A Raposa Já Era o Caçador

Herta Müller · Capítulo 1 de 33

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A Raposa Já Era o Caçador

Epígrafe

Não importa, não importa,

eu me dizia, não importa.

 

Venedict Yerofeyev

O CAMINHO DO BICHO DA MAÇÃ

 

A formiga carrega uma mosca morta. A formiga não enxerga o caminho, ela vira a mosca de lado e rasteja para trás. A mosca é três vezes maior que a formiga. Adina puxa o cotovelo, ela não quer interromper o caminho da mosca. Uma pelota de piche brilha ao lado do joelho de Adina, a pelota cozinha ao sol. Ela toca de leve o dedo nela, um fio de piche vem junto com a mão, endurece no ar e se parte.

A formiga tem uma cabeça de alfinete, o sol não acha lugar para queimar. Ele arde. A formiga se perde. Ela rasteja, mas não vive; para o olho, ela não é um animal. As vagens do capim rastejam na periferia da cidade como ela. A mosca vive porque é três vezes maior e está sendo carregada; para o olho, ela é um animal.

Clara não enxerga a mosca, o sol é uma abóbora em brasa, ofusca. As pernas de Clara estão bem abertas, as mãos descansam entre os joelhos. Onde a calcinha corta as coxas, há pelos. Debaixo dos pelos há uma tesoura, um carretel de linha branca, óculos de sol e um dedal. Clara está costurando uma blusinha de verão. A agulha emerge, a linha avança, filha de uma mãe no gelo, diz Clara e lambe o sangue do dedo. Uma maldição com gelo, com a mãe da agulha, do fio, da linha. Quando Clara amaldiçoa, tudo tem mãe.

A mãe da agulha é o lugar que sangra. A mãe da agulha é a agulha mais velha do mundo, que pariu todas as agulhas. Para cada uma de suas agulhas, ela busca um dedo para picar em todas as mãos do mundo que costuram. Na maldição, o mundo é pequeno, sobre ele se penduram uma pelota de agulhas e uma pelota de sangue. E, na maldição, a mãe da linha fica à espreita do mundo com fios enovelados.

Você amaldiçoa com gelo neste calor, diz Adina, e os ossos malares de Clara moem, sua língua bate na boca. Clara, quando amaldiçoa, sempre está com o rosto enrugado, pois na maldição cada palavra é um projétil e pode acertar as coisas com as palavras nos lábios. Também a mãe das coisas.

Adina e Clara estão deitadas sobre uma toalha. Adina está nua, Clara usa só a calcinha do biquíni.

Maldições são frias. Maldições não precisam de dálias, de pão, de maçãs, de verão. Não são de cheirar nem de comer. As maldições são somente para provocar e render, para enraivecer por um instante e silenciar por longo tempo. Elas baixam as marteladas das têmporas aos pulsos e erguem a pulsação abafada ao ouvido. As maldições se intensificam e se estrangulam.

Quebradas, as maldições nunca existiram.

A toalha está no telhado do bloco residencial, álamos rodeiam o telhado. Eles são mais altos do que todos os telhados da cidade, o verde pende deles, não têm folhas, só folhagem. Elas não farfalham, eles rumorejam. Nos álamos, a folhagem fica na vertical como os galhos, não se vê a madeira. E, onde nada mais alcança, os álamos cortam o ar quente. Os álamos são facas verdes.

Quando Adina observa por muito tempo os álamos, eles giram as facas de um lado para o outro no seu pescoço. Seu pescoço fica tonto. E sua testa sente que nenhuma tarde consegue suportar nem um único álamo pelo tanto que a luz leva até desaparecer atrás da fábrica na noite. A noite teria de se apressar, a noite poderia segurar os álamos, porque não os vemos.

No meio dos blocos residenciais, o bater dos tapetes despedaça o dia, ele faz eco no alto sobre o telhado e lança as batidas umas nas outras, como a maldição de Clara faz com as palavras.

O bater dos tapetes não consegue erguer aos ouvidos a pulsação abafada do coração.

Depois da maldição, Clara está cansada e o céu está tão vazio que ela cerra os olhos, ofuscada pela luz, e Adina arregala os olhos e olha para cima, para o vazio, durante tempo demais. Bem lá no alto, onde até as facas verdes não alcançam, um fio de ar quente se estica até dentro do olho. Nele está pendurado o peso da cidade.

 

Na escola, pela manhã, uma criança disse a Adina, o céu está tão diferente hoje. Uma criança que sempre é muito quieta entre as outras crianças. Seus olhos são bem separados, isso torna suas têmporas estreitas. Minha mãe me acordou hoje às quatro, a criança disse, ela me deu a chave porque tinha de ir à estação. Quando saiu, fui com ela até o portão. Quando passei com ela pelo pátio, senti nos ombros que o céu estava muito próximo. Eu poderia ter me apoiado nele, mas não queria que minha mãe se assustasse. Quando voltei sozinho pelo pátio, as pedras estavam transparentes. Andei rápido. Na entrada, a porta estava diferente, a madeira estava vazia. Eu poderia ter dormido mais três horas, disse a criança, mas não adormeci mais. Depois acordei assustado, embora não tivesse dormido. Talvez tivesse dormido, sim, pois meus olhos estavam inchados. Sonhei que estava deitado na água, ao sol, com uma bolha na barriga. Puxei a pele da bolha e não doeu. Pois debaixo da pele havia pedra. O vento soprava e erguia a água no ar, era apenas um pano com dobras, não era água. E debaixo não havia pedra, debaixo do pano havia carne.

 

A criança riu para dentro da frase e do silêncio que veio depois. E seus dentes eram como cascalho, os escuros quebrados e os brancos, lisos. No rosto da criança havia uma idade que a voz infantil não suportava. O rosto da criança cheirava a fruta podre.

Era o cheiro das mulheres velhas, que aplicam uma grossa camada de pó no rosto, até que o pó fique tão ressecado quanto a pele. Mulheres cujas mãos tremem diante do espelho, que batem com o batom nos dentes e, mais tarde, observam os dedos diante do espelho. As unhas estão escovadas e têm uma meia-lua branca.

Quando a criança estava entre as outras crianças no pátio da escola, a mancha na maçã de seu rosto era a garra da solidão. Ela se ampliava, pois luz torta caía sobre os álamos.

Clara adormece, ela se distancia no sono, seu sono ao sol deixa Adina solitária. No bater dos tapetes, o sol se fragmenta em cascas verdes. No rumorejar dos álamos, as cascas verdes são todos os verões que ficaram para trás. Todos os anos em que somos crianças e ainda crescemos, e apesar disso percebemos que cada dia transborda por um canto à noite. Dias de criança com cabelos cortados em ângulos retos, a lama seca da periferia, o pó atrás do bonde, e sobre a calçada os passos dos homens grandes extenuados que ganhavam dinheiro para o pão.

A periferia estava pendurada na cidade com fios e canos e com uma ponte sem rio. A periferia era aberta nas duas extremidades, também as paredes, as trilhas e as árvores. Numa das extremidades da periferia, os bondes da cidade zoavam e as fábricas esfumaçavam a ponte sem rio. Às vezes, o zoar dos bondes embaixo e o esfumaçar em cima eram a mesma coisa. Na outra extremidade da periferia, o campo abocanhava e avançava para longe com folhas de beterraba, atrás piscavam paredes brancas. Elas eram do tamanho de uma mão, lá havia um vilarejo. Ovelhas penduravam-se entre o vilarejo e a ponte sem rio. Elas não abocanhavam folhas de beterraba, crescia grama nas trilhas do campo e elas abocanhavam a trilha antes de o verão terminar. Chegavam diante da cidade e lambiam as paredes das fábricas.

A fábrica ficava diante e atrás da ponte sem rio, ela era grande. Atrás das paredes, gritavam vacas e porcos. À noite, queimavam-se chifres e cascos, um ar fétido tomava conta da periferia. A fábrica era um abatedouro.

De manhã, quando ainda estava escuro, galos cacarejavam. Eles atravessavam pátios cinza, assim como os homens extenuados atravessavam as ruas. E eles tinham a mesma cara.

Depois do último ponto de parada, os homens atravessavam a ponte a pé. O céu pendia baixo sobre a ponte, e quando ele estava vermelho os homens traziam uma crista vermelha na cabeça. Quando cortava o cabelo do pai de Adina, o barbeiro da periferia dizia, para os heróis do trabalho não há nada mais bonito do que uma crista de galo.

Adina perguntou ao barbeiro sobre as cristas vermelhas, pois ele conhecia cada couro cabeludo e cada redemoinho. Ele dizia, os redemoinhos estão para o cabelo como as asas estão para os galos. Por isso, Adina sabia que em todos os anos cada um dos homens extenuados iria voar sobre a ponte uma vez. Só que ninguém sabia quando.

Pois os galos voavam sobre as cercas e antes de voar bebiam água de latas de conservas vazias nos pátios. De noite, eles dormiam em caixas de sapatos. Quando as árvores ficavam frias à noite, os gatos entravam nessas caixas.

O ponto final ficava periferia adentro, a setenta passos da ponte sem rio. Adina contara os passos porque o último ponto de um lado da rua era o primeiro do outro lado. Os homens desciam devagar no último ponto e as mulheres subiam rápido no primeiro. E, antes de subir, as mulheres corriam. De manhã cedo, seus cabelos estavam amassados e as bolsas voavam, e elas tinham manchas de suor debaixo dos braços. Estas muitas vezes estavam secas e com bordas brancas. Nos dedos das mulheres, óleo de máquina e ferrugem roíam o esmalte. Ao correr até o bonde, o cansaço da fábrica entre o queixo e os olhos já existia.

Quando os primeiros bondes zoavam, Adina acordava e passava frio em seu vestido de verão. O vestido tinha uma estampa de árvores. As copas das árvores estavam ao contrário. A costureira usara o tecido de ponta-cabeça na hora de cosê-lo.

A costureira morava em dois cômodos pequenos, o assoalho tinha arestas e as paredes, úmidas, tinham barrigas em todos os lugares. As janelas davam para o pátio interno. Havia uma placa de metal apoiada numa das janelas, lia-se cooperativa do progresso.

A costureira chamava os cômodos de oficina. Havia tecidos sobre a mesa, sobre a cama, sobre as cadeiras e arcas. Havia retalhos de tecidos no chão e nas soleiras das portas. Havia um bilhete com um nome fixado em cada tecido. Atrás da cama, numa caixa de madeira, havia um saco com retalhos. E sobre a caixa de madeira estava escrito sem utilidade.

A costureira procurava as medidas das pessoas num caderninho. Quem vinha havia anos fazia parte dos clientes fixos. Quem vinha raramente ou apenas uma vez, dos clientes passageiros. Quando os clientes fixos traziam um tecido, a costureira não anotava mais suas medidas no caderno. A costureira só anotava sempre as medidas de uma mulher extenuada como os homens e que ia todos os dias ao abatedouro. Ela segurava a fita métrica com a boca e dizia, se quer um vestido, você teria de ir ao veterinário. Se continuar emagrecendo a cada verão, daqui a pouco meu caderno estará cheio de seus ossos.

A mulher trazia um caderno novo para a costureira várias vezes no ano. Na capa estava escrito caderno da brigada e sobre as colunas, peso vivo e peso abatido.

Adina nunca podia andar descalça na oficina, havia alfinetes no chão entre os retalhos. Só a costureira sabia como pisar sem levar uma picada. Uma vez por semana ela engatinhava com um ímã pelos cômodos e todos os alfinetes saltavam do chão para sua mão.

Na prova do vestido, a mãe de Adina disse para a costureira, as árvores estão para baixo, você não está vendo?, você virou o tecido. A costureira poderia ter desvirado o tecido, ele estava apenas alinhavado com linha branca. Ela segurava dois alfinetes na boca, o que importa é atrás e na frente, ela disse, e que o zíper fique na esquerda, se eu olho daqui embaixo é em cima. Ela curvou o rosto até o chão, as galinhas enxergam assim, ela disse. E os anões, disse Adina. Pela janela, sua mãe olhou para o pátio interno.

Na rua lateral havia uma vitrine com cruzes, chaminés de fogão e regadores de zinco. Estavam apoiados em jornais velhos e diante deles, sobre uma toalha bordada, havia uma placa de metal que dizia cooperativa do progresso.

As cruzes, chaminés de fogão e regadores tremiam quando o bonde passava. Eles não tombavam.

Atrás da vitrine havia uma mesa com tesouras, alicates e parafusos, atrás da mesa havia um homem sentado. Ele era funileiro. Ele usava um avental de couro. Sua aliança estava pendurada no pescoço por um barbante, porque em ambas as mãos lhe faltavam os dedos anulares.

Ele também tinha clientes fixos e clientes passageiros. Os clientes fixos diziam que sua primeira mulher tinha morrido havia tempos, e ele não encontrara uma segunda porque a aliança ficava pendurada num barbante. O barbeiro dizia que o funileiro nunca teve mulher, ele fora quatro vezes noivo com esse anel, nunca casado. Quando a vitrine estava cheia de cruzes, chaminés de fogão e regadores, o funileiro soldava panelas velhas.

Quando o bonde passava pela vitrine, os rostos do vagão ficavam entre as cruzes e as chaminés de fogão. Sobre os regadores, os rostos se ondulavam pelo movimento e pelo brilho do zinco. Depois de o bonde passar, o regador refletia apenas a claridade da neve pisada.

Adina usou por vários verões o vestido com as árvores caindo. Ela cresceu e o vestido encurtou a cada verão. E as copas das árvores continuavam penduradas para baixo e mais pesadas. Na beira da calçada, debaixo de árvores que cresciam para cima, a menina da periferia tinha um rosto tímido. As sombras das árvores nunca cobriam o rosto todo. A maçã do rosto à sombra permanecia fresca, e aquela sob o sol ficava quente e mole. Na maçã fresca do rosto, Adina sentia um zíper.

Depois de uma chuva de verão que não refrescou as pedras, correntes de formigas se meteram nas frestas das pedras no pátio interno. Adina fez escorrer água com açúcar pelo tubinho transparente de uma agulha circular. Ela pôs o tubinho numa fresta. As formigas se meteram lá dentro, uma ao lado da outra, cabeça com barriga. Adina colou as extremidades do tubinho com a chama de um fósforo e usou-o como colar. Ela se postou diante do espelho e viu que o colar vivia, embora as formigas estivessem grudadas ao açúcar, mortas, cada qual no lugar onde tinha sufocado.

Para o olho, apenas no colar cada formiga virava animal.

Adina ia toda semana ao cabeleireiro porque o cabelo crescia rápido e não devia cobrir as extremidades das orelhas. No caminho para o cabeleireiro, ela passava pelas vitrines com as cruzes, as chaminés de fogão e os regadores. O funileiro acenava atrás da vidraça, ela entrava. Ele lhe dava um saco feito de jornal. Dentro dele havia, em maio, cerejas; em junho, eram pêssegos; no verão, uvas — embora em nenhum jardim elas estivessem maduras. Naquela época, Adina achava que o papel do jornal modificava as frutas.

Ao lhe dar o saco, o funileiro dizia, coma, senão apodrece. Ela comia rápido, as frutas poderiam apodrecer ainda enquanto ele falava. Daí o funileiro dizia, coma devagar, para que você saboreie cada bocado.

Ela mastigava e engolia e observava o fogo ardendo no soldador, como ele recobria os furos na base da panela e os preenchia. Os buracos preenchidos brilhavam como as chaminés dos fogões, os regadores e as cruzes na vitrine. Se o fogo não comer a panela, a morte pega a bunda, dizia o funileiro.

Certa vez, numa tarde, Adina foi cortar o cabelo com o colar de formigas. Ela estava sentada na cadeira diante do espelho grande e balançava as pernas. O cabeleireiro penteou o cabelo dela na nuca, segurou o pente diante dos olhos, ou as formigas somem ou some você com as formigas, ele disse.

Um homem dormia no canto. O gato do cabeleireiro estava deitado no seu colo. O homem estava extenuado, e a cada manhã, quando ia ao abatedouro, crescia-lhe uma crista de galo sobre a ponte. Ele acordou com um susto e lançou o gato do espelho até a porta. Já estou farto dos bichos mortos no abatedouro, disse. Ele cuspiu no chão.

O chão estava coberto com cabelos cortados, com o cabelo de homens extenuados que se conheciam. Eram ressecados, grisalhos claros e escuros, e brancos. Eram muitos cabelos, como num grande couro cabeludo. Baratas caminhavam entre as mechas. As mechas se levantavam e abaixavam. Os cabelos viviam porque eram carregados pelas baratas. Eles não viviam sobre a cabeça dos homens.

O cabeleireiro deixou a tesoura cair na gaveta aberta, desse jeito não consigo cortar cabelos, ele disse, as formigas ficam andando debaixo da minha roupa. Ele arrancou a camisa de dentro da calça e se coçou; vergões vermelhos apareceram na sua barriga depois que ele afastou os dedos. Ele amaldiçoou a mãe das formigas. O do abatedouro amaldiçoava a mãe dos cadáveres. De repente, o espelho estava tão alto e a gaveta tão baixa que Adina enxergou seus pés debaixo da cadeira pendurados de um telhado. Ela saiu e ficou diante da porta, onde o gato estava deitado. O gato acompanhou-a com o olhar, ele tinha três olhos.

Uma semana mais tarde, o cabeleireiro deu bombons para Adina. Havia cabelos grudados neles que picavam a garganta. Adina quis cuspir os bombons e ele disse, eles limpam a garganta.

Os bombons estalavam na garganta e Adina perguntou, quando o homem que jogou o gato vai morrer? O cabeleireiro meteu uma mão cheia de bombons na boca e disse, quando o homem tiver cortado tanto cabelo que seja possível encher um saco, um saco bem cheio. Quando o saco estiver tão pesado quanto o homem, daí ele morre. Eu guardo os cabelos de todos os homens num saco, até o saco ficar bem apertado, disse o cabeleireiro. Eu não peso os cabelos com a balança, eu peso com os olhos. Eu sei, ele disse, quanto cabelo cortei de cada um em todos os anos. Sinto o peso com os olhos, não me engano. Ele soprou na nuca de Adina.

O cliente que tinha jogado o gato vai voltar mais umas sete ou oito vezes, ele disse. Por isso eu não falei nada, embora o gato não coma mais nada desde então. Não quero lançar à incerteza de outro barbeiro os últimos cortes de um cliente de muitos anos. Uma ruga caía do canto de sua boca, ela cortava seu rosto.

Clara está ao lado do cobertor, ela veste a blusa de verão. O dedal no seu dedo indicador arde sob o sol. Suas pernas são magras; para dar uma volta ao experimentar a blusa, se aproximaram da barriga. É a marcha de um pássaro magro, que não precisa fazer nada além de observar o verão e ser belo. O álamo com a faca, que está próximo, assiste. Nas axilas raspadas de Clara, os tocos estão crescendo de volta. Debaixo dos seus braços, eles já são o queixo do homem ao qual Clara se refere. Ainda não encontrei um homem com estilo, ela diz. Um desejo.

Clara ri, estica as pernas, o desejo foi aquecido pelo sol e está tonto por causa do telhado. Sua cabeça não sabe nada das facas verdes dos álamos, da beirada do telhado, das nuvens, da cidade. E que no verão esse telhado fica cheio de formigas que carregam moscas mortas. E que esse telhado sob o sol não é outra coisa senão um canto do céu.

O vestido de verão com as árvores que caem e o zíper num dos lados do rosto fizeram com que Adina, durante anos, não gostasse de vestidos. Adina começou a medir a vida das mulheres pelo peso dos restos de tecidos na costureira. Ela ia lá com frequência, ficava sentada e observava. Ela colava seu olho clínico teimoso em todas as clientes. Ela sabia qual mulher logo teria seu saco repleto de restos de tecidos, um saco apertado, tão pesado quanto a mulher. E que a mulher do abatedouro ainda precisaria de muitos vestidos até morrer.

Clara tira do bolso uma maçã pequena de verão, vermelha e manchada, e a segura debaixo do queixo de Adina. O dedal reluz e corta superficialmente a casca da maçã. Uma maçã pequena com um pedúnculo longo, muito daquilo que deveria ter se constituído em maçã está empedrado e cresceu no pedúnculo. Adina morde fundo na maçã. Cuspa, um bicho, diz Clara. Um fiozinho marrom está enterrado na polpa da maçã. Adina engole o pedaço e o bicho. É só um bicho de maçã, ela diz, ele cresce na maçã, é feito de polpa de maçã. Ele não cresce na maçã, diz Clara, ele entra na maçã, ele aboca de um lado até o outro. Esse é o seu caminho.

Adina come, as mordidas estalam em seu ouvido, o que ele faria do lado de fora?, ela pergunta, ele é pura polpa de maçã, é branco e come polpa branca e caga um fio marrom, ele aboca de um lado até o outro e morre na maçã. Esse é o seu caminho.

Os olhos de Clara estão sem maquiagem e o céu está vazio, e as facas dos álamos estão na vertical e são verdes. Os olhos de Clara são pequenos. As pupilas procuram, por debaixo dos malares dela, o caminho retilíneo até a boca. Clara faz silêncio, deita-se sobre a coberta e fecha os olhos.

Sobre o bloco residencial há uma nuvem, branca e revolta. Velhos que morrem no verão permanecem um tempo sobre a cidade, entre a cama e o túmulo.

Clara e o velho do verão dormem o mesmo sono. Adina sente o caminho do bicho da maçã na barriga. Do lado de dentro das coxas, ele atravessa os pelos pubianos até os joelhos.