A Raposa Já Era o Caçador
Não importa
Na margem do rio, atrás da última ponte, não há placas de pedra, bancos, álamos, soldados.
No chão da caixa estão as patas da raposa, por cima a barriga, o rabo. A cabeça está no alto. A caixa é de Clara, diz Adina. Viemos da cidade, ela tinha comprado sapatos e logo os calçou. Paul aperta o dedo no meio da tampa, a vela vai aí, ele diz.
Ele fecha a caixa.
Eu queria ficar com ela, diz Adina, eu me sentava à mesa, eu me colocava diante do armário, eu me deitava na cama, eu não tinha mais medo dela. Paul põe a vela no buraco, e agora a cabeça, ela diz, a raposa continua sendo um caçador. A vela queima, Paul segura a caixa sobre a água.
Ele a solta.
Em seguida, ele ergue a cabeça ao céu, Abi está deitado lá no alto de bruços, ele diz, olhando para nós. Não importa, diz Paul, isso não importa. Ele chora. A vela é clara feito um dedo. Talvez Ilije tenha razão, diz ele.
A noite se alonga, a caixa de sapatos boia.
Bem longe terra adentro, onde a planície está prestes a terminar, onde todos conhecem o caminho, onde a mesma noite consegue chegar com a pontinha do próprio pé, Ilije caminha pelo desvio através do campo. Ele carrega seu uniforme de soldado, seus sapatos encalombados em uma mala pequena. A estação de trem está sozinha, as luzes da cidade pequena iluminam onde o céu acaba, lado a lado feito uma barreira. As fronteiras não estão distantes agora.
Na sala de espera não há dazibaos, atrás do vidro nas vitrines ainda resta a poeira do verão. O guarda da estação mastiga sementes de girassol.
Timisoara, diz Ilije.
O guarda da estação cospe cascas de sementes de girassol pela janela do guichê, ida e volta?, ele pergunta.
Só ida, diz Ilije. Seu coração martela.
A trincheira do estádio puxa os arbustos pelados para mais próximo de si. A última bola em ação foi esquecida, a canção proibida foi cantada pelo país, agora está apertando na garganta, quando se prende fica muda. Pois os tanques ainda estão em todos os lugares na cidade e a fila do pão diante da padaria é longa. O corredor fundista pendura as pernas nuas sobre a cidade, no alto junto à trincheira, um sobretudo entra dentro do outro.
[1] Carta do baralho de Schafkopf, jogo de cartas alemão do final do século xviii, muito
popular na Baviera. O ás de bolota é ilustrado com o fruto do carvalho. (N.T.)
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Herta Müller
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