A Raposa Já Era o Caçador

Herta Müller · Capítulo 14 de 33

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A Raposa Já Era o Caçador

Rosto sem rosto

 

O gravador está ligado. Uma voz grave fala do alto-falante sobre a escrivaninha, kascholi, como se fala isso? karaczolny, diz uma voz pouco audível. Ou seja, húngaro, diz a voz grave, isso significa alguma coisa em húngaro? Natal, diz a voz pouco audível. A voz grave ri.

Pavel folheia uma pasta, segura torto uma foto sob a luz e ri. Ele ri por mais tempo e mais alto do que a voz grave.

Primeiro nome, diz a voz grave. albert, diz a voz pouco audível. E abi?, pergunta a voz grave. A voz pouco audível diz, é como meus amigos me chamam. E o seu pai?, diz a voz grave. Ele também me chamava de abi, ele não é mais vivo, diz a voz pouco audível. E a voz grave fica como a voz menos audível e diz, ah, certo. Quando ele morreu? E a voz pouco audível fica como a voz grave e diz, o senhor sabe exatamente. A voz grave diz, como assim? E a voz pouco audível diz, porque o senhor está perguntando. Ao contrário, diz a voz grave, não perguntamos o que sabemos. Um isqueiro estala no alto-falante. Naquela época eu ainda estava no jardim de infância, diz a voz grave, como o senhor. Seu pai também se chamava albert, como o senhor. O senhor ainda se lembra de seu pai? Não, diz a voz pouco audível. O senhor disse que seu pai o chamava de abi, diz a voz grave, e depois disse que não se lembrava mais dele. Isso é uma contradição. Não é contradição, diz a voz pouco audível, minha mãe me chama de abi. O que o senhor quer de mim?

E bem no começo o senhor disse que seus amigos o chamam de abi, diz a voz grave. Isso também é uma contradição. Veja, kascholi, o sobrenome, eu não sei falá-lo. A voz grave se torna parecida com a voz pouco audível. Veja, albert, diz ela, as contradições se relacionam. Ou será que eu posso chamá-lo de abi, como os seus amigos?, diz a voz grave. Não, diz a voz pouco audível. Isso deu para escutar bem, diz a voz grave. O que o senhor quer de mim?, diz a voz pouco audível.

Pavel segura uma foto sob a luz da lâmpada. Ela é velha, não brilha, apenas alguns feixes de luz riscam o céu, onde tudo está vazio. Pois onde ele termina há uma parede e encostado nela há um homem de rosto emaciado e orelhas grandes. Pavel anota uma data no verso da foto.

A voz grave tosse. Papel estala no alto-falante. Como aqui, diz a voz grave, e fica parecida com a voz pouco audível: fiquei maluco, estou apaixonado e ela me ama, meu amor é estúpido porque ela, apesar de tudo, não me ama de verdade. Isso também é uma contradição e as contradições se relacionam. Isso é uma canção, diz a voz pouco audível em alto e bom som.

Pavel consulta o relógio, guarda a foto na pasta, com o rosto para baixo. Ele desliga o alto-falante e fecha a gaveta. Tira o fone de ouvido, diante da janela há um álamo. Ele olha para fora, seus olhos são pequenos, seu olhar, tão molhado quanto o álamo. Seu olhar atravessa os galhos do álamo sem enxergá-los. Ele disca um número e o disco gira duas vezes, assim não é possível, ele diz, são quatro horas.

Ele fica em silêncio e olha para o álamo, o vento sopra, as folhas estão molhadas, seu isqueiro estala. O cigarro arde em brasa. Ele assopra a fumaça diante de si e bate a porta.

Escreva, diz a voz. Os olhos na testa são castanho-claros. Eles giram e se tornam escuros. E a pasta sobre a qual está o papel que os olhos leem tem a grossura de um dedo. E, do lado de fora, o vento sopra no álamo. A boca se move entre o telefone e a luminária da escrivaninha. E os olhos de Abi ficam presos no vidro da janela, e lá fora chove, não dá para ver a chuva caindo sobre o álamo, é como se o álamo não fosse nada. Apenas quando a chuva goteja das folhas é que se enxerga as bolinhas d’água caindo. Abi aperta os dedos na esferográfica. E no alto, no teto, uma lâmpada nua brilha tanto que os fios de luz não param quietos. Abi olha para o tampo frio da mesa. A esferográfica não é dele e a folha em branco não é dele. A voz grita e tropeça assim como os fios de luz não param quietos. Debaixo da voz, na dobra do queixo, há um pequeno ferimento de corte. Tem alguns dias.

A porta se abre devagar. Os olhos ao lado da lâmpada estão semicerrados. Eles não erguem o olhar, eles sabem quem vem.

Por trás do canto da mesa, Abi levanta os olhos da folha em branco e não tira a esferográfica da mão. O homem da gravata de bolinhas vermelhas e azuis chega até a mesa, estica a mão e olha para a folha em branco. E Abi enxerga uma pinta entre o colarinho e a orelha, estica a mão com a esferográfica entre os dedos. E o homem diz: pavel murgu e aperta a mão de Abi com a esferográfica.

Rosto sem rosto, então ele perdeu seu rosto, diz o corte, ergue a mão até a testa. Testa de areia, ou seja, cabeça sem razão. Voz sem voz, ou seja, ninguém escuta, ela diz. A pinta está sentada ao lado do corte e olha para fora através do vidro.

Talvez o homem com a pinta esteja olhando para o álamo, ele pode se dar a esse luxo, ele pode fugir com o pensamento, pensa Abi. Pois os olhos castanho-claros estão arregalados e são duros. Eles brilham e encaram Abi. Os olhos castanho-claros estão sobre seu rosto, que não lhe pertence, nas pontas dos dedos de Abi, em seu rosto, nas breves tomadas de ar que a boca de Abi furta da luz que cega.

É uma contradição alguém morrer e não ter túmulo, pensa Abi, e o fato de ele ter tido de dizer isso, ele pensa. E sua garganta bate e sua boca não se mexe. E é uma contradição ir, como filho de um morto, a uma cidade na qual há uma prisão e procurar em todos que moram aqui algo resistente ou destruído — e só encontrar o comum. Olhos comuns, passos comuns, mãos comuns, bolsos comuns. Nas vitrines, há fotos de casamento comuns, o véu da noiva no parque está disposto sobre a grama como espuma de água. E, ao lado, a camisa branca do terno preto é como neve sobre ardósia. E fotos de formandos comuns com enfermeiras. E é uma contradição que homens e mulheres comuns se encontrem em ruas da cidade e assustem o filho de um morto porque, em vez de como vai?, lhe perguntam como você vai levando a vida?

Rosto sem rosto, a quem se refere isso?, pergunta o homem com a pinta.

E é uma contradição, pensa Abi, que os presos — entre fome e açoites, no ritmo da tortura — tivessem de transformar sua culpa em móveis para uma moveleira. E eles próprios não tinham camas, apenas madeira cheia de nós e dedos calejados. E que casais jovens, sabendo disso ou não, comprassem depois do casamento essas cadeiras e cristaleiras feitas por essas mãos. E a altura vertiginosa do céu sobre o presídio é uma contradição nessa cidade. E que ela já estivesse lá antes, olhando e verificando que essa cidade está no eixo, no rastro de um raio de sol retíssimo, frio, onde corvos circundam os telhados, devagar e em silêncio.

Não é ninguém, diz Abi, trata-se de uma canção. E o corte pergunta, por que vocês cantam isso, se não é ninguém? Porque é uma canção, diz Abi.

É o presidente do país, diz a pinta. Não, diz Abi.

As paredes estão cheias de tomadas elétricas. Elas têm um focinho. No pé da luminária há números amarelos, um número de inventário.

Então você não está informado, diz a pinta, seu amigo Paul confessou e ele deve saber das coisas. Afinal, foi ele quem escreveu a canção, diz o corte.

Há um número amarelo no canto da escrivaninha e também na porta do armário. Paul não pode ter confessado isso porque não é verdade, diz Abi. A pinta ri e o telefone toca. O corte aperta o fone contra o rosto e diz: não, sim, ora, puxa. Bem. A boca sussurra algo à pinta e o rosto da pinta reflete apenas a luz clara e nenhuma emoção.

O corte diz, como você vê, seu amigo Paul não lhe diz tudo.

 

Escureceu atrás da janela, o álamo sumiu. A lâmpada se reflete, o teto, o armário e a parede, as tomadas elétricas e a porta. Uma sala como meia janela, encolhida e reduzida a vidro. E sem ninguém dentro.

Então escreva quem é, diz a pinta. E o corte diz, se ficarmos satisfeitos, você poderá sair. E, se não, você vai ficar e refletir, diz a pinta. O corte segura a pasta debaixo do braço. A pinta está junto à porta e sopra fumaça pelo nariz. Dá para refletir melhor a sós, diz o corte. Ele cospe sobre a ponta dos dedos e conta cinco folhas em branco. Os olhos castanho-claros são redondos e estão animados, há papel suficiente, dizem eles.

Gosto da parte da canção de vocês que não se refere a ninguém: a noite costura um saco da escuridão, diz a pinta.

A porta se fecha por fora. As chaves tilintam na porta. O chão se estica sob a luz. A fumaça dos cigarros é sugada até a janela escura. Fora isso, nada se mexe: a escrivaninha vazia está deitada, a cadeira está deitada, o armário está deitado, as folhas em branco estão deitadas. A janela está de pé.

É uma contradição, pensa Abi, que do lado de fora, na rua molhada, essa janela seja apenas uma janela. Que cada dia e cada noite e o mundo se dividam entre aqueles que interrogam e torturam, e aqueles que silenciam e silenciam. E é uma contradição que, no verão, uma criança pergunte pelo pai à mãe, diante da banheira enferrujada na qual crescem gerânios, ao lado da colmeia de abelhas no quintal. E que a mãe erga o braço do filho e dobre os dedos na mãozinha e estique o indicador e o levante. Que ela tire a própria mão e diga: veja, lá em cima. E que o filho erga apenas rapidamente a cabeça e só enxergue o céu, enquanto a mãe olha para os gerânios na banheira. Que o filho meta o indicador esticado nas fendas estreitas da caixa da colmeia até a mãe dizer, pare, você vai acordar a rainha. Que o filho pergunte, por que a rainha está dormindo?, e a mãe diga, porque ela está muito cansada. É uma contradição que uma criança puxe o indicador porque não quer acordar a rainha cansada e pergunte, como ele se chama? E que a mãe diga: ele se chamava albert.

Abi escreve na folha em branco:

karaczolny albert

mãe magda, nascida furak

pai karaczolny albert

A mão não se sente. Numa metade do vidro escuro da janela, lê-se sala 2. A lâmpada está acesa. Não há ninguém. Apenas três nomes sobre uma folha.

Pavel abre a porta. Os olhos de uma mulher olham por trás da mesa. Ela está segurando a caneta na mão. Sobre a mesa há uma folha. São três frases curtas, nomes tortos anotados. Vamos ver, diz Pavel, pega a folha e lê.

Suas mãos voam, a cadeira bate. A mulher bate com a cabeça no armário. Os olhos da mulher permanecem imóveis e arregalados. Os cílios inferiores são ralos e estão molhados. Os superiores, fartos e secos e curvados para cima feito grama. A porta se fecha.

O armário está curvo nos globos oculares da mulher. O silêncio é tamanho que os objetos se deitam ao sol. A mulher está deitada no chão, diante do armário. Seu sapato está debaixo da cadeira.

A sala 9 está iluminada numa janela com metade de vidro escuro. Não há ninguém lá.

 

Pavel abre o portão do jardim. Os troncos das bétulas brilham na grama preta. As chaves tilintam diante da porta da casa. A mulher de Pavel abre a porta por dentro antes de ele girar a chave.

Ela está com cheiro de cozinha, ele beija sua face. Ela carrega a bolsa dele para a cozinha. A testa de sua filha alcança seu cinto, até a ponta da gravata. Pavel a ergue, papai, seu cabelo está molhado, ela diz, e escorrega para baixo.

Pavel abre a bolsa, as fivelas estão frias e gastas. Ele coloca uma embalagem de café Jacobs, um pote de margarina para o café da manhã, um vidro de Nutella ao lado da televisão sobre o armário da cozinha. Um coral de trabalhadores está cantando, ele tira o som. Ele conta e diz doze e deposita doze carteiras de cigarro sobre a geladeira ao lado do cachorro de porcelana branca. O diretor do frigorífico está numa viagem de trabalho, amanhã ele volta, daí vou mandar o porteiro buscar a carne de vitela, ele diz. Ele põe o chocolate ao leite dos Alpes no prato de frutas, sobre as maçãs. Uma maçã rola do prato, Pavel segura-a. A filha estica a mão pelo chocolate. O pai pergunta, como foi na escola? A mãe mexe na panela e diz, nada de chocolate, agora vamos comer. E olha para o pai e leva a colher à boca e diz no olho desfeito da sopa, a escola não melhora por causa do chocolate.

O pai olha para a tela da televisão. Um homem e uma mulher estão diante do coro de trabalhadores. Eles deitam a cabeça para o lado de fora e saltitam, deitam a cabeça para o lado de dentro e saltitam.

Há um mês que estou falando para você, diz a mãe, você precisa ir à escola, você precisa falar com a professora. Todos lhe levam café, diz a filha, só nós que não. E isso acaba aparecendo nas notas, diz a mãe.

Ela sorve o olho de gordura em sua boca. Na tela da televisão, o homem saltita para a esquerda e a mulher saltita para a direita diante do palco. O pai pendura a jaqueta no encosto da cadeira.

Ela não vai receber café, diz o pai, no máximo uma porrada no olho. Se eu for falar com ela, seremos nós que vamos receber café.

Uma gota de sopa cai sobre a mesa. Não era vitela, diz a mãe, há sete anos era vitela. Agora a carne cozinha há horas e não fica macia. Era uma vaca velha. A filha ri, bate com a colher no prato. Um pedaço de salsinha está preso em seu queixo. A mãe empurra uma folha de louro do prato até a borda. Meus sapatos não vão ficar prontos até o Natal, ela diz. Prontos, sim, mas não para mim. Hoje o inspetor da escola foi com a esposa até a fábrica. Ela levou dois pares. Um par era cinza, embora, no início, ela quisesse um marrom. Depois os pretos não estavam bons, depois quis brancos com fivelas. Os pretos, esses eram meus, de verniz. E eles serviram.

A filha fez um bigode de um pedaço de carne. O pai lambe uma folha de salsinha da ponta do dedo. E o inspetor?, ele pergunta à mãe. Ela está olhando para o bigode da filha, ele contou para todo mundo que está com dois calos, ela disse, um no dedo do meio e outro no dedinho do pé.

Na tela da televisão, o presidente do país passa por um saguão de fábrica. Duas trabalhadoras lhe entregam buquês de cravos. Os trabalhadores aplaudem, seus lábios abrem e fecham no ritmo das mãos. Pavel se escuta dizendo, carros pretos há em todas as fábricas. E escuta Clara dizendo, mas você não trabalha em nenhuma fábrica. Ele estica o braço atrás de si e desliga a televisão.

O diretor da fábrica ficou três horas ajoelhado ao lado da cadeira da esposa do inspetor, diz a mãe. Os olhos dele estavam inchados, a boca, torta e amolecida. Suas mãos eram dois calçadores, passaram três horas enfiando os calcanhares da esposa do inspetor nos sapatos. Ele não conseguia mais esticar os dedos. E entre as provas ele lhe beijava as mãos. Você tinha de ver as panturrilhas dela. O pai puxa uma fibra de carne do dente. A filha está sentada diante da geladeira e remexe a bolsa do pai. Ela joga três gotas gordas de um frasco de perfume na mão. As panturrilhas, diz a mãe, são como as de um porco de abate, sapatos de verniz não ajudam. Ela tinha de usar galochas. Ela cheira a mão da filha, Chanel, diz, segura o cachorro de porcelana branca da geladeira na mão. Depois os trabalhadores imitaram diretor e madame, diz a mãe, arregaçaram a barra das calças até o joelho e caminharam para cá e para lá com os sapatos de salto, mostrando como a madame experimenta sapatos.

Há carne grudada no garfo, os olhos do pai estão cansados. O rosto da filha está sujo de chocolate, ao redor da boca há uma borda feito terra. A filha chora. O pai encosta o rosto nas mãos, sua testa está pesada. Rechearam as pernas das calças com toalhas para se parecerem panturrilhas, subiram nas mesas, puxaram as cortinas sobre o cabelo, ele escuta a mãe dizer. E não escuta. Ele escuta o milharal farfalhar no meio da testa. Ele escuta a voz de Clara dizendo, e se eu pensar no pior.

O diretor abriu a porta de supetão, diz a mãe, todos vão passar por um processo disciplinar, ele disse. Também as mulheres que assistiram e que riram. Eu também. Pavel escuta a risada de Clara no meio da testa. Ele pega a mão da mulher na sua. Ela pressiona a boca contra a orelha dele. O beijo inunda seu pescoço, seu rosto, sua testa. Ele escuta a própria voz dizendo para Clara, eu não trabalho no tribunal.

A orelha de sua mulher está ao lado da boca dele como uma folha jovem enrolada. Eu queria te dar o perfume esta noite, Pavel diz à orelha. E ele não se escuta.

Ele se escuta dizendo para Clara, sei que eu sei.