fina, seus olhos são oblíquos. Ele deposita ambas as varas sobre a grama.

O sol está alto, está sobre a cidade. As varas produzem sombras, a tarde se aproxima nas sombras das varas. Se ela tombar, pensa Adina, se o dia escorregar, acabará por abrir covas fundas nos campos ao redor da cidade, o milho vai se quebrar.

Os pescadores ficam imóveis quando estão mudos. Eles não vivem quando não conversam entre si. Seu silêncio não tem motivo, são apenas as palavras que empacam. O relógio avança na torre da catedral, o sino toca, uma hora está vazia e ela passou, poderia ser hoje e amanhã. Ninguém a sente no rio, o toque vai abaixando na água e choraminga até cessar.

Os pescadores medem o dia pelo calor do céu e veem a chuva quando ela ainda está pendurada numa outra região pela fumaça da fábrica de fios. E sentem na ardência dos ombros o quanto o sol se levanta e quando vai começar a descer e sumir.

Quem conhece o rio viu o céu por dentro, dizem os pescadores. Quando a cidade escurece, o relógio na torre não consegue medir o tempo durante um período. O mostrador do relógio se torna tão branco que um brilho se solta e cai sobre o parque. Daí as folhas de dentes finos das acácias se parecem com pentes. Os ponteiros saltam, a noite não acredita neles. O brilho branco não dura muito.

Enquanto o brilho branco dura, os pescadores se deitam lado a lado, de bruços. Eles olham para o rio. Enquanto o brilho branco dura, o rio mostra a quem o conhece uma bile podre, dizem os pescadores. Trata-se do céu por dentro. A bile está no centro do fundo, não na superfície. Suas roupas são tantas que vão de uma ponte à outra. A bile está nua, ela segura as roupas nas mãos. São as roupas dos afogados, dizem os pescadores.

Os pescadores não observam a bile durante muito tempo, depois de rápidos olhares eles metem o rosto na grama e riem tanto que as pernas tremem. O pescador do gorro sem gorro não ri. Quando os olhos lhe perguntam porque suas pernas tremem, embora não esteja rindo, ele diz, quando enfio o rosto na grama, vejo na água meu cérebro nu.

No café, ao lado da última mesa, há um menino cigano. Ele ergue um copo vazio de cerveja sobre o rosto, o fio de espuma escorre devagar, sua boca engole antes de o fio de espuma chegar aos seus lábios. Pare de beber, diz Adina, você não tem boca, você bebe com a testa. Ela fala em voz alta, o menino está ao lado da sua mesa, me dê um leu, ele diz, estica a mão sobre o jornal. Adina deixa o leu ao lado do copo, ele puxa a moeda debaixo da mão e a tira da mesa. Que Deus te mantenha bonita e boa, ele diz. Ele fala de Deus e Adina não enxerga seu rosto ao sol, apenas dois olhos amarelos esbranquiçados. Beba refrigerante, ela diz.

Há uma mosca nadando no copo, ele a cata com a colher, sopra-a ao chão e mete a colher no bolso da calça.

Shoshoi, diz a garçonete.

O pescoço dele está seco, ouve-se um gorgolejo dentro de sua camiseta. Ele ergue o copo, toma-o de uma talagada só através de todo o rosto, até os olhos amarelos esbranquiçados. Ele mete o copo no bolso da calça.

Shoshoi, grita a garçonete.

Shoshoi é coelho na língua dos ciganos, Clara disse, ciganos têm medo de coelhos. Os ciganos têm medo de crendices, disse Paul, isso é pior, pois eles sempre têm medo.

Paul anotou num pedaço de papel o que um velho cigano, que tinha acabado de sair do hospital, podia comer. O homem não sabia ler. Paul leu para ele o que estava escrito no papel. Lá também estava escrito carne de coelho. Não posso ficar com esse papel, disse o homem, o senhor é distinto, o senhor precisa me escrever outro papel. Paul riscou carne de coelho com um traço, o homem balançou a cabeça. Continua escrito aí, disse ele, o senhor é médico, o senhor não é um homem distinto. Não entendeu como seu coração bate dentro do senhor. O coração que bate no coelho é o coração da terra, por isso somos ciganos, porque sabemos disso, meu distinto senhor, por isso temos de andar.

O menino cigano corre através das listras de álamos, elas o cortam, ele ergue as solas dos pés até as costas. A garçonete corre atrás das solas dos pés. O pescador com as sementes de girassol observa as solas voadoras. Como o cascalho sobre a água, ele diz.

O vento sopra nos arbustos, os olhos do menino estão nas folhas. A garçonete parou no meio do mato, ofega e fica à espreita com os cílios, todas as folhas farfalham, ela não vê o menino. Ela abaixa a cabeça, descalça as sandálias e volta devagar ao café com passos pequenos entre as listras dos álamos, descalça sobre placas de pedra. A sombra das sandálias está pendurada na sua mão. E pela sombra dá para perceber a altura dos saltos, a finura das tiras e como sob o anel da garçonete as fivelas brilham sobre a pedra. Você ganha mais se correr atrás de mim, diz o pescador com as sementes de girassol, sem sapatos suas pernas são grossas, sem salto você é uma camponesa.

O pescador com medo de melões coça a braguilha, durante a guerra, ele diz, estive num vilarejo. Me esqueci do nome. Olhei por uma janela, havia uma mulher sentada junto a uma máquina de costura. Ela estava costurando uma cortina de tule branco, que estava sobre o chão. Bati e disse água. Ela abriu e segurou a cortina diante de si até a porta. Havia uma concha no balde d’água. Esvaziei uma concha após outra, enquanto bebia observei suas panturrilhas, gordas e brancas. Eu só olhava para dentro do balde d’água, eu a via totalmente nua na água. A água estava fria e minha boca estava quente, meu pescoço batia nas orelhas. Ela me puxou para o chão, estava sem calcinha debaixo do vestido. A renda pinicava e sua barriga não tinha fundo. Ela não falou nada. Penso muitas vezes nisso, não ouvi sua voz. Eu também não disse nada. Apenas de volta à rua, falei água para mim mesmo.

O pescador com as sementes de girassol puxa um fio da barra da camisa com a boca, é por causa das panturrilhas, ele diz. Minha mulher geme quando estou deitado sobre ela; os vizinhos batem à noite na parede e gritam, pare de bater nela. Os gemidos não querem dizer nada, sei disso faz tempo, debaixo de sua camisola tudo é frio, apenas a boca grita. Fico deitado sobre ela e me acostumo à escuridão, vejo seus olhos arregalados, sua testa bem alta, amarelo-acinzentada feito uma lua e seu queixo caído. Vejo como ela repuxa a boca. Eu poderia espetar seus olhos arregalados com meu nariz, mas não faço. Ela geme como alguém que tem de erguer um armário, não como alguém que está gostando. Suas costelas são tão fortes que seu coração resseca, suas pernas ficam mais finas a cada dia. Dos tornozelos para cima não há mais nenhuma carne sobre as panturrilhas. Toda a carne do seu corpo cresce na barriga, que fica redonda e esticada feito a de uma ovelha gorda.

O pescador tira o sapato e o emborca, sacode, e um caroço de cereja cai no chão. Às vezes a lua está entre o teto e a parede no canto do quarto, ele diz. A lua tem um vinco de calça passada a ferro, posso enxergar os desenhos dos copos de vinho na cristaleira e as franjas do tapete. Repito o desenho das franjas do tapete com os olhos e faço o dia passar pela minha mente. O pescador do gorro sem gorro arranca uma folha de grama e a enfia na boca, mastiga, a grama entorta. Fazer o dia passar pela mente, diz o pescador com as sementes de girassol, não demora muito, os álamos, o rio. Hoje à noite vai demorar mais, hoje à noite tem a garçonete.

O pescador com a grama na boca ri, e o cigano, ele diz. Hoje à noite vai demorar mais, diz o pescador com as sementes de girassol; e adormecer, mais ainda. Escuto os grilos do lado de fora. A cama balança porque a camisola se vira. Os grilos guizalham, eles tecem um longo barbante, comem minha tranquilidade. Eles poderiam estar debaixo do bloco residencial. Paro de respirar, sinto que os grilos carregam o bloco residencial sobre as costas até o Danúbio, pela grama da grande planície. Quando adormeço, sonho que saio do bloco residencial e vou à rua. Não há rua. Estou de pijama, descalço, perto da água e sinto frio. Tenho de fugir, tenho de fugir pelo Danúbio, até a Iugoslávia. E não sei nadar.

Do outro lado do rio, dois homens estão sentados num banco. Usam uniforme. Suas orelhas estão transparentes pela lua, estão lado a lado feito folhas. Um usa uma gravata de bolinhas vermelhas e azuis. Há uma mancha de sombra no fim do banco, poderia ser um sobretudo, sem braços, sem colarinho, sem bolsos. Um desses que não existirá mais quando a luz tocar o galho seguinte. Ambos os homens comem sementes de girassol. As cascas voam rápido para a água. O vento ergue o galho, o sobretudo diminui.

 

O pescador do gorro sem gorro aponta com o canto dos olhos para os dois homens, ele cospe a folha de grama. Você conhece os sujeitos lá do outro lado?, ele pergunta. Eu realmente não sei nadar, diz o pescador com as sementes de girassol. Ele dá de ombros. Ele fala baixo.

Certa vez também vi minha mulher no sonho com o Danúbio, ele diz. Cheguei perto da água e ela já estava lá. Ela não me conhecia. Ela perguntou, do jeito que um estranho pergunta a outro estranho, você também quer fugir? Ela foi do cascalho, da água, até a outra direção. Lá havia salgueiros e arbustos de avelãs. Ela disse, a água está puxando, ainda preciso comer alguma coisa. Ela procurou debaixo dos arbustos. Como lá só havia vegetação de rio, ela procurou pelos galhos, arrancou as avelãs com os talos e folhas. Ainda não era época de as avelãs serem colhidas, ainda estavam envolvidas por toucas verdes. Ela as abriu com uma pedra redonda. Comeu e o leite escorreu por sua boca. Desviei o olhar, olhei para a água. Pai nosso que estais no céu e na Terra, eu disse. A cada palavra, eu escutava a pedra bater na minha boca. Não consegui continuar rezando, me senti louco. O Senhor escutava as pedras e as avelãs, não a mim. Virei-me para ela e gritei tão alto que a voz espetou meus olhos, venha até aqui, eu não consigo fugir, eu não sei nadar.

 

Sobre a testa do ditador há uma lagarta de folha e ela se faz de morta.

Adina vem com frequência a esse café porque ele fica do lado do rio, porque, a cada ano, o parque cresce um braço para cima, e no final do verão a madeira nova ainda está clara e macia. E porque é possível ver, nos galhos velhos, que o ano que passou ainda arqueia. A casca é escura e dura, as folhas têm ranhuras grosseiras, que o verão não acaba tão rápido. Quando chega o gelo, é outubro. Ele corta as folhas numa noite e se parece com um sinistro.

Como o bafejo do medo também está pendurado no parque, a cabeça fica fraca e enxergamos a própria vida em tudo o que os outros dizem e fazem. Nunca sabemos se aquilo que pensamos se tornará uma frase em voz alta ou um nó na garganta. Ou apenas um sobe e desce de uma narina.

Tornamo-nos atentos no bafejo do medo.

A fumaça sai voando das chaminés da fábrica de fios, rasga até restar apenas a imagem dos velhos do verão. E, embaixo, as roupas da bile podre.

Quando Adina se acostuma com o bafejo do medo, tocar o próprio joelho é diferente de tocar a cadeira. Nessa hora, as ruas tranquilas do poder se engancham no bonde sobre a ponte como o último vagão. E são puxadas para dentro da cidade, para a periferia, para as ruas sujas dos empregados. Pela lama seca é possível ver que as crianças cresceram e saíram de casa e que os homens foram para baixo da terra. As janelas estão coladas com jornais velhos, as viúvas — com as mãos à frente — fugiram para as ruas do poder.

Quando nos sentamos longamente no café, o medo se retrai e espera. E quando retornamos, no dia seguinte, ele já está a postos no lugar onde vamos nos sentar. Ele é uma lagarta das folhas na cabeça, a lagarta não vai embora. Quando ficamos sentados durante muito tempo, ela se faz de morta.

Clara sacode a cadeira, ergue o vestido, suas pernas estão recém-depiladas; de tão lisa, a pele tem uma sarda vermelha em cada poro. Ontem Mara teve de contar rolos de arame, ela diz, o diretor a chamou hoje, ele se postou na janela e conferiu os rolos de arame. Depois de terminar de contar, ele disse, suas pernas se parecem com as de um veado. Mara ficou vermelha e disse, obrigada. E o diretor disse, tão peludas quanto as de um veado.

Num bote, quatro mulheres remam na água. Seus músculos dos braços se parecem com barrigas. A quinta mulher segura um megafone diante da boca, ela grita no megafone sem olhar para as remadoras, ela grita para a água.

Clara caminha pelas listras dos álamos até a cidade. Seus sapatos fazem barulho ao lado do rio. O topete vê que os gritos do megafone se encaixam entre os passos de Clara.

O pescador do gorro sem gorro assobia uma canção.

O homem da gravata de bolinhas vermelhas e azuis se levanta do banco; andando, coloca a gravata na jaqueta; andando, cospe uma casca de semente de girassol; andando, se penteia na escada. Ele está sobre a ponte, ele segue as pernas de Clara, seu vestido de verão voa. Andando, ele acende um cigarro.

Adina abre um envelope branco, Paul segura o jornal diante do rosto, a unha de seu polegar está rachada. A pele de seu indicador está amarela, uma folha de tabaco cresce lá de tanto fumar. A carta é de Liviu, trata-se de um convite com duas alianças entrelaçadas.

Liviu é amigo de escola da Paul, há dois anos ele se tornou professor num pequeno vilarejo no sul, onde o Danúbio corta o país, onde os campos encostam no céu e os cardos desflorados lançam travesseiros brancos no Danúbio. No vilarejo, os camponeses tomam aguardente antes do café da manhã e vão para o campo, disse Liviu. E as mulheres recheiam gansos com milho besuntado de gordura. E o policial, o padre, o prefeito e os professores têm dentes de ouro.

Os camponeses romenos comem e bebem demais porque têm de menos, disse Liviu, e eles falam de menos porque sabem demais. E não confiam em estranhos, mesmo se eles comerem e beberem a mesma coisa, porque os estranhos não têm dentes de ouro. Os estranhos ficam muito sozinhos aqui, disse Liviu.

Esse é o motivo porque Liviu está se casando com uma professora do vilarejo, uma mulher que pertence ao lugar.