A Raposa Já Era o Caçador

Herta Müller · Capítulo 18 de 33

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A Raposa Já Era o Caçador

Minha cabeça está escura

 

Adina sai da escola à tarde. Ela lava as mãos porque o giz corrói os dedos. Há duas cascas de sementes de girassol boiando na privada. Antes de conseguir pensar, ela sabe: a raposa.

A segunda pata traseira está cortada e foi deixada junto da barriga, como se tivesse nascido lá. Fora isso, tudo está como sempre, o quarto, a mesa, a cama, a cozinha, o pão, o açúcar, a farinha. Do lado de fora, ar cego pressiona contra a janela, paredes cegas se entreolham. Adina se pergunta, por que o quarto, a mesa, a cama permitem o que está acontecendo aqui?

Adina acerta o despertador para o começo da manhã, o ponteiro gira a folha de grama na boca de Ilije. Ela vai até ele.

A lanterna não é suficiente para enxergar, o círculo claro diante dos sapatos é suficiente para apertar os olhos. Roupas vazias caminham para lá e para cá no ponto do bonde e já no começo da manhã carregam sacolas cheias.

O trilho range, o bonde passa fazendo barulho debaixo das casas. Em seguida passam as janelas claras, todos sabem onde a porta se abre. Os cotovelos empurram. O sono viaja também, o suor de inverno tem um cheiro amargo, a luz apaga duas vezes nas curvas, é amarela e fraca e, mesmo assim, explode no meio do rosto. Duas galinhas marrom-avermelhadas surgem do cesto de uma mulher. Elas curvam o pescoço, mantêm o bico semiaberto, como se tivessem de procurar a laringe no pescoço antes de respirar. Seus olhos são rasos, marrom-avermelhados como as penas. Mas quando elas curvam o pescoço, uma cabeça de alfinete brilha nos olhos.

 

No início do ano, a costureira da periferia tinha comprado dez pintinhos no mercado. Ela não tinha uma poedeira. Estou sentada aqui e costuro e eles crescem sozinhos, ela disse. Enquanto tinham penugem, os pintinhos ficavam com ela na oficina. Eles andavam por lá ou ficavam sentados nos restos de tecido e se aqueciam. Quando ficaram maiores, passavam desde de manhã até a noite no quintal. Apenas um estava sempre na oficina. Ele saltava com um pé sobre os restos de tecido, o outro pé era aleijado. Ele sentava-se durante horas e observava a costureira costurando. Quando ela se levantava, ele saltava atrás de seus passos. Quando não havia clientes, ela conversava com ele. A galinha tinha penas vermelhas cor de ferrugem e olhos cor de ferrugem. Sendo a que menos andava, foi a que cresceu mais rápido e que engordou antes. Foi a primeira a ser abatida, antes ainda de o verão começar de verdade. As outras galinhas ciscavam no pátio.

A costureira falou durante todo um verão sobre a galinha aleijada. Ela disse, tive de abatê-la, era como um filho.

 

O homem na plataforma da estação carrega um grande bigode preto no rosto, um grande chapéu de veludo preto sobre a cabeça e uma estufa de lata de três pernas diante da barriga. E a mulher ao seu lado usa um lenço de cabeça florido e uma saia florida e uma chaminé de fogão com um joelho debaixo do braço. E a criança ao seu lado usa um gorro de pompom grande e uma porta de forno na mão.

 

No compartimento há um homem sentado diante de uma mãe e um pai, e entre eles uma criança bem agasalhada.

A noite rasga, Adina enxerga o viaduto no alto sobre os trilhos e embaixo, as escadas. Grandes roupas escuras descem as escadas e pequenas roupas escuras já estão caminhando no alto do céu, como se quem chegasse lá em cima fosse apenas metade de si. No começo do dia, pouco antes do trabalho, apenas uma criança velha, que encolhe.

Do outro lado, as escadas descem diante do portão da fábrica. Mesmo quando o trem passa pelos ouvidos, dá para escutar a fábrica.

Durma, diz a mãe, a criança encosta nela. Os blocos residenciais oprimem no escuro. Atrás, na periferia, fica o presídio da cidade, as torres de vigia passam pelo vidro, em cada uma delas há um mesmo soldado morto de frio, outro Ilije, pensa Adina, alguém que tem a confiança da noite, da geada, da arma e do poder, mesmo que ele esteja totalmente a sós.

Durante um ano, mês a mês, Ilije teve de ir a trabalho a Bucareste, saiu da cidade todas as vezes nessa direção, passando ao lado do presídio. As celas ficam atrás, no pátio. Quem não tem ninguém lá não as vê, Ilije disse naquela época, mas quem tem alguém lá sente na cabeça para onde tem de olhar. Por algumas centenas de metros nesse trecho, ele disse, os rostos se confrontam no vagão. Nessa hora é possível sentir, debaixo de todos os outros olhos, aqueles que sabem para onde têm de olhar.

 

Deveríamos dormir o tempo todo, pois assim não sentimos nada, diz o pai ao filho. O filho assente. A mulher com as galinhas marrom-avermelhadas atravessa o vagão.

Antigamente eu sempre dormia no trem, diz o velho, e no bonde. Todas as manhãs eu deixava o vilarejo para ir à cidade e todas as noites para casa. Eu tinha de ir para a estação às cinco, durante vinte e sete anos. Eu conhecia o trajeto como o pai-nosso. Um dia, apostei uma ovelha que saberia encontrar o caminho de olhos fechados, e ganhei a ovelha. Encontrei o caminho com os olhos vendados, e isso no inverno, com gelo e com neve. E o caminho é longo, mais de trezentos passos. Naquela época, ele diz, eu conhecia cada fresta do chão, eu sabia onde havia um buraco e uma elevação. E eu sabia, com três ruas de antecedência, onde um cachorro latia e também onde um galo cantava. E, quando o galo não cantava às segundas, eu sabia que tinha sido abatido no domingo. Eu sempre adormecia no trabalho, ele disse, era alfaiate, conseguia dormir até com alfinetes na boca.

Quero uma maçã, diz a criança, e a mãe diz, durma, e o pai diz, dê uma maçã para ela.

E agora sou velho, diz o homem, e não consigo mais dormir, nem mesmo na minha cama. Não importa, diz ele, não importa.

A criança morde a maçã, mastiga devagar e aperta o dedo na mordida. Está gostosa?, pergunta a mãe, e a criança diz, está fria.

Nas segundas-feiras do inverno, quando o pai de Adina voltava do abatedouro, ele trazia uma sacola cheia de pequenas maçãs. Elas eram tão frias que as cascas embaçavam no quarto como as lentes dos óculos. Adina sempre comia rapidamente uma maçã. A primeira mordida doía, ela era tão fria que a mordida girava nas têmporas antes de ser engolida. E a segunda mordida era sentida por toda a cabeça. A mordida não doía mais porque o cérebro já tinha congelado.

Depois de Andina ter comido a maçã fria, ela levava três maçãs para o quintal e as deixava congelar durante a noite, ao relento. Ela deposita as maçãs sobre as pedras, com um palmo de distância uma das outra, para que o gelo escuro pudesse morder toda a casca. Pela manhã, elas descongelavam na cozinha. Estavam macias e marrons. Adina preferia comer maçãs congeladas.

O pai da criança saiu do compartimento, ele está há tempos no corredor, carrega há tempos o campo nu na testa. Ele viu três veados e a cada vez chamou a mãe e a cada vez ela, dormindo, mexeu a criança e a cabeça e não foi até lá.

Agora os passageiros se apertam no corredor, Adina também, uma mulher redonda também, que usa uma gola de raposa com as patas amarradas, e o velho esquálido que ganhou a aposta e a ovelha.

O Danúbio corre ao lado do rio, dá para ver também a outra margem e as ruas, finas como uma linha, carros em movimento e florestas. Nenhum sapato se arrasta no corredor, ninguém caminha, ninguém fala. Os olhos do velho também estão arregalados e afastam as rugas. Da boca do pai sai um suspiro, uma inspiração escondida. Em seguida ele fecha a boca, olhe, a Iugoslávia, ele diz para dentro do compartimento. Mas a mãe continua sentada no compartimento. O irmão dela foi nadando para lá há seis anos, ele diz, agora está em Viena. Ele pisca, ele quer ver cada uma das ondas no brilho, a senhora tem filhos?, ele pergunta. Adina diz, não.

Não há bancos na sala de espera, apenas uma estufa de ferro fria. Sobre o chão quebrado de cimento há escarro verde-claro e cascas de semente de girassol. Sobre a estufa fica um dazibao, três vezes a foto do ditador, a pupila tão grande quanto o botão do sobretudo de Adina. Ela brilha. E o escarro sobre o chão brilha.

Aquilo que brilha vê.

Diante da estação há um banco, Ilije escreveu no verão, ao lado fica o ponto de ônibus. O ônibus é exclusivo para os oficiais que vêm da cidade pequena para o quartel. Às vezes, porém, o motorista dá carona aos soldados, mas prefere mulheres jovens.

Há cinco oficiais no ônibus. Eles estão usando gorros com orelhas cinza de pelos, amarrados na cabeça com fitas verdes. As orelhas dos oficiais estão debaixo das orelhas de pelos; as orelhas dos oficiais têm bordas vermelhas por causa da brasa do frio. Suas nucas são raspadas.

O motorista usa um chapéu e um terno debaixo do sobretudo aberto. Das mangas do sobretudo despontam punhos brancos com riscas escuras de sujeira e gordas abotoaduras azuis. Na mão esquerda do motorista reluz um anel de sinete. Três oficiais embarcam.

Para onde?, pergunta o motorista, Adina ergue a bolsa sobre os degraus, para o quartel, ela diz. Ele se curva, sobre sua mão há um cachecol azul. Ele leva a bolsa até o corredor, mulheres bonitas sempre fazem bem ao nosso Exército, ele diz. Os oficiais riem, suas vozes são uma cascata.

Adina senta-se no primeiro banco ao lado de um oficial de têmporas brancas. Ele cheira a roupas úmidas de inverno. Quem a senhorita está indo visitar?, pergunta uma voz atrás, e Adina gira a cabeça e vê um dente dourado por trás de assentos vazios. O sobretudo dela está embrulhado em sobretudos verdes, um soldado, ela diz. O motorista ergue a mão no ar, uma fábrica despeja canos e cercas no campo, temos muitos, ele diz, quando chegarmos lá a senhorita terá de se decidir por um.

O milho se curva para longe do vidro, quebrado, esquecido no gelo, por que um?, pergunta o do dente dourado, há suficientes neste país. A risada bate num pedaço de floresta, preta e desmatada.

Como se chama o seu soldado?, pergunta o oficial ao pé do ouvido de Adina, suas têmporas são de papel, seus olhos olham para as mãos dela, seus globos oculares têm um brilho verde do sobretudo. Ela diz, ele se chama Dolga, corvos voam pelo campo, e o oficial diz, há dois desses, e o do dente dourado ri tão alto que a fita sobre sua cabeça se solta e a orelha esquerda de pele cai sobre a ombreira.

Ele tira o gorro, seu cabelo está amassado, suas têmporas, raspadas. Ele prende as orelhas, a fita é curta, seu dedo é grosso, ele fecha os lábios sobre o dente dourado, o laço fica tão pequeno como as pontas de dois dedos, ele veste o gorro.

Como ele se chama mesmo?, pergunta o oficial ao lado de Adina, e ela puxa os dedos para dentro das mangas do sobretudo e diz, Ilije.

Uma cova passa lá fora, está recoberta por um juncal seco, qual é a sua profissão, senhorita?, pergunta o oficial ao lado de Adina e gira o botão de seu sobretudo, e atrás da curva fica a alameda dos álamos que Ilije descreveu e um muro e a caserna, professora, diz Adina.

Tudo é plano, Ilije tinha escrito, ficamos sentados ou deitados do lado de fora sobre o nada, mas mesmo as menores plantas atrapalham a vista, até em pé não se enxerga lugar nenhum.

O vento bate nas fileiras de árvores, não dá para escutá-lo, então a senhorita conhece A última noite de amor, a primeira noite de guerra?, diz um oficial atrás do motorista, um livro parecido com a vida, minha senhorita, um belo livro.

Todos eles têm nucas nuas, têmporas nuas, pensa Adina, eles são tosados há anos, nenhum deles é jovem. Em algum momento irão rir e, no meio da risada, no meio do alarido, um perceberá no outro que os sacos com os cabelos cortados estão tão cheios e pesados quanto eles mesmos.

 

As mãos de Ilije tremem, suas unhas estão sujas e lascadas. Fiquei por uma hora sozinha no vagão, diz Adina, não havia sol em lugar nenhum, mas sombras por todo o lado, e daí adormeci.

Sonhei, diz Adina, que uma raposa passava por um campo vazio, ele tinha acabado de ser arado. A raposa se agachou ao andar e comeu terra. Ela comia e comia e ficava cada vez mais gorda.

Há um painel ao lado da porta, uma foto com um tanque no limite de uma floresta, soldados estão sentados sobre o tanque e um deles é Ilije. Os oficiais estão em pé na grama.

Você está com a vida boa, diz Ilije, você ainda tem medo, minha cabeça está escura, há tempos não sonho mais nada. Acima e abaixo da foto do tanque há a foto do ditador, a pupila. Aqui é preciso se esquecer todos os dias, diz Ilije, sei apenas uma coisa sobre mim, que eu vivo pensando em você. Diplomas de honra da unidade estão pendurados ao lado da pupila.

Ilije aponta para o tanque, em outubro, ele diz, estivemos com o tanque na chapada. Ele beija os dedos de Adina, em qual chapada?, ela pergunta, aqui é tudo plano. Longe, ele diz, aqui é tudo chapada, atrás da floresta há um morro. Subindo o morro, tivemos todos de descer e jogar pedras atrás das correntes; descendo o morro, na frente das correntes. Quando o tanque chegou no limite da floresta, embaixo, nos deitamos na grama. Não levantamos o dia inteiro. À noite, marchamos a pé de volta para o quartel.

Sua mão é áspera, ele ri e engole a voz, o tanque está até hoje lá na floresta, ele diz, venha até o pátio.

Seu braço puxa e sua boca também, se os russos estivessem esperando por nós, ele diz, ainda não teriam chegado a Praga.

Ilije fica parado diante de uma porção de sacos molhados, carregamos esses da parede até a cerca, da cerca até o caminho, do caminho à parede, ele diz. Seus sapatos fazem barulho, quando eu me livrar deles, ele diz e aponta para os sapatos encalombados, será verão, e eu só conheço um caminho suave, o Danúbio.

Um soldado passa carregando um balde fumegante, Adina fecha o sobretudo, se tranca com os braços dentro dele, para que seus ossos apareçam deitados no trigal no verão seguinte, ela diz. A alameda de álamos é pequena, ela se esconde na terra porque logo vai escurecer e o rosto de Ilije está repuxado para a frente, você vem junto, ele diz, seu rosto é comprido, sua nuca, suas têmporas estão raspadas. Ele se curva até ela, e ela balança a cabeça.

Lá no céu, você será um anjo com um ferimento à bala, diz Adina olhando para o chão, ou lá embaixo, no asfalto. Lá você andará à noite com a vassoura, varrendo as ruas em Viena.

E você vai ficar aqui, diz Ilije, você vai ficar esperando que eles retalhem sua raposa, e depois?