A Raposa Já Era o Caçador

Herta Müller · Capítulo 32 de 33

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A Raposa Já Era o Caçador

A estranha

 

As janelas luminosas andam e balançam para lá e para cá e permanecem nos trilhos. Nas ruas escuras, há pontos de luz. Há luz nas janelas de quem está acordado atrás das paredes. Quem já está acordado agora precisa ir às fábricas. As correias para se segurar balançam nas barras, o anão está sentado ao lado da porta. O trilho estridula. Ao lado de Clara há uma mulher com uma criança no colo. A cada parada a porta dá um coice e a criança suspira e o anão fecha os olhos e a porta se abre. E ninguém sobe, apenas a areia que o vento empurra para dentro. Não dá para vê-la. É como farinha, só que escura. Dá para escutá-la arranhando o chão.

E no canto, onde a cerca de aproxima do trilho e um galho bate na janela clara, a criança canta com uma voz ausente dentro do veículo:

O pensamento não sai de mim

Vender minha casa e minha terra

 

A mãe abaixa a cabeça e olha o chão vazio, o anão abaixa a cabeça, Clara abaixa a cabeça. Sob os sapatos, os trilhos também cantam. As correias para se segurar entortam-se e prestam atenção.

O alto-falante no portão da fábrica está mudo, a gata tigrada está sentada ao lado do portão, seus olhos são de alumínio verde. Os lemas nos galpões sumiram, estão no pátio. O anão vai até o arame, seus tijolos quebrados fazem barulho. A gata tigrada anda atrás dele.

Grigore é diretor, o diretor é supervisor, o zelador é administrador do campo, o supervisor é zelador.

Crizu morreu.

E pela mesma manhã, uma hora mais tarde, quando está mais claro do lado de fora e os blocos habitacionais formam uma manada no céu cinzento, Adina vai à escola. Há uma casca de pão na cabine telefônica quebrada. No final da rua há um grande rolo de arame. Diante do barracão de madeira há uma corrente vazia no pátio. O cachorro Olga não está mais lá.

No canto vazio mais sujo do pátio da escola, diante de uma parede, há um monte. Uma metade é de pano, cordões trançados, distintivos amarelos, ombreiras. A outra metade é de papel, lemas, brasões nacionais, brochuras e jornais com discursos e fotografias.

A criança com os olhos bem separados e têmporas estreitas está carregando uma fotografia diante do rosto. A foto traz um topete e a pupila. O topete bate no ombro da criança. Não vamos queimar as molduras, diz a filha da empregada. Ela arranca o topete da moldura, minha mãe ficou sozinha na casa do oficial, ela diz, o oficial está preso e sua mulher se escondeu. Os gêmeos trazem um cesto com gravatas de pioneiros e bandeiras vermelhas de pioneiros com franjas amarelas de seda.

A filha da empregada segura o fósforo junto ao monte, à metade de papel. O fogo sobe rápido, o papel duro se ondula como orelhas cinzentas, há quanto tempo espero por isso, diz a filha da empregada. O papel mole se desfaz, não dava para perceber isso em você, diz Adina. Os gêmeos espetam franjas de seda em brasa em paus e correm pelo pátio. O que eu devia fazer?, diz a filha da empregada, precisava ficar em silêncio, tenho uma filha. O vento sopra fumaça sobre a parede. A criança com os olhos muito separados está ao lado de Adina e escuta.

Eu sei, diz Adina, os homens tinham mulheres, as mulheres tinham filhos, os filhos tinham fome. A filha da empregada puxa uma mecha de cabelo pela boca, olha para o monte semicarbonizado, agora passou, ela diz, e estamos vivos. Na semana que vem venho visitar você.

A filha da empregada é diretora, o diretor é professor de educação física, o professor de educação física é chefe do sindicato, o professor de física é responsável por transformação e democracia.

A faxineira passa com a vassoura pelos corredores e tira o pó das paredes vazias, onde antes havia os retratos.

Na cidade há uma foto pendurada, sua boa pessoa atirou e você fez aniversário. Mesmo se estivesse estado aqui eu não poderia lhe dar nada, nem sapatos, nem vestido, nem blusa. Nem mesmo uma maçã. Adina apoia-se no portão, fumaça sobe do pátio da escola. Quando não se consegue dar nada de presente, ela diz, somos estranhos.

Ele não atirou, diz Clara, ele está no exterior. Suas pálpebras cintilam azul, tenho um passaporte, ela diz, o que devo fazer? Seus cílios são longos e espessos e tranquilos.

Você é uma estranha, diz Adina, o que você quer aqui?

E do alto, no quinto andar, dá para ver como uma tarde quente de inverno passa por trás da trincheira do estádio. E Adina e a filha da empregada acompanham-no com o olhar. Sobre a mesa há uma garrafa de aguardente e dois copos. Adina e a filha da empregada fazem um brinde e esvaziam os copos. Uma gota escorre de cada copo até o chão.

A filha da empregada trouxe a filha, ela tem dois anos e meio. Ela está sentada sobre o tapete e acaricia o rosto com o rabo da raposa. Ela fala consigo mesma. Adina enche os copos novamente. A vizinha com o cabelo castanho-avermelhado de cachos largos está junto à janela aberta.

A gata tem bigode, diz a criança. Sob seus dedos, a cabeça da raposa se separa do pescoço. A criança deposita a cabeça da raposa sobre a mesa.

Adina sente pela segunda vez um ruído na cabeça, parecido com um galho se quebrando. Só que diferente.

A filha da empregada ergue o copo.